03/08/2022
A escola sem o Saraiva!
O Jorge partiu. Inesperadamente, sem sentido, como a morte sabe ser. Um homem do tempo e do espaço, não fossem estas duas categorias filosóficas. O Jorge que gostava de se fazer ouvir onde quer que estivesse, quer no tempo, quer no espaço. Com as suas ideias claras, a sua oratória irrepreensível, a sua retórica contestatária, a sua argumentação imbatível. O Jorge que abraçou causas, que defendeu sonhos de juventude, que teve sempre um olhar crítico para um mundo voraz, agressivo e implacável; um homem que acertou as contas no seu encontro com a História, nos ideais que defendeu, nos alunos que formou, nos projetos em que acreditou, e que também nos mostrou que todos os dias podemos partir sem estar à espera de nada. Foi assim que aconteceu.
Encontrei o Jorge em Alverca em 84/85, entramos os dois no Camões em 93/94, e juntos fizemos também um percurso. Relembro o Jorge que entrava em cada dia na direção, com as suas ideias contestatárias, os seus planos para o cinema, o seu carisma com os alunos, o tempo em que contestava os seus conflitos. Relembro o Jorge da “alma irrequieta” que incendiava multidões, o Jorge que nos “roubava” um tempo tão bem ganho para falar de tudo, o Jorge que despertou mentes e interesses na área de Projeto, “ganhou” a Ciência Política como a disciplina de opção mais procurada do 12º ano, passou cinema à comunidade todas as segundas feiras; relembro o Jorge nas lutas políticas, ideológicas, o Jorge intempestivo, o Jorge dos valores democráticos, da defesa da escola pública, do combate aos exames e do acesso ao ensino superior; relembro o Jorge em tudo e mais alguma coisa; relembro o Jorge que tão bem sabia defender aquilo em que acreditava e que, nos intervalos ia fumar um cigarro; relembro o Jorge com os seus auscultadores e o seu discman, que vão perdurar como um património da escola. O Jorge, uma inspiração, um alento, uma alma irrequieta, mas sempre conscienciosa, reflexiva, crítica, combativa e … um cinéfilo sem fim…
E agora como vai ser? A escola sem o Saraiva. Nesta despedida inesperada, podemos pensar em qual vai ser o nosso próximo filme…. cairão sempre algumas lágrimas por não estares junto de nós, mas é que a roda furiosa da vida não nos permite ter-te sempre ao nosso lado. A gente não faz amigos, reconhece-os.
Aqui, agora! Jorge, estaremos sempre contigo!