13/09/2019
Novo texto: Os TPCs e a relação com a promoção da qualidade das aprendizagens em todos os alunos.
TPCS, (IM)PRESCINDÍVEIS PARA A QUALIDADE DAS APRENDIZAGENS DE TODOS OS ALUNOS?
Que escola temos e que escola queremos?
Alguns apontamentos sobre a realidade escolar portuguesa e o novo papel do professor...
No âmbito da flexibilização curricular, novos projetos e experiências pedagógicas têm, cada vez mais, se afirmado no nosso dia a dia. A partir de todas as iniciativas, destacamos o desenvolvimento de aprendizagens mais significativas; o desejo de um modelo de avaliação, de cariz formativo e voltado para a melhoria das aprendizagens; uma maior cooperação entre professores e alunos entre si; a construção de comunidades de aprendizagem, tendo em vista uma maior inclusão e aprendizagem de todos; uma gestão mais flexível do currículo, em que as várias disciplinas se “unem” em prol de temas comuns.
Tudo isto, tendo em vista o sucesso educativo, no entanto, o que se pretende, por outras palavras, é a promoção de maior qualidade das aprendizagens de todos os alunos. Pois não podemos esconder, como nos lembra Nóvoa (2019a), que existe ainda um grande número de alunos (principalmente dos meios mais desfavorecidos) que terminam os doze anos de escolaridade obrigatória com grandes debilidades do ponto de vista das aprendizagens. Aliás, apesar de algumas melhorias, é de recordar que, em 2015, mais de 30% dos alunos até aos 15 anos, já tinham repetido, pelo menos, uma vez um ano (CNE, 2017). Por outro lado, mesmo os alunos com as notas mais elevadas nos exames, continuam a revelar muitas dificuldades nas dimensões associadas a aprendizagens mais significativas, como a compreensão; a análise; a capacidade de fazer inferências e explicar fenómenos ou factos a partir das mesmas; a capacidade de síntese; ou a resolução de problemas (Sousa, 2017).
Perante esta realidade, são muitos e nobres, os desafios que se colocam ao Ministério da Educação, às escolas e aos professores. Para além do mais, na chamada era digital em que vivemos, a relação com o conhecimento “abala” a importância da escola e o papel fulcral dos professores na educação dos futuros cidadãos. Como nos chama, mais uma vez a atenção Nóvoa (2015, 2019b), num tempo em que a informação está acessível em todo o lado, mas de uma forma desorganizada, pouco fiável, o professor é insubstituível! Mais do que transmitir mais informação, tem de ajudar o aluno a transformar a informação em conhecimento, ou seja, para este investigador de referência, o que define a aprendizagem não é saber muito, mas sim compreender bem aquilo que se sabe. Para isso, é preciso desenvolver nos alunos a capacidade de estudar, de procurar, de pesquisar, de selecionar, de comunicar (literacia científica).
Sobre os “(in)evitáveis” TPCs...
Independentemente dos factos relatados e dos desafios expostos nos parágrafos anteriores, os Trabalhos para Casa “obrigatórios” continuam a ser uma presença constante (direta ou indireta) na vida de muitas pessoas. Mais ou menos questionados, será que na prática, a sua existência ainda reflete uma espécie de “acordo tácito” de aceitação entre todos (pais, professores e alunos) (Rebelo & Neto, 1999)?
Acima de qualquer tipo de dicotomia (entre os defensores e os que são contra), interessa-nos, em primeiro lugar, compreender as razões/necessidades daqueles que acham que as crianças e os jovens têm que realizar “trabalhos da escola”, fora desta. Assim, a partir do que se diz há muito entre pais, professores e ex-alunos, definimos 4 tipos de razões/necessidades:
1.ª Razão/necessidade: A falta de tempo é, sem dúvida, uma das razões que muitos apontam para a “inevitabilidade” dos trabalhos escolares se realizarem fora da sala de aula. Como exemplos disso, recordamos a extensão excessiva dos programas curriculares e as turmas com um grande número de alunos, em que os professores admitem ter dificuldades em “chegar” aos alunos que mais precisam. Muitos destes alunos, aliás, por incapacidade ou desmotivação, acabam por ter que realizar em casa, muito do trabalho que era suposto (dizemos nós) ter sido realizado na escola. Por outro lado, estes dois exemplos, a nosso ver, refletem a dificuldade que ainda um grande número de professores apresenta em aplicar a diferenciação pedagógica e estimular a participação dos alunos numa gestão cooperada do currículo.
