01/05/2026
Muitas vezes perguntam:
👉 “É possível movimentar dentes desvitalizados?”
A resposta começa por um ponto essencial que ainda é mal compreendido:
Ortodontia não é um fenómeno dentário.
É um fenómeno biológico, mediado pelo osso alveolar e pelo periodonto.
Quando aplicamos força ortodôntica, não estamos “a mover dentes”.
Estamos a induzir um processo altamente coordenado de remodelação tecidular:
• Osteoclastos → reabsorção óssea
• Osteoblastos → formação óssea
• Osteócitos → mecanotransdução e regulação
• Fibroblastos do ligamento periodontal → resposta inicial à força
Ou seja:
👉 O dente é apenas o “passageiro”
👉 O verdadeiro protagonista é o periodonto
⸻
E onde entram os dentes desvitalizados?
Se o periodonto estiver saudável,
a resposta biológica à força ortodôntica permanece funcional.
📚 A evidência mostra que:
* Dentes tratados endodonticamente podem ser movimentados
* A ausência de vitalidade pulpar não impede a remodelação óssea
* O risco não está na movimentação em si, mas em fatores como:
* história de trauma
* reabsorção radicular prévia
* controlo inadequado de forças
11/04/2026
A ciência evolui.
Mas o discernimento precisa evoluir junto.
“Rapid maxillary expansion (RME) may improve polysomnographic parameters such as AHI, oxygen saturation and sleep efficiency in children with obstructive sleep apnea.”¹
Uma revisão sistemática recente trouxe exatamente essa mensagem.
E foi com base neste artigo que o meu colega Asif Chatoo trouxe uma análise extremamente lúcida sobre o papel da expansão maxilar na apneia infantil.
E sim — a plausibilidade biológica existe.
A evidência aponta nessa direção.
Mas quando olhamos mais de perto, a mesma revisão também nos obriga a desacelerar:
amostras pequenas, alto risco de viés, heterogeneidade elevada e resultados que nem sempre normalizam o quadro clínico.
E talvez aqui esteja o ponto mais sensível desta discussão.
Autores como já alertaram:
“Many orthodontic problems in children fall within the spectrum of normality and do not necessarily require early intervention.”²
E mais — uma proporção significativa dos tratamentos precoces pode não trazer benefício clínico adicional quando comparada à observação.
Agora transporta isso para o contexto da apneia infantil.
Não estamos apenas a falar de dentes.
Estamos a falar de respiração, sono, desenvolvimento.
Por isso, na minha prática, existe uma regra clara:
👉 Ortodontia não atua sozinha.
Trabalho em conjunto com a Paloma Baiardi, médica do sono, que é a responsável pelo diagnóstico e pela individualização de cada abordagem.
Porque tratar números não é tratar pacientes.
E expandir maxilas não é, por si só, tratar apneia.
A Ortodontia pode ter um papel relevante?
Sem dúvida.
Mas não como solução universal.
E nunca sem critério.
No fim, a pergunta não é:
“funciona?”
A pergunta certa continua a ser:
“para quem, quando e porquê?”
⸻
¹ Yu K, Li Y, Ngan P, et al. The effect of rapid maxillary expansion on children with obstructive sleep apnea: a systematic review and meta-analysis. Sleep and Breathing. 2026.
² Normando D. Overdiagnosis and overtreatment in Orthodontics. Dental Press Journal of Orthodontics.
05/04/2026
A posição do disco articular sempre foi vista como central na DTM.
Mas a evidência mostra algo diferente.
O deslocamento do disco pode estar presente…
mesmo em pacientes sem dor.¹²
Isso muda tudo.
A dor na ATM parece estar muito mais relacionada à
sobrecarga da zona retrodiscal —
um tecido altamente vascularizado e inervado, principalmente pelo nervo auriculotemporal (V3).³
Quando o côndilo perde suporte anterior,
essa região passa a ser comprimida repetidamente.
E é aí que começa o problema.
Revisões sistemáticas, incluindo a Cochrane Collaboration, mostram que abordagens focadas apenas na posição do disco
não têm evidência robusta.⁴
O que realmente funciona?
Educação.
Controle de carga.
Terapia conservadora.
Porque no fim…
Imagem não é diagnóstico.
Função supera posição.
E evidência orienta decisão
1. Larheim TA et al.
Prevalence of temporomandibular joint disk displacement in asymptomatic subjects.
Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod.
2. Schmitter M et al.
Disk displacement and temporomandibular disorders: prevalence in asymptomatic populations.
J Orofac Pain.
3. Okeson JP
Management of Temporomandibular Disorders and Occlusion.
Elsevier.
4. Sessle BJ
Neural mechanisms of orofacial pain.
J Dent Res.
5. Cochrane Collaboration
Interventions for temporomandibular disorders: overview of systematic reviews.
6. List T & Axelsson S
Management of TMD: evidence-based approaches.
J Oral Rehabil.
16/03/2026
Na ortodontia, muitas recidivas não acontecem por falha do aparelho — mas por forças musculares não controladas.
A língua é uma delas.
Dispositivos como tongue cribs e tongue spurs são usados há décadas para modificar a postura lingual e ajudar no controle da mordida aberta.
Neste caso, testamos uma adaptação simples:
pequenos recortes na região lingual do alinhador, criando um estímulo proprioceptivo semelhante ao de um educador lingual removível.
