25/05/2023
Ao longo da nossa infância, vamos ajustando quem realmente somos às exigências dos meios onde crescemos.
Retiramos um pouco ali, acrescentamos um pouco aqui... Engolimos emoções que são desafiantes para os outros, escondemos partes de nós menos aceites (até mesmo de nós-mesmos)... Aprendemos a fazer de conta, ao ponto de, por vezes, nós mesmos passarmos a acreditar que somos aquela pessoa...
Certas crianças resistem muito e gritam bem alto que não querem ser diferentes de quem são... E os adultos à sua volta vêm nisso falta de educação e adotam medidas ainda mais rígidas para levar a criança a caber naquelas caixinhas aceites pela maioria... Outros adultos desistem e, mais uma vez, a criança f**a a sentir-se sozinha, inadequada e não amada.
Outras crianças submetem-se mais facilmente, deixam de resistir mais rapidamente e assumem os papéis que os outros acham adequados...
Chega a hora destas crianças serem adolescentes e depois adultos... E uns aprenderam que têm que gritar bem alto para fazerem ouvir a sua voz e poderem ser quem são... Outros aprenderam que, para serem amados, têm que ser bonzinhos e não fazer muito alarido...
E chega a hora destas crianças serem elas próprias os pais e mães de outras crianças... E, nesse momento, fazer de conta já não é suficiente... Representar um papel já não é suficiente...
As crianças vêm com este presente. Todos os dias nos devolvem a pergunta: "Quem és tu, pai?" "Quem és tu, mãe?"
Oferecem-nos, dia após dia, a oportunidade de redescobrirmos quem somos e de, finalmente, andarmos neste mundo com a nossa própria voz, de forma autêntica.