2.ª Razão/necessidade: Adquirir “métodos de estudo” (diríamos antes, saber estudar de forma autónoma e por sua iniciativa) é também uma expressão que escutamos muito, quer enquanto alunos, quer enquanto pais, quer, até mesmo, enquanto filhos. Será que o aprender a estudar de forma autónoma, o treino e a consolidação dos saberes continuam a não ter lugar, normalmente, nas salas de aula, tal como acontecia no século XVII com os irmãos La Salle, percussores do ensino simultâneo tradicional (Pastiaux, 2001)? E, nesse sentido, estudar fora da sala de aula, é algo visto como “natural” e adquirido? Será que a extensão dos programas assim o exige e “legitima” o tempo de aula (possivelmente, excessivo) ocupado com as lições do professor? Será até que, no dizer de Meirieu (1998), os alunos vêm assistir às aulas e depois vão para casa fazer os trabalhos?
3.ª Razão/necessidade: Relacionada com os dois pontos anteriores, também é referida a importância de ter que se trabalhar/estudar muito. Tal razão, deriva da necessidade de ter que se gastar muito tempo com o estudo e a aprendizagem dos conteúdos, quase sempre com o objetivo central de serem testados em te**es, provas e exames, com cariz classificativo. Nesse sentido, será legítimo que ter que trabalhar em casa é uma necessidade inevitável para que, nem que seja, passar de ano?
4.ª Razão/necessidade: Os pais poderem acompanhar o percurso escolar dos seus filhos, assumindo-se como eventuais “parceiros” dos professores, na concretização do plano pedagógico e curricular que estes têm para a educação dos seus alunos. Por outro lado, alguns professores e pais, no âmbito de trabalhos mais “criativos” e menos “escolásticos”, propostos pelos primeiros, defendem que essas propostas podem funcionar como uma ligação mais “saudável” entre casa-escola e família-aluno, ou por outras palavras, promover uma maior “harmonia” de tempo em família. Nestas situações particulares, será que o que acontece é o escutar a “lição” de forma passiva na escola e em casa fazer-se a aplicação dos conceitos de forma ativa (Rebelo & Neto, 1999)?
Sobre a qualidade das aprendizagens de todos os alunos na escola...
Numa perspetiva de maior compreensão dos quatro tópicos atrás apresentados, a propósito do tempo dedicado ao trabalho escolar (dentro e fora da escola), é importante refletir sobre alguns estudos realizados, no âmbito dos resultados do PISA de 2015 (OECD, 2016):
- O tempo total de trabalho (estudo fora da escola + aulas na escola) dos alunos portugueses ascende aos mais elevados da UE: 45 horas semanais. Em lados opostos, na Finlândia são 36 horas, já na Itália, cerca de 50 horas;
- Os alunos portugueses investem, em média, 17 horas semanais a estudar fora da escola (TPC, explicações e estudo autónomo...). A esmagadora maioria dos países posiciona-se entre as 15 e as 18 horas semanais;
- 57% do tempo disponível nos dias úteis (excluindo as regulamentares 8 horas de sono) dedicado ao estudo. Na Finlândia 45% e em Itália 62%.
Após uma breve reflexão, parece-nos evidente, não só, o tempo “considerável” que as nossas crianças e jovens gastam com o trabalho escolar, como, visível noutro estudo, por exemplo, a alta percentagem de alunos do ensino secundário que recorrem a explicações fora do espaço escolar. Cerca de 61%, inclusive, declara ter aulas particulares de Matemática para ter boa nota no exame (CNE, 2017). O que esta realidade (a chamada “escola paralela”) nos diz, mais do que refletir o evidente insucesso da escola, é de que a necessidade de realizar o trabalho escolar fora das suas instalações poderá só estar ao alcance de alguns. Ou seja, este tipo de apoio dependerá, na grande maioria dos casos, do nível económico dos pais. Para além disso, mesmo que não frequentem este tipo de apoio, os filhos de pais com baixos níveis de escolaridade, ficarão, mais uma vez, em pé de desigualdade com as restantes crianças, já que não terão condições de apoio por parte da sua família. Portanto, nesse sentido, será que o trabalho realizado fora da escola não contribuirá para um aumento das desigualdades? Ou, por outras palavras ainda, uma escola que se deseja ao serviço de todos, pode deixar o sucesso dos seus alunos à mercê da sua história pessoal e da ajuda que os pais lhes possam dar (Meirieu, 1998)?
