18/06/2026
PROJETO URBANO DE NASSAU
Durante o domínio neerlandês no nordeste brasileiro, a paisagem urbana da região, principalmente durante a administração de Maurício de Nassau, tornou-se foco de um ambicioso projeto urbanístico marcado por certa racionalidade que distinguia a Cidade Maurícia dos demais núcleos coloniais.
De acordo com Nóbrega e Trevisan (2025), a cidade foi planejada com uma lógica urbana clara, visível na regularidade de suas ruas, no sistema defensivo e na presença dos canais. As águas e as estruturas militares definiam os limites da cidade. Os rios ao redor e os canais internos serviam ao abastecimento, ao transporte e defesa, mas também representavam pontos de vulnerabilidade. Para proteger o território, foi organizado um conjunto articulado de fortes, solução considerada pouco comum na América colonial portuguesa.
Como observa os autores, “os canais eram o eixo regulador da distribuição de quadras na porção sul da Ilha de Antônio Vaz”. A malha urbana foi disposta de forma ortogonal, com espaços reservados para mercados. O núcleo inicial, ficava próximo ao Forte Ernesto. A expansão seguinte, chamada Nova Maurícia, ocupou a área ao sul, destinada para as camadas mais pobres e separada do núcleo original por um canal paralelo à Ponte do Recife. Esse traçado planejado contrastava com o do Recife, cujas ruas irregulares refletiam a ocupação portuguesa anterior.
Ainda de acordo com os autores, a ligação entre os dois núcleos se dava pela Ponte do Recife, construída em pedra e madeira e considerada uma das obras mais importantes do governo de Nassau. Uma segunda ponte de madeira conectava a ilha ao continente. Embora os planos iniciais previssem sua continuidade em relação à primeira, a Ponte da Boa Vista foi construída em posição diferente, ao lado do Palácio de mesmo nome.
Imagem: Johannes Vinckeboons (1616-1670).
Fonte: NÓBREGA, L.; TREVISAN, R.. Onde rios se encontram: paisagens de Maurícia e Nova Amsterdam. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, v. 33, 2025.
17/06/2026
| NOTA DE FALECIMENTO |
Faleceu na última terça-feira Carlo Ginzburg, historiador italiano reconhecido mundialmente por sua abordagem pioneira no estudo da micro-história.
16/06/2026
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Muito do trabalho realizado aqui vem da curadoria desse excelente projeto.
| FONTE |
"Epigramas americanos de Jan Bodecher Banning ao excelentíssimo e ilustre Conde I. Maurício, Conde de Nassau, Cattimeliboc e Dietzia, Senhor de Beilstein, etc., Imperador do Brasil por terra e mar."
Disponível em: https://polona2.pl/item/iani-bodecheri-banningii-epigrammata-americana-ad-excellentissimum-illustrissimumque,NzcyNTE5NjA/
15/06/2026
APETITES REBELDES
Os militares que lutaram nas guerras luso-neerlandesas no Novo Mundo eram, em ambos os partidos e em grande medida, heterogêneos. Algo, porém, que perpassava a realidade da grande maioria era a constante ameaça de desabastecimento alimentar.
Em ao menos duas ocasiões, a historiografia pôde constatar o amotinamento por parte dos militares de ambos os lados.
Bruno Miranda aponta que, no dia 19 de maio de 1636, o conselheiro político Balthasar Wijntges e o coronel Christoffel Arciszewski informaram o Conselho Político do Brasil da ameaça dos militares em operação no sul de Pernambuco de pedirem demissão caso não obtivessem melhora na ração recebida. Como medida paliativa, foram enviadas carne e toucinho aos combatentes. No entanto, o problema era crônico. Apenas um mês após o incidente, Wilhelm Schott, conselheiro político, desembolsara de seus próprios recursos o dinheiro necessário ao abastecimento das tropas, que novamente ameaçavam rebelar-se.
Evaldo Cabral de Mello, do outro lado do fronte, pontua que a falta de mantimentos nas trincheiras luso-brasileiras acarretou momentos de instabilidade entre comandantes e subordinados. As exigências eram por fardamento, espadas, pagamento dos soldos e ração completa. A situação chegou a tal ponto que o mestre de campo Francisco de Figueiroa teve de fugir das balas rasas disparadas pelos soldados. Antes de a situação tornar-se insustentável, João Fernandes Vieira interveio prometendo as remessas requisitadas. O desfecho, no entanto, não foi tão feliz. Identificados os cabeças, sete soldados foram condenados à morte.
MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada. Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630/1654. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1978.
MIRANDA, Bruno Romero Ferreira. Mantendo um exército: abastecimento de víveres durante a ocupação da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais no Brasil (1630-1654). In: LISBOA, Breno Almeida Vaz [et. al]. Essa parte tão nobre do corpo da monarquia. Poderes, negócios e sociabilidade em Pernambuco colonial. Séculos XVI-XVII. Recife: Editora da Universidade de Pernambuco, 2016.
