Círculo de leitura do Ashram Pashupati

Círculo de leitura do Ashram Pashupati

Comentários

TEXTO PARA CÍRCULO DE LEITURA DE MARÇO DE 2022

Qual o sentido da caminhada que conduziu o jovem Yogi do Himalaia a transformar-se num historiador de religiões?
Como se conciliam a inspiração deste e a ciência dos mitos e dos símbolos.
Um mundo fascinante emerge pouco a pouco das conversas registadas no presente volume : a infância romena e a Índia, Tagore e Brancusi, Lisboa durante a segunda Guerra Mundial, Paris em 1945, Bachelard e Jung, Chicago e a geração hippie, Alan Watts e Castañeda, a amizade de Cioran e de Ionesco, os dois outros romenos parisienses.

O que avulta em A PROVAÇÃO DO LABIRINTO é a modernidade de Mircea Eliade. A atenção que dedica ao imaginário condu-lo à descoberta daquilo . É também à evidência de que .

Conforme escreveu, na revista ESPIRIT, um crítico francês,

A PROVAÇÃO DO LABIRINTO vem facultar àqueles que já conhecem Eliade, tal como aos seus novos leitores, uma visão de conjunto sobre a sua obra. Uma biografia, uma bibliografia e um importante texto de Eliade sobre Brancusi completam este volume.

Eliade, Mircea, in A PROVAÇÃO DO LABIRINTO, diálogos com CLAUDE- HENRI ROCQUET
Programa Yôga em Férias - Visita a Setúbal

