19/07/2026
B”H
A HILULÁ DO ARIZAL
Uma Jornada Mística de Luz, Exílio e Reparação
Ao cair da noite de 18 de julho de 2026, ingressamos no dia 5 de Av de 5786, data consagrada à Hilulá de Rabi Yitzchak Luria Ashkenazi, o santo Arizal. É profundamente significativo que sua memória se eleve justamente durante o mês de Av, quando Israel atravessa o estreito das ruínas e contempla as consequências do exílio. Pois toda a obra do Ari pode ser compreendida como uma revelação acerca do exílio da Luz — e, sobretudo, acerca do caminho pelo qual essa Luz poderá ser resgatada.
Hilulá não é apenas uma recordação histórica. Na linguagem dos mestres, o dia do falecimento de um tzadik assinala uma nova elevação de sua neshamá e uma intensificação espiritual de tudo aquilo que ele revelou durante sua passagem pelo mundo. O corpo se retira, mas a Torá ensinada permanece atuante. A voz já não é escutada pelos ouvidos, porém continua atravessando gerações, despertando consciências e conduzindo almas.
Por isso, celebrar a Hilulá do Arizal é entrar novamente em seu ensinamento. É abrir o coração diante do mistério da Criação e perguntar: por que existe fragmentação? Por que a Luz parece ocultar-se? Por que a alma experimenta distância, exílio e incompletude? E, acima de tudo: qual é a nossa participação na reparação de tudo aquilo que se encontra disperso?
Rabi Yitzchak Luria nasceu em Jerusalém, em 1534, e partiu deste mundo em Tzfat, no dia 5 de Av de 5332, em 1572. Viveu apenas trinta e oito anos, mas sua passagem breve alterou profundamente a história da Cabalá. Depois de perder o pai ainda criança, foi criado no Egito por seu tio materno. Ali estudou com grandes sábios, entre eles Rabi Betzalel Ashkenazi e o Radbaz, Rabi David ben Zimra. Posteriormente, aprofundou-se no Zohar e dedicou longos períodos ao estudo, à oração, à contemplação e ao refinamento interior.
Por volta de 1570, retornou à Terra de Israel e estabeleceu-se em Tzfat, cidade que havia se tornado um grande centro de Torá e de vida mística. Ali esteve próximo de Rabi Moshe Cordovero, o Ramak, e, após o falecimento deste, tornou-se mestre de um círculo restrito de discípulos. Embora o próprio Ari tenha deixado poucos escritos, seus ensinamentos foram preservados principalmente por seu discípulo Rabi Chaim Vital, por meio das obras posteriormente conhecidas como Kitvei HaArizal, os Escritos do Arizal. Sua atuação pública em Tzfat durou aproximadamente dois anos, mas a Luz transmitida nesse curto período atravessou séculos e transformou a compreensão judaica da Criação, da alma, da oração e das mitzvot. Síntese biográfica do Arizal
O nome Ari significa “leão”, mas também é compreendido como um acrônimo honorífico ligado a Eloki Rabi Yitzchak, “o divino Rabi Yitzchak”. Com o acréscimo de zal — zichrono livrachá, “que sua memória seja uma bênção” — temos o nome pelo qual ele se tornou conhecido: Arizal.
Entretanto, sua verdadeira grandeza não estava somente na extensão de seu conhecimento. O Ari possuía uma percepção espiritual para a qual a realidade visível era apenas a camada exterior de uma arquitetura muito mais profunda. O mundo material não era vazio, imóvel ou separado do sagrado. Cada ser, cada encontro, cada alimento, cada palavra e cada circunstância poderiam conter vestígios de uma Luz primordial aguardando libertação.
Para o Arizal, não existem espaços espiritualmente insignificantes. Existem lugares cuja santidade ainda não foi revelada.
Sua Cabalá começa diante de um dos maiores mistérios: se o Ein Sof, o Infinito, preenche toda a realidade, como poderia existir algo aparentemente distinto Dele? Como poderia surgir um mundo finito no interior da infinitude divina?
A resposta é apresentada por meio do mistério do Tzimtzum, a restrição ou ocultamento primordial.
Não devemos compreender o Tzimtzum como uma retirada física ou como se D’us tivesse abandonado alguma região da existência. O Ein Sof não está sujeito a espaço, deslocamento ou ausência. O Tzimtzum descreve, em linguagem simbólica, o ocultamento da manifestação ilimitada da Luz, tornando possível que os mundos e as criaturas experimentassem uma existência própria.
D’us não deixou de estar presente. Sua presença tornou-se velada.
O ocultamento possibilitou a existência do outro, da liberdade, da escolha e da responsabilidade. Se a Luz infinita permanecesse inteiramente manifesta, nenhuma criatura poderia perceber-se como existente. Tudo seria absorvido pela absoluta unidade divina. O Tzimtzum constitui, portanto, um mistério de amor: o Infinito oculta Sua infinitude para conceder espaço à criatura.