Sobre os professores e a sua prática pedagógica, em primeiro lugar, interessa refletir sobre o sentido de enviar os mesmos trabalhos de casa para todos os alunos, tendo em conta que pessoas diferentes, têm, obviamente, necessidades diferentes. Em segundo, será que os trabalhos enviados para casa motivam os alunos menos comprometidos (ou com mais insucesso) com a escola? Interessa realmente, mesmo que pareça uma tarefa algo utópica, compreender afinal como é que se diferenciam as aprendizagens e o ensino, combate o insucesso escolar, promovem-se aprendizagens de qualidade na escola e, sobretudo, motivam-se todos os alunos. Por outras palavras, o que se trata é de criar condições para uma verdadeira escola inclusiva, onde todos têm o direito em aprender na escola e, mais do que isso, onde se promove o gosto pelo estudo autónomo e pela aprendizagem ao longo da vida. Não se trata, afinal, de ter mais tempo de aulas, apesar das eventuais limitações que os programas demasiado extensos podem ter no trabalho do professor. Importa sim, tornar os professores mais “eficazes” com o tempo que têm. Pois, professores que já são ineficazes com uma quantidade-padrão de tempo, de acordo com alguns estudos retratados num outro outro documento publicado pelo Conselho Nacional de Educação (Rodrigues et al., 2017), gerarão o mesmo tipo de impacto nas aprendizagens dos alunos, mesmo que tenham mais tempo de aula.
Na sequência do que foi referido até agora, propomos para a mudança que se deseja, os seguintes pontos-chave:
• Instituir a DIFERENCIAÇÃO PEDAGÓGICA na sala de aula, tendo como referência 2 pressupostos: reconhecer o direito à diferença e aos ritmos diferenciados a que cada cidadão tem direito; afastar-se do modelo do ensino simultâneo tradicional, em que o professor “dá” a mesma lição e os mesmos exercícios para todos ao mesmo tempo, como se fossem apenas um (Mestre, 2019a);
• Para que a diferenciação pedagógica seja mais eficaz e produza mais resultados, interessa transformar cada turma numa COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM que agregue alunos e professor num Projeto Comum de Aprendizagem do Currículo. Ou seja, que as crianças participem ativamente na gestão cooperada das aprendizagens curriculares (planeamento e regulação/avaliação). Para tal, de acordo com uma perspetiva sociocultural, numa comunidade de aprendizagem valoriza-se a construção conjunta do conhecimento, a importância da ajuda que uns dão aos outros e o uso dialógico da linguagem oral e escrita como meio que opera a transformação dos vários intervenientes no processo de aprendizagem (Mestre, idem);
• Numa lógica de organização cooperada e de implicação de todos na apropriação do currículo (o que pressupõe que o professor, desde os primeiros dias de aulas, partilhe com os alunos o programa curricular), existem tempos de ESTUDO AUTÓNOMO (na sala de aula), guiados por um Plano Individual de Trabalho. Nestes momentos os alunos trabalham de acordo com as suas necessidades curriculares, cooperam uns com os outros e o professor apoia aqueles que revelam mais dificuldades de aprendizagem (Mestre, 2019b). Entre várias competências desenvolvidas, destacam-se: o aprender a planear; aprender a gerir o seu tempo de estudo; cumprir um plano de estudo/trabalho; assumir responsabilidades pela apropriação do currículo que é suposto aprender; pedir apoio quando necessita; apoiar um colega; decidir quais as suas prioridades; valorizar os seus erros como oportunidades de aprendizagem; autoavaliar-se e ter opinião sobre o trabalho dos colegas;
• Numa perspetiva de autorregulação das aprendizagens em cooperação, a partir do planeamento dos alunos de acordo com as suas necessidades individuais, auto e heteroavaliam-se os processos de trabalho e as produções realizadas. Entre várias vantagens, desenvolvem-se competências metacognitivas, já que tão importante quanto saber o que se aprendeu e o que falta aprender, é compreender como é que se aprendeu ou o que é que falhou para a aprendizagem não acontecer. Neste contexto, de uma forma dialógica e com um papel ativo de todos os intervenientes, a AVALIAÇÃO TEM UM CARÁCTER FORMATIVO, ocorre de forma contextualizada e com o intuito de melhorar os processos de aprendizagem e, consequentemente, as respetivas produções dos alunos. É, portanto, uma avaliação que compromete todos (alunos e professor, de uma forma cooperada) na consecução de um Projeto Comum de Aprendizagem do Currículo, ou seja, que promove a aprendizagem de todos (Mestre, 2019b);
• Num contexto em que se valoriza a APRESENTAÇÃO DAS PRODUÇÕES DAS CRIANÇAS e em que, a partir delas, CONSTROEM-SE AS APRENDIZAGENS DE UMA FORMA SIGNIFICATIVA E INTERATIVA, é importante o desenvolvimento do currículo através das seguintes atividades e estratégias: a realização e comunicação de projetos de estudo em pequeno grupo; a produção e partilha de esquemas e resumos; a escrita e revisão partilhada de textos de opinião e informativos para aprender os conteúdos das diferentes áreas disciplinares; a resolução de problemas a pares e a discussão em coletivo das estratégias utilizadas; o estudo a pares entre as crianças. Ou seja, o objetivo é que se promova uma autêntica CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO (ao invés da reprodução do conhecimento, que ilustra o paradigma da “escola do teste”).