A visita a Setúbal foi culminar do intenso e repleto de actividades Programa Yôga em Férias. E não podia terminar de melhor forma, numa cidade que tem na sua bandeira o violeta, cor de alta vibração e consumidora de karma, que si só nos remete para a ideia de renovação. E que na sua configuração geográf**a corresponde ao vishudha chakra do nosso país. Vishudha, o chakra do verbo da criação. Posto isto, esta visita toda ela subordinada ao tema da renovação foi altamente introspectiva, passando por locais de extrema beleza e de grandes signif**ados tão relacionados com o nosso caminho no Yôga. Um local cheio de “lugares comuns” como o nosso querido Mestre João Camacho tão bem referia. Onde nos deparamos com os nossos martírios e com a questão de sermos ou não capazes de os suportar e ir mais além e superá-los. Ser mais forte, e quanto mais fortes nos tornamos maiores são os desafios.
Visitámos o Convento da Nossa Senhora da Arrábida, mais conhecido ap***s como Convento da Arrábida. Este convento, situado na parte mais elevada da Serra, foi fundado por Frei Martinho de Santa Maria, frade castelhano da ordem de São Francisco que confessara querer fazer uma vida de ermita, dedicada exclusivamente ao culto de nossa senhora e a quem lhe foram concedidos os terrenos da encosta da Serra por D. João de Lencastre e onde havia já o culto a Nossa Senhora da Arrábida. Frei Martinho deslumbrado com a beleza do local fundou ali a sua ordem. Um culto Mariano, um culto do feminino.
No convento da Arrábida a vida era de pobreza, sacrifício, martírio, contemplação e entrega, buscando sempre os limites do corpo físico desprezando-o numa busca incessante pela pureza e pela divindade. Os monges descalços e com os pés descobertos por serem escravos de Deus, com o mínimo de agasalho possível, quer de verão quer de inverno, usavam o capuz piramidal que ficou característico dos monges arrábidos. A sua alimentação era praticamente à base de fruta que ali cultivavam e que intercalavam com os 3 dias de jejum.
Neste convento destaca-se também a importância da água, sem a qual a permanência naquele local seria impossível. A água que é fonte de vida e que foi aproveitada e canalizada pelos monges daquela altura de uma forma sábia para que conseguissem ter de beber.
Aqueles monges contemplativos que caminhavam descalços como forma de penitência e automutilação, pretendendo assim com o limite físico chegar mais perto do divino. Identifico-me com eles, com o caminhar em silêncio e comigo própria, não como penitência, mas porque para mim é um prazer. No silêncio encontro-me e o que está aqui está em toda a parte, o que não está aqui não está em parte alguma. E o caminhar é tão natural. Na sequência do que temos vindo a falar ao longo do mês, sinto o apelo para caminhar na serra que é mãe, na mitologia hindu-Uma. Na forma de Senhora do Monte a Deusa manifesta-se como Parvati, que signif**a montanha ou que vive na montanha.
Segundo o nosso querido Mestre João Camacho, “para o hinduísmo, as montanhas são locais sagrados dos quais os incautos se devem aproximar temerariamente. É lá que os deuses vivem, é para lá que os sábios se retiram em busca do Eu profundo, em busca do conhecimento. Assim é também na tradição ocidental.”
Aqui tal como Parvati temos Nossa Senhora da Arrábida em honra de quem, ainda hoje se mantém a tradição do Círio marítimo, um cortejo de barcos engalanados que partem com a imagem da Nossa senhora da Arrábida e em sua honra. Celebrando assim, o que se diz ter sido a aparição da Virgem Maria na serra durante um temporal, emitindo uma luz intensa na encosta que ajudou uma tripulação desnorteada e em aflição a chegar a bom porto. Uma festa religiosa, mas com uma profunda ligação aos ciclos da natureza, pois representa, tal como o tema da nossa visita, a renovação, o verão é tempo de alegria e fartura e é nesta altura que se dá a celebração e o apelo às dádivas da mãe natureza, pois esta pode ser bela e motivo de contemplação, mas durante o inverno é também tenebrosa e traz consigo perigos terríveis, doenças, medos e escuridão e mesmo no verão, entre outras coisas, o calor pode ser abrasador e levar-nos a estados de desidratação.
A Serra da Arrábida é um local maravilhoso e de uma energia fabulosa, já para não falar da imensa vista sobre o rio Sado e sobre o mar que nos confere a ideia de imensidão e beleza do mundo e do universo, nos mostra como somos pequenos e fazemos parte de tudo.
Nesta visita a Setúbal tivemos ainda oportunidade de visitar a Igreja do Antigo Mosteiro de Jesus, uma igreja cujas paredes são testemunhas de mais de 500 anos de História de Setúbal e de Portugal. Foi aqui inclusivamente que foi ratif**ado o Tratado de Tordesilhas em 1494 pelo Rei D. João II. Um mosteiro também ele rico em simbolismo, logo na porta de entrada podemos ver o alfa e o ómega, símbolos de inicio e fim e foi de facto assim, ali foi o inicio e o fim pois infelizmente, por se encontrar em restauração, ap***s pudemos ver a fachada, por outro lado, é bom que esteja a ser restaurado, pois este foi considerado um museu de risco em 2013 pela federação pan-europeia de património cultural Europa Nostra e é um local tão bonito e de com tanta história e simbologia que merece ser preservado.
Terminámos como nosso habitual lanche convívio sempre tão aguardado e apetecível.
Muito obrigada querido Mestre João Camacho e Professora Anabela Duarte da Silva pela orientação nesta visita de estudo marcante e que com certeza irá ressoar ao longo do ano e pela organização deste grande evento que foi o Yôga em Férias.
SwáSthya!

Rita Fernandes, Instrutora Estagiária
Discípula do Mestre João Camacho
Sempre achei que em parte uma do meu ser existia uma totalidade una de Ser. Um caminho obscuro trilhado em permanência numa recusa imensa em não querer ser, estar, viver. Uma dúvida premente em que nada do que fazia, merecia ter. Porém, nessa desajustada condição, e caminho assente em desconhecimento, sofrimento, egocentrismo, imaturidade, e não controle da emoção/razão, existia uma resiliência inata, pronta a vingar e soltar voz a plenos pulmões.
Há caminhos que são para nós... simplesmente. Que tudo nos dizem. Que nos definem e que nada precisam mostrar. Porque no que não se diz, no que não se vê, no que não se ouve... existe o mistério que ap***s alguns sentem.
Gosto sem puder gostar. Digo coisas como se me perguntassem.

