02/08/2024
Momentos de reflexão.
Não temos paciência para os nossos velhos!
Hoje, quando de manhã fui ao minimercado do meu bairro presenciei uma cena que poderá vir a ser a “a minha cena” daqui a uns anos.
Quando cheguei à caixa, estava uma senhora, certamente já reformada, com os seus cartões e papeis espalhados no tapete da caixa e dizia para si: “Não encontro o meu cartão! Não encontro o meu cartão!”
Enquanto isso a colaboradora atendia os restantes clientes e proferia um ar de poucos amigos, talvez pelo stress e pressão que o seu trabalho exige, talvez pelo repetir da situação, talvez pela pressão dos outros clientes, cujo estado normal é “cheio da pressa!”.
A senhora, visivelmente confusa no meio das suas tralhas, replicou: “Não posso levar as compras, não encontro o cartão…” e do outro lado, nenhuma resposta. Repetiu: “Não posso levar as compras, não encontro o cartão…Mas a colaboradora, mesmo à sua frente, passava os artigos de outra cliente na maquina e como reposta apenas o bip do infravermelho enquanto os produtos deslizavam no tapete.
Com a mesma calma e ar de desilusão a senhora repetiu pela terceira vez: “Não posso levar as compras, não encontro o cartão…” e depois acrescentou : “Está-me a ouvir?” A rapariga acenou afirmativamente com a cabeça e retirou as compras para cesto atras de si. Então a senhora exclamou: “Levo apenas as bananas, quanto custam as bananas?” e puxou pelas moedas do porta-moedas enquanto pedia ajuda para confirmar a quantia, pois a vista já não lhe permitia distingui-las.
Neste entretanto ocorreu-me pagar as compras à senhora, mas não sabia as circunstâncias e, também, não queria correr o risco de a melindrar.
Ainda estava eu no meu dilema se oferecia ou não os meus préstimos à senhora quando ouço um aliviado grito: “Está aqui, encontrei o meu cartão!!!!” e levou as mãos ao peito, como que a agradecer a dádiva!
A colaboradora revirou os olhos, com a ar de quem diz com o rosto “sempre a mesma coisa” e continuou a atender os clientes. E a senhora entusiasmada e já do lado de lá da caixa, repetiu: Encontrei, ouviu menina? Levo as compras!”. Obteve como resposta: “Tem que esperar, já estão anuladas, tenho de registar tudo novamente…”
E assim fez. Mesmo antes de mim, porque lhe fiz sinal que podia avançar.
Hoje estava de folga, com pressa relativa e não stressei com esta demora.
Não era hora de ponta, a colaboradora estaria cansada e preocupada em despachar os clientes, porque estes assim lhe exigem (ninguém quer esperar numa caixa de supermercado). A senhora que me pareceu visivelmente confusa e de movimentos lentos não encontrou qualquer compreensão ou empatia, por parte de nenhum de nós ☹
De repente passou-me pela cabeça: “coitada da senhora, não devia andar sozinha, vê-se que não está muito bem…” Mas de imediato me ocorreu: “Coitados de nós que não temos tempo nem paciência para gente que precisa de mais tempo, para gente confusa e sem discernimento, coitados de nós que não temos tempo nem paciência para dedicar às pessoas que estão noutro ritmo e que precisam do nosso tempo e da nossa paciência.”
Um dia vamos perceber. Havemos de lá chegar!