17/04/2022
O corpus de conhecimento do Yôga é muito extenso. A chegada dos portugueses à Índia, por via marítima, marca o início de uma nova era das relações internacionas. Mas também o acesso directo às escrituras hindus (shástra-s). Muito está para desvendar, investigar, redescobrir. Do que se sabe, muito é surpreendente. Nomeadamente, as primeiras traduções do sânscrito para uma língua ocidental, no período pós-descobertas, foram feita por portugueses e para português. Embora só no séc. XX se tenha redescoberto tal facto. Reproduzo, seguidamente, parte da Oração de Sapiência, com que iniciei um dos Cursos de Formação de Instrutores de Yôga - Métodos e Técnicas do Yôga.
"Caros convidados, amigos, alunos e discípulos, Caros Colegas,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Sejam bem-vindos a este sat sanga, a esta cerimónia de abertura do Curso de Formação de Instrutores de Yôga - Métodos e Técnicas do Yôga.
Cabe-me a tarefa de proferir esta que pretende ser uma lição, ou oração, de sapiência. Pretende esta ser a primeira lição da abertura de um curso. Referem os investigadores que esta tradição remontará, entre nós, aos tempos e à pessoa do Infante D. Henrique. No período do protectorado universitário – O Infante D.
Henrique foi o protector da Universidade de Coimbra. E é com grande prazer que o refiro. É D. Henrique que planeia e abre as portas à grande saga nacional que foram os Descobrimentos e, nestes, a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Descoberta essa perpetrada, na sua fase final, pelo engenho de Vasco da Gama, o grande Almirante. E essa foi a nossa forma de chegarmos à Índia e ao contacto com as suas gentes, a sua cultura, as suas línguas, entre as quais o sânscrito, os seus dárshana, isto é, os seus sistemas filosóficos ortodoxos, entre os quais consta o Yôga. E é daí
que nos chegam desde logo, informações sobre o Yôga. Chegam-nos nas cartas de D. Afonso de Albuquerque a El-Rei D. Manuel I, mas a designá-lo por “joga”. Chegam-nos na História do Descobrimento e Conquista da Índia, uma obra em 10 volumes, escrita por um historiador, Fernão Lopes de Castanheda. Filho de um magistrado que foi colocado em funções no Estado Português da Índia, acompanhou o pai e, aí, reuniu toda a informação e documentação necessária para escrever tal obra. Esta obra foi traduzida para várias línguas e publicada em vários países da Europa no seu tempo. Também encontramos referências ao Yôga nos documentos do Padroado Português do Oriente. Tanto a obra de Castanheda, como as cartas de D. Afonso de Albuquerque a D. Manuel I, podem ser consultadas on-line.
Mas a existência do Yôga e as referências a esta prática não eram estranhas na Europa. E não recuarei muito, não me alongarei. Desde logo, os monges esicastas, do Monte Athos, na Grécia, praticavam técnicas de meditação e de pránáyáma similares à do Yôga.
Os árabes já depois da expansão religiosa dirigida pelo profeta Maomé entram em contacto com a Índia e Al-Biruni traduz o Yôga Sútra de Pátañjali, no séc. XI, o que veio a influenciar grandemente a mística e a espiritualidade do sufismo e dos seus adeptos, os sufi. Afonso Henriques, ou Afonso Ibnarrik, conhecia o sufismo. Aliás como todos os Cavaleiros Templários.
Os persas também conhecem o Yôga através do movimento sufi.
Marco Polo no seu Livro das Maravilhas, também descreve os jôga.
Mas não só. Também no que se refere ao sânscrito, a língua técnica do Yôga, foram os portugueses a descobrir as semelhanças entre o sânscrito, o grego e o latim. E não, como poderão encontrar nas referências oficiais, o Juiz Supremo do Tribunal de Calcutá, William Jones, no fim do séc. XVIII.
Os padres portugueses tiveram interesse imediato em estudar, conhecer, traduzir as línguas da Índia e as línguas em que os textos religiosos estavam escritos para melhor refutarem tais nsinamentos religiosos, teológicos, filosóficos, para converterem os indianos ao cristianismo. E de imediato surgiram compêndios e gramáticas de sânscrito. Também a língua concani, de Goa e a língua Bengali foram traduzidas no séc. XVI. Aliás, o Frade Manuel da Assunção compôs neste língua o Compêndio do Mistérios da Fé.
Sabe-se que os padres portugueses traduziram o sânscrito, no séc.
XVI, através do espólio da Biblioteca Pública Eborense. Já só no séc. XX se descobriu em tal espólio obras da missão de Goa. Uma dessas obras tem como título Notícia Sumária do Gentilismo da Azia. E aí descrevem-se as oito reencarnações de Vishnucontém ainda 11 desenhos e uma tradução do sânscrito para português da
escritura hindu Bhagavatam, ou Bhavata Purána. É o purána de Vishnu.
Como esta prelação inicial, muitas vezes, é já uma lição sobre uma secção ou um capítulo da matéria não me afastei da proposta e, em verdade, expus já parte da matéria, no que respeita à história do Yôga em Portugal e na Europa."