Excelente texto, querida Prof.ª Anabela Duarte da Silva!
É no reflexo dos olhos que se avista o que vai dentro. E, neles brilham os ensinamentos do querido Mestre João Camacho!

Obrigada pela partilha! E, por vos continuar a ouvir.

SwáSthya!
Exames Nacionais- 1ª Época

Os exames nacionais para instrutores de SwáSthya Yôga, realizaram-se no passado sábado dia de Junho, o mais esperado e ao mesmo tempo mais temido dia do ano no curso de formação de instrutores de Yôga. Depois de um grande ano de trabalho e de estudo, foi o exame foi para todos o culminar deste ano transformador. Durante todo o ano somos postos à prova, mas o momento do exame é o momento da verdade. É um dia de grande pressão e de muitas emoções, mas como o nosso querido Mestre João Camacho nos tem vindo a dizer, só assim é possível lapidar um diamante, só com alta pressão. E é interessante esta comparação que tantas vezes o Mestre faz, referindo-se à nossa própria transformação, pois todas as ferramentas de corte usadas para lapidar o diamante tem de ser feitas dele
mesmo, de diamante. O diamante é o único capaz de cortar outro diamante.
O Mestre mostra-nos, ilumina o caminho, mas somos nós que temos de caminhar.
Devido à grande pressão por que passamos, o sabor da vitória é ainda mais sentido, a alegria, felicidade e satisfação depois do dever cumprido são enormes e a vontade de continuar neste caminho é cada vez mais firme.
No meu caso, tinha a responsabilidade acrescida de ter de fazer a prova de ásana não só por mim, mas por todos os colegas que íam a exame no mesmo dia, a nota da prova de ásana que eu conseguisse obter, seria a nota de todos. Senti-me o homem do leme em A Mensagem, de Fernando Pessoa. «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme, E roda nas trevas do fim do mundo; Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!».
Perante o júri, eu era mais do que eu, era todos os que se prepuseram a exame e queriam o certif**ado. E por mais medo que pudesse ter, desistir nunca foi opção. Com a coragem do leão que nos é característica, conquistámos todas aquilo que tínhamos ido buscar, cada uma de nós no seu grau evolutivo próprio, mas todas juntas.
Foi um dia cheio, que f**ará para recordar. E como prendemos com o nosso Mestre, devemos festejar as vitórias e para isso tivemos o merecido lanche, que era na verdade um verdadeiro banquete e que nos proporcionou bons momentos de convívio e alegria, felizes por estarmos juntos e pertencermos a esta egrégora forte, guerreira e vencedora. Convívio esse em que tivemos oportunidade, agora já mais
descontraídos de confraternizar com o nosso grande amigo Instrutor Leonardo Terto, representante do Espaço Cultural Ashram Pashupati no Brasil, e que passará o mês de Julho connosco aproveitando assim o fantástico programa Yôga em Férias a decorrer. A presença do Instrutor Leonardo Terto nos exames nacionais foi também marcante, pois está sempre a um oceano de distância e chegou precisamente neste dia tão importante para todos, fazendo questão de participar de
todas as aulas de exame bem como de trazer, como manda a tradição, o pújá ao Mestre de uma beleza e signif**ado tão bonito e profundo.
Mais uma vez muito obrigada querido Mestre João Camacho, pela orientação e ensinamentos, assim como agradeço à Professora Anabela Duarte da Silva, que no próprio dia em que foi júri de todos os exames para o grau de instrutores foi
também a exame, pelo o qual lhe dou também mais uma vez os parabéns, e ao Prof. Luís Lázaro pelo excelente trabalho.
Não posso deixar de agradecer também à minha querida monitora Professora Paula Trigo de Sousa, que apesar de não ter estado presente fisicamente, tem me acompanhado sempre de perto.