A ideia é simples:
usar o próprio alinhador para lembrar a língua de onde ela deveria estar.
Quando a língua tenta avançar anteriormente, os recortes funcionam como um “lingual reminder”, promovendo um estímulo sensorial que favorece uma posição mais superior e posterior da língua.
Ainda é um conceito clínico — mas baseado em princípios biomecânicos bem conhecidos na ortodontia funcional.
Porque no final…
ortodontia não é apenas mover dentes.
É equilibrar forças.
📚 Referências
Proffit WR – Contemporary Orthodontics
Smithpeter J, Covell DA. AJODO 2010
Villa MP et al. Progress in Orthodontics 2019
orthodonticbiomechanics
digitalorthodontics
ortodontia
17/02/2026
Torque anterior com alinhadores: mito ou biomecânica aplicada?
Durante muito tempo ouvimos que alinhadores “não fazem torque verdadeiro”.
Mas a pergunta certa nunca foi se fazem… e sim como fazer.
Estudos recentes mostram que o desenho do attachment influencia diretamente a eficiência do movimento radicular anterior, porém o mais importante é a altura do corte, que o proporciona.
Uma revisão abrangente publicada no Turkish Journal of Orthodontics (2025) demonstrou que:
✔ Attachments elípticos favorecem o controle de torque anterior
✔ Reduzem o tipping coronário indesejado
✔ Melhoram a expressão do momento na região dos incisivos
Enquanto formatos retangulares ou cilíndricos não mostraram a mesma eficiência no controle do torque.
O motivo é biomecânico:
O alinhador, sozinho, aplica força próxima à coroa.
Sem um elemento que gere momento adequado, o que ocorre é inclinação — não torque radicular verdadeiro.
O attachment elíptico cria um ponto de engate mais favorável para transferência de força e geração de momento.
🎯 Resultado?
Mais previsibilidade.
Menos refinamentos.
Mais controle tridimensional.
No Centro Europeu de Pós-Graduação, não ensinamos apenas “onde colocar attachment”.
Ensinamos por que colocar — e qual biomecânica está por trás de cada decisão clínica.
Ortodontia digital não é software.
É física aplicada.
13/01/2026
Turma 6… mais alunos irão para o mercado de trabalho com preparo para um mundo aonde a má Ortodontia é a ordem. Tivemos percalços no caminho mas o grupo se uniu e cresceu, cresceu mais rápido que podia imaginar! Todos foram ótimas pessoas! F**a o abraço e carinho por eles…. Toda turma deixa uma marca e está turma deixará saudades…
28/11/2025
Today I’m sharing one of the exercises we use in our clinic to strengthen perioral muscles in children with dysfunctional breathing patterns, weak lip seal, or altered tongue posture.
The exercise shown uses the device (MRC), designed to activate the lips, tongue and masticatory muscles as part of a functional, evidence-based approach to craniofacial development.
🔬 Why train facial muscles in an orthodontic setting?
Because form follows function. Aligning teeth without correcting dysfunctional patterns often leads to relapse and limits skeletal growth potential.
Evidence shows:
• Mouth breathing alters maxillofacial growth and muscle tone (Harari et al., 2010).
• Weak lip seal is linked to Class II patterns and anterior open bite (Valera et al., 2017).
• Myofunctional therapy improves orthodontic stability when integrated into treatment (Guimarães et al., 2021).
We combine oral health, orofacial function and breathing behavior. Before proposing appliances, we evaluate why a child grows the way they do. Diagnosis is more than cephalometrics — it is understanding function and muscle balance.
📌 Myotalea is a tool, not a standalone solution.
It is part of a structured plan that includes:
✔ Breathing assessment
✔ Orofacial muscle tone
✔ Tongue posture
✔ Lip competence
✔ Habit correction
✔ Function-based orthodontic planning
📈 Our goal: support healthier facial growth, improve physiology and ensure long-term orthodontic stability.
Orthodontics today is not only about teeth — it is about the whole patient.
And everything starts with function.
17/11/2025
Edentulismo unilateral em pacientes jovens é sempre um desafio biológico: sem estímulo, o rebordo perde volume rapidamente.
Neste caso, utilizámos um mini-implante PSM não só como ancoragem, mas como estratégia para preservar osso até a idade adulta.
Estabiliza o arco, protege o espaço, guia os dentes adjacentes e mantém carga mecânica leve — exatamente como descreve Birte Melsen para evitar atrofia alveolar.
Nos primeiros dias, associámos clorexidina, reduzindo epitelização indesejada, biofilme e inflamação peri-parafuso, factores que aumentam a longevidade da ancoragem.
O resultado: rebordo preservado, espaço ideal e um futuro muito mais previsível para o implante definitivo.
Ortodontia guiada por crescimento, biologia e propósito.
08/11/2025
Na imagem, vemos o ponto de contato do plástico com o dente, bem na junção gengival.
Esse desenho — com linha de corte mais alta — é uma das razões pelas quais o SureSmile oferece melhor controlo de torque e movimento radicular.
📚 Segundo o estudo de Elshazly et al. (Journal of Dentistry, 2022), alinhadores com corte reto e estendido transmitem forças mais consistentes e eficientes do que os recortados (“scalloped”).
Ou seja: o detalhe da borda faz diferença real na biomecânica e previsibilidade clínica.
👨⚕️ Menos estética, mais ciência.
Cada milímetro na borda do alinhador conta — e aqui está a prova.