16/07/2026
Messi assinou, ontem, mais 2 assistências para golo que ajudaram, e de que maneira, a Argentina a derrotar a Inglaterra, na meia-final do Mundial. Nas redes sociais, tal foi aproveitado para se continuar a comparar Messi e Ronaldo, que este último não corre, que está acabado, etc.
Há dias, vi uma estatística, se a memória não me falha, na DAZN, que dizia que Messi foi, na fase de grupos, o 618º jogador que mais correu... em 618. E, quando vi essa estatística, como quando vejo falar que Ronaldo não corre, pensei que se o futebol fosse só correr, Kipchoge seria um craque de nível mundial, mas, de facto, o futebol é mais do que isso.
Não vou analisar Messi ou Ronaldo pelo lado da qualidade futebolística pura, porque aí acho perda de tempo, tal a qualidade de ambos e a quantidade de coisas que os separam. Quero falar de Liderança e de contexto, algo que faz uma diferença enorme no sucesso ou insucesso das equipas.
Que Ronaldo e Messi são líderes, parece-me não haver dúvidas, apesar da diferença no tipo de liderança de cada um. Ambos, levam essa liderança para dentro do campo, assumindo esse papel sem receios, aceitando que os olhos estão sobre si, mais do que sobre os outros. Servem de exemplo para os seus companheiros. No caso de Ronaldo, esse exemplo está muito ao nível da mentalidade, do compromisso e dedicação, da motivação e consistência, da confiança e ambição, entre várias outras características mentais que ele tem a mais que os outros. Já Messi, parece sempre mostrar essa liderança de uma forma menos assertiva, mais cooperativa, quase deixando que sejam os seus companheiros a decidir dar-lhe a bola para ele decidir, alicerçando essa forma de estar na sua qualidade individual e nos títulos, individuais e colectivos, já conquistados na sua carreira.
Ambos são líderes, é óbvio isso. Então, se calhar a diferença está no contexto, muito mais do que na vertente física. O contexto da selecção Argentina, coloca Messi acima de todos os outros, e todos os outros se colocam abaixo do astro, numa posição subalterna de serviço ao maior deles todos. Em jogo jogado, isso faz com que os restantes companheiros de equipa presentes em campo desempenhem um papel de complemento a Messi, como se dissessem “nós sabemos o que fazes e não fazes, e vamos assumir a despesa de compensar o que tu não fazes”. Assim, Messi liberta-se, física e mentalmente, para o que melhor pode e sabe fazer, que é muito e de forma decisiva. Por isso, e como também aconteceu de forma clara, ontem contra a Inglaterra, Messi quase não corre, sabendo que, atrás dele, haverá mais 10 que o irão fazer por si. E fazem-no. A outra parte do contexto é a posição em campo, que permite a Messi ter mais influência no jogo jogado, por jogar mais recuado no campo, aumenta assim o seu raio de influência. No jogo e na liderança, pois as assistências apresentam-se como uma forma de contribuição do líder aos liderados.
No caso de Portugal, o contexto é muito diferente. Com o avançar da idade, Ronaldo foi mudando a sua maneira de jogar e a sua posição no campo, permitindo-lhe ser mais finalizador, mas menos influente no jogo da equipa, deixando essa tarefa a outros que, no fundo, acabariam por ser os seus municiadores, como Bruno Fernandes, Vitinha, João Neves ou Félix, só para falar dos mais frisados pelo público. Esse papel de municiado, possibilitou que outras figuras fossem ganhando mais destaque e influência no jogo da equipa – não confundir com liderança –, o que levou a que fossem requisitando mais reconhecimento externo. Ao não verem esse reconhecimento ser atribuído, foi aumentando a clivagem entre líder e liderados, e aqui reside o maior problema de contexto.
Se, na Argentina, a sintonia entre Messi, treinador e restante plantel é total, no sentido em que sabem que, para vencer, precisam trabalhar e jogar de uma determinada forma para potenciar a sua estrela, na selecção nacional isso não acontece. E talvez não aconteça porque o treinador, que é quem deve assumir o papel de mostrar qual o caminho para chegar ao destino desejado – vencer – não tinha capacidade para tal. Tivesse o selecionador a capacidade para convencer os “outros” que, ao servirem bem Ronaldo na frente, estariam mais perto de vencer e que iria reconhecer as suas assistências e qualidade de jogo como se de um golo se tratasse, e talvez Portugal chegasse mais longe ou, não chegando, tivesse saído com a cabeça mais levantada.
Não sei se Ronaldo vai continuar ou não, ou até se vai ser convocado mais vezes. Mas, sei que este traz à selecção coisas que mais nenhum traz, como disse antes. Sei também que, para haver sucesso, com ou sem Ronaldo, e considerando que haverá quase sempre uma estrela mais cintilante que as outras, Portugal estará sempre mais perto de vencer se assumir essa estrela, não como um igual aos outros, porque não é, mas como um a melhorar o grupo, a elevar o nível dos outros, tal como a Argentina assume com Messi.
No fundo, a Argentina usa Messi para o seu sucesso, enquanto na selecção nacional, parece que se luta para provar que, afinal, há mais ao nível de Ronaldo. Por isso, uma está na final pela segunda vez seguida e procura o seu 4º título, e a outra acha que chegar aos quartos de final é um objectivo ambicioso.
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