Rita Fernandes, Instrutora Estagiária
Discípula do Mestre João Camacho

Círculo de leitura do Ashram Pashupati. Director executivo: Mestre João Camacho

Funcionando normalmente

25/03/2022

TEXTO PARA A REUNIÃO DE Março 2022

Repetição da cosmogonia
Portanto, preeminentemente, o Centro é o âmbito do sagrado, a zona da realidade absoluta. De modo semelhante, todos os demais símbolos da realidade absoluta (árvores da vida e imortalidade, fontes da juventude, etc.) encontram-se também situados em lugares centrais. A estrada que leva para o centro é um "caminho difícil" (duro hana), e isso pode ser verif**ado em todos os níveis da realidade: difíceis convoluções de um templo (como em Borobudur); peregrinação a lugares sagrados (Meca, Hardwar, Jerusalém); viagens cheias de perigos, realizadas por expedições heróicas, em busca do Velo de Ouro, das Maçãs Douradas, da Erva da Vida; desespero dentro de labirintos; dificuldades daquele que procura pelo caminho em direção a seu ego, ao "centro" do seu ser, e assim por diante. A estrada é árdua, repleta de perigos, porque, na verdade, representa um ritual de passagem do âmbito profano para o sagrado, do efêmero e ilusório para a realidade e a eternidade, da morte para a vida, do homem para a divindade. Chegar ao centro equivale a uma consagração, uma iniciação; a existência profana e ilusória de ontem dá lugar a uma nova, a uma vida que é real, duradoura, eficiente.
Se o acto da Criação realiza a passagem daquilo que não é manifesto para o que é manifesto, ou, falando cosmologicamente, do caos para o Cosmo; se a Criação teve lugar a partir de um centro; se, consequentemente, todas as variedades do ser, desde o inanimado até o vivente, podem alcançar a existência ap***s numa área de domínio sagrado — tudo isso ilumina de uma forma maravilhosa para nós o simbolismo das cidades sagradas (centros do mundo), as teorias geomânticas que orientam a fundação de cidades, os conceitos a justif**ar os rituais que acompanham sua construção. Nós estudamos esses rituais de construção, e as teorias que eles implicam, numa obra anterior, e a ela remetemos o leitor. Aqui pretendemos destacar ap***s duas importantes propostas:
1. Toda criação repete o ato cosmogônico pré-eminente, a criação do mundo.
2. Conseqüentemente, qualquer coisa que é fundada tem sua fundação no centro do mundo (desde que, como sabemos, a própria Criação teve lugar a partir de um centro).
Entre os muitos exemplos de que dispomos, vamos escolher ap***s um, que, por ser interessante também em outros aspectos, reaparecerá mais tarde, em nossa exposição. Na Índia, antes que uma única pedra seja colocada, "o astrólogo mostra qual é o ponto da fundação que está exatamente acima da cabeça da serpente que sustenta o mundo. O pedreiro produz uma pequena estaca de madeira, a partir de um galho da árvore Khadira, e, com o uso de um coco, crava a estaca no chão, bem nesse lugar particular, de maneira que a estaca fixe a cabeça da serpente naquele ponto, com toda a segurança... Se essa serpente algum dia sacudir a cabeça com muita violência, sacudirá todo o mundo até que ele fique em pedaços". Uma pedra fundamental é colocada em cima da estaca. Assim, a pedra angular f**a posicionada exatamente no "centro do mundo". Mas, ao mesmo tempo, o ritual de fundação repete o ato cosmogônico, porque, "prender" a cabeça da serpente, cravar