11/10/2025
Hoje, um ano certo após a sua partida, decidimos divulgar em formato aberto, a carta que redigimos na altura ao médico oncologista do meu pai e a toda a equipa do Hospital Beatriz Ângelo 🙏🏼
"Escrevemos esta carta em representação do sentimento coletivo da família de Carlos Cardoso Luís, filho, pai, sogro e avô.
Na sua derradeira mensagem, manifestou a riqueza dos seus 76 anos de vida em que teve oportunidade de conhecer o mundo e impactar, de forma tão premente, tantos e tantas amigas, de múltiplos grupos distintos, agregados ao longo do tempo.
A omissão dos últimos 2 anos e 4 meses não foi um acaso, e o diagnóstico que o Dr. João teve oportunidade de partilhar, ainda no Hospital da Luz, marcou, de forma significativa, a sua pessoa.
Mas, se existe algo que sempre o guiou e marcou enquanto pessoa, foi a forma positiva com que sempre encarou a vida. E, mesmo confrontado com tão dantesco cenário, nunca abdicou da crença nos outros e depositou total confiança na equipa médica que o seguiu durante este período tão difícil.
O Dr. João foi a peça fundamental, pela sua empatia e qualidades humanas, determinantes para que, ao longo de todos os tratamentos, nunca em nenhum momento, os mesmos tenham sido vistos como algo negativo.
Em determinado momento foram 25 sessões de quimioterapia contínuas, mas também 25 sessões de partilha, de poemas, de histórias de vida, que tanto apoiaram e mobilizaram contra a sintomatologia. Nunca uma ida ao Hospital Beatriz Ângelo foi vista como algo negativo e nas suas próprias palavras, sempre teve um “tratamento 5 estrelas”.
Todos, incluindo ele próprio, sabíamos da dureza do diagnóstico e todos convivemos, durante mais de 2 anos, com aquele que sabíamos ser o desfecho inevitável.
Contudo, foi toda a fantástica equipa do Hospital Beatriz Ângelo, médicos, enfermeiros e auxiliares, que garantiram que até há pouco mais de 2 meses, toda a atividade regular de produção de poesia, pintura, tertúlias, eventos, participação na sua amada Associação Portuguesa de Poetas - APP e nos Jograis se tenha mantido e que a pessoa tenha sido sempre, em todos os momentos, muito mais do que a sua doença.
A forma como partiu é bem reveladora do seu carácter e mentalidade, permitindo que todos nós, a sua família, pudéssemos garantir a nossa despedida, para depois, num sopro de um dos seus poemas, se deixasse levar.
Sempre nos transmitiu que não temia a morte. O seu maior adversário sempre foi o sofrimento que não queria ter e que, pelo que pudemos presenciar, não teve.
Lutou enquanto lhe foram dadas vias de combate e abandonou a mesma quando lhe foi transmitido a inexistência das mesmas.
Desconhecemos se é algo mais ou menos frequente, mas reconhecemos a enorme racionalidade inerente à gestão que foi efetuando ao longo de toda a doença.
A si, Dr. João, deixamos o nosso eterno agradecimento, pois foi a forma balanceada com que foi gerindo e partilhando a informação, que permitiu a manutenção do seu equilíbrio psicológico.
Desconhecemos se teve oportunidade de lhe transmitir pessoalmente o seu agradecimento nos últimos momentos, mas se não o fez, depositou em nós, a sua família, esse desígnio, nos muito momentos em que partilhou connosco a felicidade de o ter como seu médico neste momento tão particular da sua vida.
Ter tido a oportunidade de se cruzar consigo, foi, sem dúvida, marcante, como tão bem espelha nos muitos poemas que lhe dedicou e que lhe leu nas suas muitas consultas.
Sabemos que esta doença não se extinguiu com a sua morte, e que, como ele, muitos outros convivem com a mesma. Felizes daqueles que o podem fazer com o seu conhecimento, apoio e suporte.
Que a vida lhe traga o que de melhor tem, com muita saúde para si e para sua linda família.
Em nome de Carlos Cardoso Luís,
Mãe, Mulher, Filhos, Nora, Netos"