Depois desse ocultamento, um raio de Luz — o Kav — penetrou o espaço metafórico deixado pelo Tzimtzum. Por meio desse raio iniciou-se uma nova ordem de emanação, relacionada a Adam Kadmon, o Homem Primordial, e ao desdobramento das sefirot e dos mundos espirituais.
A Luz, porém, era intensíssima, e os vasos ainda não estavam preparados para recebê-la de forma harmoniosa. Ocorreu então o acontecimento denominado Shevirat HaKelim, a Quebra dos Vasos. Os recipientes associados especialmente às sete sefirot inferiores não puderam conter plenamente a intensidade da Luz e se romperam. Seus fragmentos desceram aos níveis inferiores da existência, carregando consigo centelhas da santidade.
Assim surgiram as nitzotzot, as centelhas divinas dispersas na materialidade, envolvidas por fragmentos e ocultamentos chamados kelipot, cascas ou invólucros. A realidade que conhecemos nasceu, assim, marcada por uma tensão: existe Luz em toda parte, mas essa Luz nem sempre pode ser reconhecida. Existe santidade dentro do mundo, mas ela aparece revestida, fragmentada e, muitas vezes, exilada. A quebra dos vasos e as centelhas sagradas
Essa visão transforma radicalmente a maneira como contemplamos a existência. O mundo não é um lugar definitivamente abandonado ou irremediavelmente corrompido. É um campo de reparação. A matéria não é inimiga do espírito; ela é um território no qual a santidade espera ser revelada.
Uma centelha pode estar oculta no alimento que recebemos com gratidão, na palavra que escolhemos pronunciar com bondade, no recurso material empregado para uma mitzvá, no sofrimento que transformamos em compaixão, no encontro que nos ensina a amar e até mesmo no obstáculo que nos obriga a descobrir uma força ainda desconhecida dentro de nós.
Esse processo recebe o nome de Tikkun — reparação, reintegração, restauração da harmonia.
Na Cabalá Luriânica, o Tikkun não é apenas uma ideia abstrata nem se limita ao aperfeiçoamento social, embora necessariamente produza responsabilidade ética. Trata-se da restauração da ordem espiritual dos mundos e da elevação das centelhas dispersas. Cada mitzvá cumprida com consciência, cada berachá pronunciada com presença, cada estudo realizado com reverência, cada gesto de tzedaká e cada ato de bondade podem libertar santidade do ocultamento e reconduzi-la à sua raiz.
A ação humana, portanto, adquire proporções cósmicas.
Nenhuma mitzvá é pequena. Nenhuma palavra de bondade é perdida. Nenhuma escolha verdadeiramente sagrada permanece restrita ao instante em que foi realizada. O que fazemos no mundo visível movimenta dimensões que nossos olhos não alcançam.
O Ari nos ensina que a Criação não deve ser contemplada somente como um acontecimento distante, encerrado no princípio dos tempos. A Criação continua. A cada momento, o mundo é sustentado pela Vontade Divina; e, a cada momento, somos chamados a participar de seu aperfeiçoamento.
Não somos criadores independentes, mas parceiros responsáveis dentro da obra do Criador. Pela mitzvá, pela tefilá, pela teshuvá e pela kavaná, colaboramos com a passagem do caos à harmonia, do ocultamento à revelação, da dispersão à unidade.
A kavaná, a intenção sagrada, ocupa um lugar central nesse caminho. Uma ação pode ser exteriormente correta, mas sua força espiritual se amplia quando o coração desperta para aquilo que está realizando. A kavaná une o gesto terreno à sua raiz superior. Ela transforma o estudo em oração, a oração em ascensão e a mitzvá em instrumento de elevação.
É por isso que, na visão do Ari, rezar não significa apenas formular pedidos. A tefilá participa da ordenação dos mundos. As palavras pronunciadas com pureza atravessam os níveis da realidade, promovendo encontros, elevações e unificações espirituais.
Do mesmo modo, estudar Cabalá não é acumular conceitos secretos. É permitir que o conhecimento nos transforme. O verdadeiro segredo da Torá não é aquilo que alimenta a vaidade intelectual, mas aquilo que refina a alma, amplia a responsabilidade e conduz o ser humano à reverência diante do Criador.
Aquele que conhece o mistério das centelhas não pode tratar nenhuma pessoa como descartável.
Aquele que compreende a Shevirat HaKelim aprende a reconhecer a dor existente por trás de muitos comportamentos.
Aquele que contempla o Tzimtzum aprende que amar também significa criar espaço.
E aquele que participa do Tikkun compreende que sua vida possui uma responsabilidade muito maior do que seus interesses particulares.
Na Cabalá do Arizal, o exílio de Israel espelha uma condição mais profunda: o exílio da própria Luz dentro da Criação. A Shechiná acompanha os filhos de Israel em seus deslocamentos, suas perdas e suas travessias. O exílio histórico torna-se expressão de uma dispersão cósmica, enquanto a Gueulá representa não somente o retorno a uma terra, mas a reunião daquilo que foi separado.
Também a alma humana experimenta seu próprio exílio. Podemos viver distantes daquilo que verdadeiramente somos. Podemos esquecer a raiz da nossa neshamá, confundir nossa identidade com nossas feridas e permitir que a centelha interior permaneça encoberta por medos, hábitos e ilusões.