uma estaca sobre ela, representa uma imitação do gesto primordial de Soma (Rg- V e da , II, 12, 1) ou de Indra, quando este "atirou a serpente em sua toca" (VI, 17, 9), quando seu raio "cortou sua cabeça" (I, 52, 10). A serpente simboliza o caos, aquilo que é disforme e não manifestado. Indra vem sobre Vrtra (IV, 19, 3) não dividido (aparvan), não despertado (abudhyam), dormindo (abudhyamanam), mergulhado no mais profundo sono (susupanam), estendido (asayanam). O lançamento do raio e a decapitação são equivalentes ao ato da Criação, com a passagem daquilo que não é manifestado para o que é manifestado, do disforme para o que foi formado. Vrtra tinha confiscado as águas e as mantinha no interior das montanhas. Isso signif**a que Vrtra era o
senhor absoluto — do mesmo modo que Tiamat ou qualquer divindade em forma de serpente — em relação a todo o caos anterior à Criação; ou que a grande serpente, mantendo as águas ap***s para si mesma, tinha deixado todo o mundo louco por causa da seca. Independente de esse confisco ter ocorrido antes do ato de Criação, ou se deve ter lugar depois da fundação do mundo, o signif**ado permanece o mesmo: Vrtra "impede" que o mundo seja criado, ou
de durar muito. Como símbolo daquilo que não é manifestado, do que é latente, ou do disforme, Vrtra representa o caos que existia antes da Criação.
Em nossos comentários sobre a lenda do Mestre Manole (cf. nota 35, acima), tentamos explicar os rituais de construção através da imitação do gesto cosmogônico. A teoria implicada nesses rituais resume-se nisto: nada pode durar se não for "animado", se não receber uma "alma", por intermédio de um sacrifício; o protótipo do ritual de construção é o sacrifício que teve lugar no momento de fundação do mundo. Na verdade, em certas cosmogonias arcaicas, o mundo recebeu existência por meio do sacrifício de um monstro primordial, simbolizando o caos (Tiamat), ou através do sacrifício de um gigante cósmico (Ymir, Pan-Ku, Purusa). Para garantir a realidade e a durabilidade de uma construção, existe uma repetição do ato divino da construção perfeita: a Criação dos mundos e do homem. Como primeiro passo, a "realidade" do lugar é garantida por intermédio da consagração do terreno, isto é, por sua transformação em um Centro; então, a validade do ato de construção é confirmada pela repetição do sacrifício divino.
Naturalmente, a consagração do Centro ocorre num espaço de qualidade diferente do espaço profano. Por meio do paradoxo do ritual, cada espaço consagrado coincide com o centro do mundo, da mesma forma que a hora de qualquer ritual coincide com o momento mítico do "princípio". Através da repetição do ato cosmogônico, o momento concreto, no qual a construção tem lugar, é projetado para o tempo mítico, in illo tempore, quando ocorreu a
fundação do mundo. Assim, a realidade e a durabilidade de uma construção f**am garantidas, não ap***s pela transformação do espaço profano em espaço transcendental (o Centro), mas também pela transformação do tempo concreto em tempo mítico. Seja qual for o tipo de ritual, como vamos ver adiante, ele se desenvolve não só num espaço consagrado (isto é, num lugar diferente, em essência, do espaço profano), mas também num "tempo sagrado", "era uma vez" (in illo tempore, ab origine), ou seja, quando o ritual foi celebrado pela primeira vez por um deus, um ancestral, ou um herói.

