29/09/2026
Quando se fala de agricultura, pensa-se no produto: a folha, a flor, o legume que chega intacto ao prato de um chefe exigente. Raramente se pensa em quem lá pôs as mãos.
Nós pensamos. Todos os dias.
O trabalho agrícola faz-se cedo, faz-se ao frio, faz-se ao calor, faz-se de joelhos. É físico, repetitivo, exigente e, ao contrário do que muita gente imagina, cada vez mais técnico: sementeira, rega, controlo de pragas, colheita no ponto certo, embalamento, cadeia de frio, logística.
E quem o faz mudou. Segundo a CAP, cerca de 40% dos trabalhadores por conta de outrem no setor são estrangeiros. Do lado de quem gere as explorações, o retrato é outro: a idade média dos produtores anda à volta dos 65 anos e menos de 4% dos gestores têm menos de 40.
Produtores cada vez mais velhos, mãos cada vez mais vindas de fora. Isto não é opinião, são números.
E depois há a outra pergunta, que é talvez a mais incómoda: quanto vale este trabalho?
Em 2023, a agricultura portuguesa gerou cerca de 3,4 mil milhões de euros de valor acrescentado. Alimenta-nos, exporta e mantém de pé territórios inteiros que, sem ela, seriam apenas paisagem sem gente. É fundamental para o país, para a economia e para milhares de empresas que dependem diariamente daquilo que acontece no campo.
Mas o valor de uma coisa e aquilo que estamos dispostos a pagar por ela nem sempre são a mesma coisa.
E para quem lá trabalha? O salário mínimo é hoje de 920 euros brutos e a remuneração média do setor subiu cerca de 50% numa década. É um progresso real e é justo reconhecê-lo. Mas “média” é uma palavra macia para coisas duras: sazonalidade, contratos curtos e a incerteza de quem nunca sabe bem o que vem a seguir.
É muito fácil dizer que “não há gente para trabalhar”. Mas talvez a pergunta certa seja: que trabalho estamos a oferecer?
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