Todavia, o exílio não é a identidade final da alma.
Há dentro de cada pessoa um ponto que nunca se separou de sua Fonte. Ele pode estar escondido, mas não foi destruído. Pode estar cercado por muitas camadas, mas continua pertencendo à Luz. A jornada espiritual consiste em remover cuidadosamente aquilo que encobre esse ponto e permitir que a neshamá volte a reconhecer sua origem.
Por isso, reparar o mundo e reparar a própria alma não são missões separadas. Quando vencemos a indiferença, uma centelha se eleva. Quando transformamos a dor em compaixão, uma centelha se eleva. Quando impedimos que a palavra se converta em instrumento de humilhação, uma centelha se eleva. Quando usamos aquilo que possuímos para servir, sustentar, curar ou ensinar, uma centelha se eleva.
O mundo exterior e o mundo interior refletem-se mutuamente. Há vasos quebrados na história coletiva, mas também há vasos quebrados dentro de nós. Há centelhas perdidas entre os povos e as gerações, mas também existem fragmentos de nossa própria alma esperando ser reintegrados.
A Cabalá Luriânica não nos convida a fugir do mundo, mas a entrar nele com uma consciência mais profunda.
A espiritualidade não consiste em abandonar a matéria, e sim em santificá-la.
Não consiste em negar a vida, mas em revelar a vida divina que pulsa ocultamente em seu interior.
Não consiste em buscar experiências extraordinárias enquanto desprezamos os deveres cotidianos, mas em descobrir que o cotidiano é precisamente o lugar onde o extraordinário espera ser despertado.
Na noite da Hilulá, a tradição convida-nos a estudar os ensinamentos do tzadik, acender uma luz em sua memória, oferecer tzedaká, recitar Tehilim e dirigir nossas preces a Hashem pelo mérito de sua alma. Não oramos ao tzadik; voltamo-nos ao Criador, pedindo que o mérito daquele justo, sua Torá e sua santidade despertem misericórdia sobre Israel e sobre o mundo.
Em Tzfat, muitos visitam o lugar de repouso do Arizal. Outros se reúnem em diferentes partes do mundo para estudar sua Torá. A distância física, porém, não impede a conexão, pois a verdadeira proximidade com um mestre acontece quando seus ensinamentos encontram morada em nossas escolhas. A Hilulá do Arizal é celebrada tradicionalmente em 5 de Av. Hilulá do Arizal em 5 de Av
Neste dia, sua presença não precisa ser procurada como um fenômeno exterior. Ela pode ser reconhecida na Luz que seus ensinamentos continuam acendendo em nós. Sempre que compreendemos que ainda existe santidade dentro do fragmento, o Ari ensina novamente. Sempre que realizamos uma mitzvá com kavaná, o Ari ensina novamente. Sempre que acreditamos que uma parte ferida da vida pode ser reparada, sua Torá volta a respirar no mundo.
Que, pelo mérito do sagrado Arizal, sejamos dignos de penetrar a sabedoria da Torá com humildade, reverência e pureza de intenção.
Que seus ensinamentos despertem em nós a consciência de que não viemos ao mundo por acaso. Cada alma possui centelhas que somente ela poderá elevar, encontros que somente ela poderá santificar e uma parte singular da Criação que aguarda precisamente sua participação.
Que saibamos reconhecer a centelha escondida dentro das circunstâncias que chegam até nós. Que não desprezemos os pequenos atos, pois aquilo que parece pequeno aos olhos humanos pode ser imenso nos mundos superiores.
Que nossas palavras reparem em vez de quebrar.
Que nossas mãos sustentem em vez de afastar.
Que nosso estudo não permaneça apenas na mente, mas desça ao coração e se transforme em vida.
Que nossas mitzvot sejam realizadas com alegria, nossas orações com presença e nossos atos de bondade com generosidade.
Que o mérito de Rabi Yitzchak Luria desperte rachamim sobre todos aqueles que necessitam de cura, proteção, sustento, co***lo e direção. Que haja refuá para os enfermos, força para os abatidos, esperança para os que atravessam ocultamentos e abundância de bênçãos para todas as famílias.
Que possamos participar conscientemente do Tikkun, reunindo o que foi disperso, reconciliando o que foi separado e revelando a unidade oculta sob a aparência da fragmentação.
E que chegue o dia em que todas as centelhas sejam elevadas, todos os exílios encontrem seu fim e a Presença Divina seja reconhecida em toda a Criação. Que possamos testemunhar a Gueulá Shelemá, a redenção completa, com a chegada de Mashiach, quando a paz, a justiça, o conhecimento de D’us e a consciência da unidade preencherão o mundo.
Yehi ratzon — que assim seja a Vontade Divina.
Zechutó yaguen aleinu — que o mérito do santo Arizal nos proteja.
Amén ve’amén.
Malkah Ha Levi
Pesquisa, texto, concepção e curadoria autoral: Malkah Ha Levi
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