Eliade, Mircea; O Mito do eterno retorno, Ed. Mercuryo 1991, pg. 23-26

26/11/2021

TEXTO PARA CÍRCULO DE LEITURA DE NOVEMBRO 2021
Boas tardes,
Sensei Patrão, meu amigo e, neste momento, Tokugawa, solicitou-me que vos fizesse uma apresentação das artes marciais indianas, nestas 24 horas de Kumite. Onde se procurem as raízes longínquas das artes marciais. E assim o farei. Porém, nada poderei acrescentar ao que já sabeis. Pois as praticais.
O Todê, a mão chinesa, ou o Tê, a mão, ou o Okinawa Tê, a mão de Okinawa. Ou até Karate, a mão vazia, nada mais são do que desenvolvimentos das artes que me pediram para apresentar.
As artes da espada? Bom, os samurais, até ao sec. XII usavam uma espada direita, com duas lâminas. Como algumas espadas chinesas. E passaram a usá-la curva, após a invasão, ou a tentativa falhada de invasão do Japão pelos Mongóis. Estes usavam uma túnica de seda por baixo da roupa ou da armadura. E as setas saiam com facilidade em vez de rasgarem ainda mais os tecidos ao serem retiradas. E as lâminas da espada não cortavam os tecidos porque não conseguiam cortar as fibras da seda. Por isso criaram uma lâmina curta e afiada que permitia cortar as fibras da seda e os tecidos humanos que estavam por detrás delas. Mas, também nas artes marciais indianas se usaram estes dois tipos de lâmina e outros. Também por experiências similares.
Os portugueses chegaram à Índia a usarem duas espadas, como Myamoto Musashi. E antes de terem chegado ao Japão. Não usavam escudo, mas duas espadas. Uma mais longa e outra mais curta. E desenvolveram uma técnica que permitia usar a espada de modo diferente. Passando o dedo indicador para a frente da guarda. Mais tarde as espadas passaram a ter umas partes metálicas que permitiam proteger esse dedo. Este desenvolvimento permitia uma estocada na horizontal, com precisão e força suficiente para perfurar. E a posição do dedo permitia-lhes, em seguida puxar a espada com facilidade. Mas não tinham os indianos uma espada que se agarrava com o punho fechado e que se brandia totalmente na horizontal na estocada?
Também as artes da flexibilidade, como o Jujutsu, ou Judô lá as vamos encontrar. Temos aí técnicas de controlo, de chaves às articulações, estrangulamentos, assim como técnicas de projecção.
As artes do tiro com arco? Bom, conto-vos uma história de Arjuna, o maior guerreiro de sempre, na mitologia indiana. E praticante de Yôga. Ficou para a história como um extraordinário guerreiro, virtualmente invencível, fosse em combate individual com as mãos nuas ou com armas e armadura. Ou fosse em campo de batalha integrado num exército. Como Mestre de Yôga, deve ter-se presente o Bhagavad Gítá. Esta escritura que é considerada quase uma bíblia pelo povo hindu e escrita por volta de 400 a. C. é uma conversa entre Krishna, a divindade solar, o deus-menino, e Arjuna. Horas antes do início de uma gigantesca batalha onde morreram centenas de milhares de soldados. Batalha integrada numa guerra que envolveu muitos povos da zona central da Ásia, sobretudo a Índia e a China. Zimmer, um reputado Orientalista diz que as dimensões desta guerra, para a época, uma espécie de guerra mundial. Mas esta conversa, do Bhagavad Gítá, inicia-se com Arjuna a afirmar que teme combater pois reconhece do outro lado gurus, mestres, de grande valor. E como poderia ele, em consciência, matar tais sábios? E no decurso da conversa, Krishna transmite-lhe o ensinamento do Yôga.
Mas queria referir-vos o arco. Conta o Mahá Bhárata que num treino em que Arjuna e os seus irmãos treinavam as artes da guerra sob a orientação de seu Mestre, Drona, este pediu aos restantes discípulos e príncipes que apontassem a flecha, com o arco, para um pássaro que estava no cimo de uma torre o castelo. E foi-lhes perguntando, um a um, o que viam. Reponderam-lhe que viam a torre, as pedras, a argamassa entre elas, as ervas que cresciam nas fendas, o pássaro, as p***s do pássaro, as asas, a cauda, as unhas, o mastro onde o pássaro estava poisado, etc... Drona, zangado, a todos foi dando umas pauladas com o bastão que tinha nas mãos. Quando perguntou a Arjuna, a resposta que recebeu foi: "Vejo o olho do pássaro!". Ou seja, via ap***s o local par aonde ia disparar. Via ap***s um ponto – o olho do pássaro. E a mente concentrada num só ponto – êkágratá – é o mais elevado nível de concentração.
