03/07/2026
A ESCOLA COMO LUGAR DE ENCONTRO
Chegados ao fim de um ciclo, importa refletir sobre a Educação para a Cidadania, não enquanto disciplina, mas como uma forma de viver a escola.
Enquanto professora e eterna aprendiz, fui compreendendo, cada vez com maior clareza, que as escolas não se transformam porque muda um regulamento ou se inaugura um projeto. As escolas mudam quando as pessoas começam a olhar umas para as outras de forma diferente e aprendem a caminhar juntas. Quando decidimos olhar para quem temos à nossa frente antes de olharmos para aquilo que queremos ensinar. Quando um Professor acredita que vale a pena ouvir um Aluno antes de o julgar. Quando um Assistente Operacional percebe que o seu trabalho e as suas atitudes também educam. Quando uma Direção escolhe escutar antes de decidir. É nesses instantes que a Cidadania deixa de ser uma disciplina e passa a ser uma forma de habitar a escola e uma forma de nos encontrarmos uns aos outros.
E como fazer alguém sentir que a escola é esse espaço de encontro, de identidade e alteridade? Como fazer alguém sentir que este lugar lhe pertence?
Foram as tentativas de resposta a estas e a muitas outras questões que deram sentido às atividades e aos projetos desenvolvidos durante estes dois anos, tornando-se expressão concreta do que significa, numa perspetiva pessoal, educar numa escola TEIP.
Escutar é apenas o primeiro passo.
Escutar é, talvez, um dos verbos mais difíceis da educação. Escutar exige tempo, disponibilidade e, sobretudo coragem. Porque escutar verdadeiramente significa aceitar que o outro pode mudar aquilo que pensamos, aquilo que fazemos e até aquilo que julgávamos estar bem. E o verdadeiro desafio começa quando aquilo que foi ouvido exige mudança.
O Projeto “Dar Voz aos Alunos” foi o início dessa mudança: os alunos apareceram. Trouxeram perguntas. Trouxeram críticas. Trouxeram ideias. Trouxeram esperança. Trouxeram participação e compromisso. E, sem talvez o saberem, deixaram também uma pergunta aos adultos:
Estaremos preparados para construir a escola com eles e não apenas para eles? Saberemos traduzir em ações o que foi partilhado por palavras?
A cidadania não acontece quando pedimos aos alunos que falem, acontece quando lhes mostramos o que fizemos com as suas palavras. Agir torna-se, então, um ato de responsabilidade e de encontro ético.
Cuidar.
Cuidar da escola é aprender a cuidar dos outros. É compreender que aquilo que pertence a todos depende sempre da responsabilidade de cada um. A cidadania começa precisamente nos pequenos gestos: apanhar um papel do chão sem que ninguém peça, separar corretamente os resíduos, valorizar o trabalho de todos. Dar o exemplo.
O Projeto “Brigadas Verdes” nasceu da necessidade de promover a responsabilidade coletiva e a crença de que habitamos uma casa comum e que dela somos todos, simultaneamente, beneficiários e cuidadores. Talvez cuidar da escola seja o primeiro passo para cuidar do mundo e talvez a cidadania também seja aprender a cuidar daquilo que nunca será apenas nosso, mas que é parte de nós. Compete a todos essa consciência que se abraça com humildade e companheirismo.
Conhecer.
Conhecer é também um verbo exigente, que nos obriga a abandonar certezas.
O preconceito raramente nasce do conhecimento. Nasce quase sempre da distância. E aquilo que não conhecemos transforma-se facilmente em medo e desconfiança. Por isso, a maior missão de uma escola deve ser a de diminuir distâncias.
Será possível respeitar alguém que nunca procurámos verdadeiramente conhecer?
O Projeto “Historia e Estórias Ciganas” leva-nos a descobrir que nenhuma história cabe inteira num preconceito. Vivemos numa escola marcada pela diversidade, mas a diversidade por si só não produz encontro.
Há escolas onde os alunos entram todos os dias. Mas entrar não significa pertencer. Pertencer acontece quando alguém descobre que existe um lugar onde a sua presença faz a diferença.
Talvez seja essa a primeira responsabilidade de qualquer comunidade educativa. Não ensinar primeiro. Mas, acolher primeiro.
Todo o ato de educar é, afinal, um exercício permanente de proximidade ao Outro, à sua cultura e circunstância e nenhuma comunidade pode crescer se deixar algumas vozes na invisibilidade. Só nos aproximamos da comunidade quando aceitamos que a escola não termina nos seus portões, mas se prolonga em tudo aquilo que é capaz de transformar no território em que se insere.
Mais do que tolerar, uma escola verdadeiramente inclusiva é aquela que desperta curiosidade. Curiosidade pela diferença, pelo que desconhecemos, pelo encontro com o Outro, ajudando-o a poder ser quem é sem deixar de pertencer à comunidade.
Talvez este continue a ser um dos maiores desafios de uma escola TEIP. Não apenas integrar alunos de diferentes origens, mas reconhecer que cada um traz consigo uma história que merece ser conhecida antes de ser julgada. E lembrar que as baixas expectativas continuam a ser uma das formas mais silenciosas de exclusão.
Haverá verdadeira aprendizagem sem haver pertença?
Por isso, educar tem de ser sempre um ato de esperança. Esperança na capacidade de cada aluno superar o contexto onde nasceu. Esperança na força transformadora da escola. Esperança no modo como olhamos para quem temos ao lado. Foi com esta esperança, de pessoas maravilhosas que verdadeiramente acreditam, que o projeto das estórias ciganas nasceu, irá continuar e dar frutos. E quanta gratidão por isso!
Hoje, desejo que cada projeto continue a crescer, encontre novos olhares e outros projetos com quem caminhar, porque o que verdadeiramente importa é que cada pessoa possa encontrar o seu lugar.
Parto desta escola levando pouco do que se pode guardar numa estante. Levo rostos, conversas de corredor, reuniões difíceis, gargalhadas inesperadas e abraços, muitos abraços. Levo alunos que me ensinaram tanto quanto aquilo que procurei ensinar-lhes. Levo uma comunidade que me mostrou, vezes sem conta, que nenhuma escola cresce sem trabalho coletivo e sem pessoas que acreditam que vale a pena tentar.
Levo igualmente a gratidão.
Gratidão à Direção, pela porta aberta, pelos desafios, oportunidades de crescimento e apoio incondicional. Gratidão aos colegas que se tornaram amigos e que vão permanecer para lá do último dia de escola, e a todos os que partilharam ideias, dúvidas, entusiasmo e trabalho e que vão dar continuidade a esta Missão única que é educar numa escola TEIP. Gratidão aos assistentes operacionais e aos técnicos, cujo contributo tantas vezes permanece invisível, mas é absolutamente indispensável.
E, sobretudo, gratidão aos alunos. Foram eles a razão de tudo.
Parto com a serenidade de quem sabe que há encontros que nunca terminam, porque continuam a habitar-nos, não importa onde estejamos.
Um forte abraço,
A professora e coordenadora de Cidadania,
Sónia Ramalho