23/11/2023
Pois!!!
Como é que crianças hiperestimuladas, filhas de pais excelentes mas “hiperactivos”, podem ser tranquilas, atentas e seguras de si se vivem o tempo todo a uma velocidade estonteante e num registo, vezes demais, stressante? Como é que se pode estar debaixo duma cascata de estímulos e ter, ao mesmo tempo, uma atenção que não se disperse e que não corra atrás de todas as solicitações sem se focar a sério em quase nenhuma? Como é que se pode consumir ecrãs e videojogos em excesso (e ter actividade física demenos) sem que isso não se traduza em pequenas doses hiperexcitacão, irrequietude, atrevimento e “intensidade” excessiva? Como se pode usar a memória - para associar, intersectar e sintetizar, para oscilar entre figura e fundo, ou para ir atrás e saltar para diante - quando se vive empanturrado de solicitações? E como se pode usar a palavra como instrumento de pensar se o audio-visual se expande e expande e expande? Como é que se pode ser autónomo se se tem, em muitíssimas circunstâncias, pais empenhados em corresponder a todas as solicitações dos seus filhos, a brincar com eles sempre que o exijam, e que estudam com eles e os controlam nos seus mais diversos passos, seja em relação à escola, à sua vida ou aos amigos? Se as crianças têm disciplinas de manhã até à noite, e se as queremos disciplinadas em relação a quase tudo, e até os tempos livres são preenchidos duma forma planeada e disciplinada - e se as queremos ocupadas, sobretudo ocupadas - como hão-de elas aprender a ser descontraídas, distraídas, criativas e, saudavelmente, livres? Como é que não hão-de elas ter baixa auto-estima se vivem cercadas em exigências de desempenho que lhes chegam de todos os lados? Como é que não hão-de evocar estados de pânico se aquilo que precisam de pensar, todos os dias, não corresponde ao tempo e às oportunidades que necessitam de ter para meditar, refletir, imaginar, fantasiar ou congeminar?
Eu acho que somos todos, realmente, empenhadíssimos em ser bons pais. E somo-lo. Inúmeras vezes! Mas é tão fácil perdermos a mão no “processo”. E deixarmo-nos engolir pelos tendências de cada momento... É tão fácil estragar um filho!