O que poderei dizer-vos mais? Olharemos para a arte marcial, dita do amor, o Aikido? A ideia de centro (madhyama), é patente na tradição das artes marciais indianas. A ideia de estar em comunhão com o Universo? Também. Tomar consciência do macro e do microcosmos é uma constante do Yôga e das raízes das artes marciais indianas.
Poderei falar-vos de mokuso, ou de zen? Terão certamente noção de que as técnicas de meditação têm no Yôga o nome, sânscrito, de dhyána. O sânscrito é uma língua muito gutural. Mais gutural do que o alemão ou o inglês. Ora, Bôddhidharma, ou Daruma, ou Bôddhisatwa, ou Damô, alguns dos vários nomes com que é conhecido, patriarca do budismo, decidiu ir pregar o budismo para a China, por volta do sec. V da era Cristã. E foi avisado várias vezes que a viagem era longa e perigosa, encontraria desertos e florestas, vales e montanhas, salteadores e animais selvagens. Como vós, nestas 24 horas de Kumite. E aconselharam-no a levar consigo uma escolta armada. E Daruma reflectiu sobre isso. E ponderou que não podia desistir da viagem por medo de ser morto. Que espécie de alto sacerdote ele seria se se revelasse tão apegado à vida e com tanto medo da morte!? Também não poderia ir com uma escolta militar armada até aos dentes que lhe garantisse segurança pois como teria, depois, moral para falar de ahimsa, a não-violência, se se fizesse acompanhar de uma escolta?! Acresce que, dizem as escrituras, na presença de um mestre que esteja em ahimsa a violência cessa. E sentou-se em estado meditativo e surgiu-lhe à mente, através dos canais intuicionais, Shiva, o criador do Yôga, a dançar uma das suas danças, o Tándava. E esta dança é uma antiga arte marcial, gupta vídya, ou seja de conhecimento reservado, contida no Yôga Antigo. E Daruma marchou rumo à China. Quando chegou à corte do Imperador, perguntaram-lhe como teria conseguido fazer tal viagem, sozinho, sem escolta e sobrevivido? E Daruma, respondeu – de mãos vazias. Dir-me-ão alguns de vós – Karate. Mas queria referir-vos as artes da meditação. E começo por este aspecto – mãos vazias. Vazias as mãos, como a mente – paragem das ondas mentais, como o ensina Pátañjali. Daruma foi expulso da corte. E foi radicar-se num mosteiro que veio a f**ar célebre – Shaolin. E aí ensinou aos monges desse mosteiro, fracos, doentes e frequentemente agredidos, ensinou-lhes as técnicas de pránáyáma (expansão da bio-energia através de exercícios respiratórios), as de kriyá (técnicas de purif**ação), ásana (procedimentos orgânicos) , as de combate (Shiva Natarája nyása)e também as de meditação. Ensinou-lhes dhyána. Esta palavra sofreu uma corruptela, pois a língua chinesa é muito mais doce. E passou de dhyána, a dhyán e a ch'an. E foi como ch'an que os monges chineses levaram o budismo e as técnicas de meditação para o Japão a partir do sec. VI. Também aqui, o termo veio a sofrer uma alteração. Para a língua japonesa, ch'an, não soava bem. Então passou a zen.
Ora praticais toda a sorte de artes marciais indianas. O que posso dizer-vos mais?
Ah os nomes.
Como já vos disse, o Yôga é a mais antiga escola filosóf**a que existe na Índia. Em paralelo com o Sámkhya e com o Ta**ra. E a arte marcial contida no Yôga tem o nome de Tándava, ou de Samhara-Tándava. Devo dizer-vos que Hara é outro dos nomes de Shiva, o auspicioso, e que o fonema sam, signif**a "com", "integrado". Tándava é a dança da dissolução cósmica. No Yôga Antigo chamamos-lhe Shiva Natarája nyása – identif**ação com Shiva na sua forma de bailarino real.
João Camacho, O Sono de Ganêsha

