10/06/2018
O que aprendi na França.
(minha última postagem política antes das eleições de amanhã).
Eu sei que muitos acham que quem saiu do Brasil não pode opinar, mas continuo sendo cidadão e amando meu país. Aliás, acho até que tive alguns insights morando há dois anos no país que inventou a democracia moderna e os conceitos de “direita” e “esquerda”. Por isso segue aí meu “textão”.
Qualquer que seja o resultado das eleições, não chegamos ainda ao fim da linha, nem ao fundo do poço.
Nessa época de ânimos acirrados é fácil imaginar um futuro apocalíptico caso o outro lado vença. Mas na prática, independentemente do resultado, não estamos diante do fim, mas de apenas mais um capítulo. O país continua e nossas responsabilidades também.
Para isso nós, o povo, vamos precisar aprender a dialogar melhor, a ser mais críticos dos grupos que nos representam e a cobrar melhor dos políticos que elegemos.
E nessa área aprendi uma ou duas coisas aqui na França.
Com exceção dos extremistas, aqui o pessoal em geral entende algumas coisas básicas: Ser conservador ou de direita não signif**a necessariamente ser fascista, homofóbico, ra***ta, e todos os estereótipos vendidos pela esquerda mais radical. Ser de esquerda não signif**a ser depravado, corrupto, defensor de bandido, promotor da pedofilia, assassino de bebês, destruidor dos valores familiares, etc. Existe um espectro enorme de ideias entre os extremos.
Por outro lado, o fato é que em toda sociedade também existem criminosos, corruptos, ra***tas, pedófilos, radicais de todos os tipos, exploradores da fé, etc. Esses males são reais e devem ser combatidos.
O problema é que para fazer a distinção precisamos fazer o esforço de pensar, ouvir e dialogar. É preciso ter disposição e boa vontade para trocar ideias. É preciso cultivar a possibilidade de discordar e debater sem que isso se transforme em crise. E isso é muito difícil, particularmente no Brasil, onde esse hábito não é tão natural. O radicalismo exige menos trabalho e é mais cômodo. Talvez por isso venha se tornando preferência nacional.
No Brasil, cultivamos uma espécie de brio tupiniquim que nos impede de discordar de forma civilizada. A discordância nos ofende. E por isso pensamos que debater se limita a ofender ou a levar a melhor. O conceito de debate e discordância como construção conjunta anda em falta. Até mesmo entre pessoas que partilham ideias semelhantes!
Discordar e debater com quem está em lados políticos, culturais e religiosos opostos é essencial. Mas também é essencial discordar e debater com quem é do nosso partido, da nossa igreja, etc.
Deveríamos ser capazes de questionar a nós mesmos, ao nosso grupo e aos governantes que elegemos. Esses dias vi alguém nas redes sociais comentando algo do tipo “Quando seu candidato ganhar, vou cobrar dele isso ou aquilo”. É essa a lógica do brio tupiniquim. Cobramos dos nossos adversários e não dos candidatos que nós mesmos elegemos. É como se ao questionarmos os nossos candidatos estivéssemos passando um atestado de incompetência eleitoral, e para não passar vergonha preferimos minimizar os erros de nosso candidato e lembrar das faltas dos outros. Que tiro no pé!
Em qualquer país desenvolvido, cobramos justamente daqueles a quem elegemos. Isso nada mais é que o exercício da cidadania. Temos que aprender urgentemente a desenvolver um melhor senso crítico e uma atmosfera em nossas relações pessoais, organizações profissionais e no trato com os políticos, que favorize o debate aberto e civilizado.
Isso tem a ver com as regras elementares da vida em uma sociedade democrática. Se não sairmos desse modo de agir continuaremos com as distorções que vemos hoje. Pensando só nos últimos eventos da campanha eleitoral, duas situações vêm à mente:
a) Um candidato não comparece ao debate porque está se recuperando de um ataque à faca. Outros candidatos o atacam ou fazem chacota. O pessoal que o apoia f**a revoltado. O pessoal que é contra justif**a o erro ou minimiza o problema, com base no simples fato de não gostarem do candidato ou do que ele representa. Terrível. Todos deveriam se revoltar. O que está em jogo não é se o candidato é bom ou ruim, e sim princípios básicos de respeito pela pessoa humana e por regras mínimas de civilidade.
b) O candidato não vai ao debate (por razões justíssimas), mas aproveita para utilizar o aparato de uma das maiores emissoras do país para fazer campanha paralela enquanto os outros debatem. O pessoal que é contra ele f**a revoltado. O pessoal a favor justif**a dizendo que o nível do debate foi baixo, que os outros candidatos não prestam, que o que ele tem que dizer é melhor, etc. Terrível. Todos deveriam se revoltar. O que está em jogo não é quem é o melhor candidato, mas o total desprezo pelas regras do jogo democrático. Quem não respeita essas regras em época de campanha, vai respeitá-las quando estiver no poder?
Foi aí que caiu a ficha e comecei a entender um pouco melhor qual é nosso problema. O problema é que somos brasileiros e para nós regras não importam tanto. O que importa é levar vantagem. Não importa se é certo se aproveitar da ausência do candidato, o importante é aproveitar a oportunidade. Não importa se a forma como a mídia é utilizada é boa ou não. Se favorece a tomada de poder do meu grupo, tá valendo!
Para quem pensa assim, as regras do respeito e da democracia só são importantes quando são favoráveis a “nós” e ao “nosso grupo”. É essa, por exemplo, a lógica que alimenta as “Fake News”. Em boa parte dos casos é fácil averiguar se a notícia é verdadeira ou falsa e evitar a circulação de calúnias. Mas para muitos, não é a verdade que importa. O que importa é o que vai fazer o “meu lado” vencer. Por isso, preferimos o raciocínio que parece mais fácil e “vantajoso”: se a notícia favorece meu lado e prejudica o outro, é real, se favorece o outro e prejudica o meu, é “fake”. Para cristãos temos ainda um agravante, porque os Dez Mandamentos proíbem expressamente o falso testemunho, que nada mais é que espalhar inverdades para prejudicar alguém. Mas como eu disse, na lógica brazuca a vantagem é mais importante que as leis. Até mesmo as leis de Deus, que só devem ser levadas a sério quando nos favorecem.
Mas regras são importantes. Sem elas sobra apenas o poder bruto e a briga por ele. Essa é a essência da corrupção: quebrar as regras que permitem o bom funcionamento da sociedade em benefício próprio ou de um grupo em particular. Desde que o Brasil é Brasil vivemos a ilusão que nosso “jeitinho” de relativizar as coisas nos oferece vantagens. Vejam onde chegamos.
A França não é perfeita, mas franceses tem algo a nos ensinar no quesito cidadania e debate civilizado. E uma das razões é que eles tiveram que aprender na marra. Na época das guerras de religião, muita gente matou e morreu em nome da fé cristã. Na Revolução Francesa, muita gente matou e morreu em nome da liberdade, igualdade e fraternidade. Na ocupação nazista, muita gente matou e morreu vítima de uma ideologia totalitária.
O pessoal aprendeu o valor do diálogo e da troca civilizada de ideias, além do valor do respeito pelo bem comum, acima da vantagem pessoal, depois de muito sangue derramado.
No Brasil, talvez ainda não tenhamos visto sangue suficiente. Porém, se continuarmos como estamos, vamos acabar vendo.
Mas sou brasileiro e cristão, e para nós, a esperança não morre fácil. Ainda podemos vencer juntos.