A partir desta visão da educação e das propostas pedagógicas aqui apresentadas, ressalta-se o desenvolvimento (na escola) da participação, responsabilidade e autonomia das crianças, num clima onde se diferenciam as aprendizagens e se constroem as mesmas de forma cooperada e significativa. Numa perspetiva de uma escola para todos, defendemos que, os alunos que pretenderem, por sua iniciativa, podem realizar atividades de forma autónoma, fora da sala de aula, inscritas no seu Plano Individual de Trabalho e ou realizarem algumas pesquisas, na sequência dos Trabalhos de Projeto onde estão envolvidos (Niza, 1998). Para além da defesa de um papel diferente para os alunos e de um novo ofício para os professores, valoriza-se, sobretudo, o sentido e o gosto pela aprendizagem e pelo conhecimento. Assim, mais do que defender ou ser contra, interessa-nos desconstruir as várias razões que “legitimam” a existência dos trabalhos para casa obrigatórios.
Resta-nos, ainda sobre os pais, decorrente desta reflexão crítica e perspetiva educativa que aqui propomos, chamar a atenção para o eventual “peso” da escola que se coloca sobre eles, para além dos próprios poderem achar que o sucesso escolar se joga na quantidade de TPCs que os filhos trazem (Meirieu, 1998). Apelamos então para que todo o processo de aprendizagem dos seus filhos, decorrente do Projeto Curricular que o professor desenvolve (e que deve ser partilhado com os pais), seja o mais transparente possível e se concretize, efetivamente, na escola. Esta posição não desvaloriza o papel importante dos pais na educação dos seus filhos, mas define melhor as responsabilidades de cada um (pais, professores e alunos). Por fim, acreditamos que crianças mais confiantes, solidárias, autónomas, responsáveis, competentes e com mais gosto pelo aprender e pelo conhecimento, permitem “descansar” os pais. Já que, independentemente da escola que tiverem pela frente, há competências e comportamentos que, quando desenvolvidos na sala de aula, tenderão a “persistir” no tempo. O ser autónomo no estudo, pensamos nós, é um bom exemplo disso.
Referências bibliográficas:
Conselho Nacional de Educação. (2017). Estado da Educação 2016. Lisboa: Conselho Nacional de Educação.
Meirieu, P. (1998). Os Trabalhos de Casa. Lisboa: Editorial Presença.
Mestre, L. (2019a, 18 de janeiro). A diferenciação pedagógica na sala de aula. A Escola que nunca Tive!. Disponível em: https://www.facebook.com/notes/a-escola-que-nunca-tive/a-diferenciação-pedagógica-na-sala-de-aula/349210572476057/
Mestre, L. (2019b, 21 de junho). Aprender a avaliar, para todos aprenderem!. A Escola que nunca Tive!. Disponível em: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=423768241686956&id=307611629969285&__tn__=K-R
Niza, S. (1998). A organização social do trabalho de aprendizagem no 1.º Ciclo do Ensino Básico. Inovação, 11(I), 77-98.
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Nóvoa, A. (2019a). Prefácio. In J. Costa, & J. Couvaneiro, Conhecimentos VS Competências – Uma Dicotomia Disparatada na Educação (pp. 9-14). Lisboa: Guerra & Paz.
Nóvoa, A. (2019b, 2 de setembro). 6 perguntas a António Nóvoa. Net educação. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WqBPdjzYqXE&feature=player_embedded&fbclid=IwAR1JZen4zlqLRvRZ7Tzhdh1KKSn6Y4N6Jo0qEKU1g123cE-cFEDfEAKv74s
OECD (2016). PISA 2015 Results (Volume II): Policies and Practices for Successful Schools. Paris: OECD Publishing.
Pastiaux, G. J. (2001). Précis de pédagogie. Paris: Nathan.
Rebelo. J., & Neto, O. (1999). O sentido dos deveres para casa. Coimbra: Coimbra editores.
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