22/10/2021

Texto para a reunião do Círculo de Leitura de 22 de Outubro de 2021.
Hoje abordarei a não democraticidade da iniciação e do caminho iniciático e da relação Mestre/Discípulo.
Julius Evola, no seu livro Le Yôga Tantrique, refere que a ciência, a técnica, são democráticas. Têm uma estrutura, intrínseca, de organização e de transmissão do conhecimento democrática. Qualquer um, medianamente inteligente, consegue ir à Universidade e fazer seus os conhecimentos actuais. Uma pi***la produz o mesmo efeito nas mãos de um id**ta, de um soldado, de um polícia ou de um chefe de estado. E a qualquer um deles é possível transportá-los de avião, de um lado para o outro, no mesmo número de horas. Mas assim já não é com o conhecimento iniciático. No âmbito da ciência estamos no plano ontológico do ser humano. E aí, os princípios são os da igual dignidade. Porém o homem é qualquer coisa que pode ser ultrapassada, como ensinou Nietzche. A transcendência da condição humana, objectivo das disciplinas da auto-superação, como a nossa revolução cultural, conduz o sádhaka a um estado existencial e ontológico (ontos – ser, logos – fogo; ciência; estudo). Ou seja, a um estado de ser superior ao do ser humano comum, consequência da superioridade de uma evolução que leva a que o yôgin seja um mutante, por comparação com o resto da humanidade. Ora, o calor, o despertamento da kundaliní, os siddhis que com isso se manifestam, são pessoais, intransmissíveis e não democratizáveis. E isto, esta profunda diferença, é a divisão fundamental entre a tradição e a modernidade. Pois a diferença real entre os seres é a base de um conhecimento e dum poder inalienáveis, não comunicáveis, logo, exclusivos e esotéricos pela sua própria natureza e não por artifício, pois trata-se de um culminar de um desenvolvimento excepcional, que não se pode partilhar com toda a sociedade.
Nesta sequência, René Guenón, o grande orientalista francês da primeira metade do séc. XX, estabeleceu, para classif**ar uma fraternidade, um círculo interno, como detentora de autênticos processos iniciáticos, três características que se devem observar:
1- Necessidade de uma genuína qualif**ação interna dos seus membros
2- Necessidade de uma transmissão do saber esotérico e de auto-aperfeiçoamento interior de cada um dos membros
3- Necessidade de actualização activa subsequente, pelo esforço individual
Tais exigências devem-se ao facto de a iniciação não ser um mero ritual de passagem que celebra a aceitação numa fraternidade. Deve haver uma genuína qualif**ação interna dos seus membros e depois com a individual “actualização activa subsequente”. A iniciação é muito mais do que ser aceite num grupo. É, e pretende ser, um processo transformativo, de mutação, de auto-superação, que começa com um influxo energético, polarizado, pelo Mestre, proveniente dos domínios transcendentes e exercendo os seus efeitos ao nível dos corpos subtis. Porém, o que se envolve no processo iniciatório, deve ultrapassar-se também em provas físicas (veem aqui outra razão para a coreografia?) e ser corajoso. (...) O iniciado para vencer as provações e receber o conhecimento do Mestre, deve desenvolver, entre outras, as seguintes qualidades: saber, querer, ousar e calar.
A iniciação foi sempre reservada a alguns e nunca aberta a toda a gente. O impulso iniciatório transmuta o seu humano, se este não o detiver. Uma tradição iniciática usa tudo o que não é racional como elemento de transformação: o corpo; os desejos; as pulsões; a imaginação; a clarividência; a emoção; a intuição. Pois o processo só pode iniciar-se e ter continuidade de fora para dentro, do Mestre para o discípulo.

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Escola Desenvolvimento Humano- Filial Setúbal, Alcochete e Montijo- "Mais do que uma escola transformamos vidas."

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Danças de Salão Latinas e Clássicas. Escola de social , crianças , competicão. Angélique Pires - Professora e júri internacional de danças de salão. Começou a sua carreira profissional em França onde nasceu e residiu até 2006, foi 5 vezes camp

Tándava. Departamento de ásana Tándava. Departamento de ásana
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Montijo, 2870-330

Página do departamento de ásana do Ashram Pashupati. Directora executiva: Professora Anabela Duarte da Silva.

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Mestres do Saber tem como fim apoiar os alunos nos TPCs, com orientações especif**as nas dificuldades. Em regime de mensalidade e explicação por hora.

CUBO Magico - Online e ao Domicilio CUBO Magico - Online e ao Domicilio
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Diferente é bom... Diferente é especial... Diferente é aquilo que todos nós somos...

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Mais que o exercício de Matemática... [email protected] De 2ª a 6ªfeira das 14:30H às19:00H.