13/06/2026
JOÃO TOUCINHO E OS “HEREGES”: A GUERRA DE APELIDOS NO BRASIL HOLANDÊS
Em tantas guerras da história, um padrão é frequente: os exércitos passam a chamar seus inimigos por apelidos, muitas vezes pejorativos. Isso faz parte de um processo psicológico de desumanização do rival, que aumenta o ódio e o desprezo, além de criar o sentimento de “nós contra eles”, tornando o conflito mais suportável.
Segundo o Diário ou Breve Discurso (texto descritivo de origem neerlandesa que reúne observações sobre a guerra e o cotidiano da colônia), “Speck-Jan”, ou “João Toucinho”, era a maneira derrisória com que os holandeses designavam os portugueses. Após a capitulação do Cabo de Santo Agostinho, o autor do Diário de Arnhem (provavelmente redigido por um soldado ou participante ligado às tropas da Companhia das Índias Ocidentais), em um trecho, cita:
“… Por porcos entendam-se os portugueses ou Speck-Jan; Santo Antônio é seu patrono, bem como dos porcos.”
Em outro trecho do Diário de Arnhem, sobre os primeiros tempos do sítio do Recife pelo exército luso-brasileiro (1645–1647), o autor anônimo cita:
“É sem dúvida lamentável trabalhar por tão longos anos em terras tão estranhas para ganhar um stuiver e, em um lance de olhos, ver tudo perdido, graças ao Sr. Speck-Jan […].”
Quanto aos portugueses, o modo mais comum de depreciar o inimigo era de cunho religioso. Termos como “hereges” eram frequentes entre as tropas luso-brasileiras para se referir aos batavos. Essas designações não eram meros insultos ocasionais, mas parte de um vocabulário recorrente nas fontes do período, revelando tensões culturais, religiosas e sociais profundamente enraizadas.
Tais expressões funcionavam como instrumentos simbólicos de guerra, reforçando identidades coletivas em confronto. Mais do que simples ofensas, esses apelidos ajudam a compreender a mentalidade dos combatentes e o clima de hostilidade que marcou a guerra no Brasil holandês.
Fontes: MELLO, E. C. O Brasil Holandês. São Paulo: Companhia das Letras, 2010; MELLO, J. A. G. Fontes para a História do Brasil Holandês. Recife: CEPE, 2004.
Imagem: “A Batalha dos Guararapes” (Álvaro Martins, séc. XX); Academia Militar das Agulhas Negras.
11/06/2026
PARAÍBA EM 1634
A Capitania da Paraíba, no século XVII, era ocupada por indígenas distribuídos em cerca de sete aldeamentos. Segundo o neerlandês Johan Nieuhof, o maior deles, Pindaúna, chegou a reunir aproximadamente 1.500 habitantes em 1634. Os demais raramente ultrapassavam 300 pessoas. Suas moradias eram longas construções coletivas, com “uma infinidade de portas, de tamanho diminuto”, abrigando diversas famílias sob o mesmo teto.
Nieuhof descreveu os habitantes locais como pessoas de “estatura avantajada”, cabelos longos e tez escura. O corpo era adornado com perfurações nas orelhas, nos lábios e no nariz, onde introduziam pedras e outros ornamentos.
A terra era abundante. A cana-de-açúcar prosperava em “terras descansadas” e, durante o domínio holandês, a Capitania possuía 21 engenhos espalhados pelas margens do rio Paraíba, responsáveis pela exportação anual de cerca de 4.000 caixas de açúcar. As várzeas eram descritas como “prodigiosamente férteis”, produzindo açúcar, batatas, abacaxis, cocos, laranjas e tudo o que fosse “necessário ao sustento do homem e dos animais”. Ao mesmo tempo, as praias ofereciam âmbar cinzento, algodão, cristal, sal e pérolas, enquanto as terras férteis sustentavam uma lucrativa produção açucareira.
A abundância de recursos naturais e a relevância econômica explicam o interesse holandês pela conquista da Paraíba. Em novembro de 1634, uma frota de 32 navios, comandada pelo coronel Schkoppe, transportou mais de 2.300 homens para ocupar a região. A expedição marcou o início de uma nova etapa na história da Paraíba, inserindo-a nas disputas entre portugueses e neerlandeses.
Imagem: Frederikstad in Paraiba - Frans Post.
Fonte: NIEUHOF, Johan. Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981.
09/06/2026
| EVENTO |
No dia 27 de junho, às 9 horas, na Praça da Praia de Suape, o Núcleo UNICAP de Estudos sobre a História do Brasil Colonial no Contexto Global promoverá a atividade “Diálogos: Obra e Autor”, com Carolina Pereira (UFPE) e Lucas Rocha (UFPE), ministrando a comunicação “Sítio Histórico e Arqueológico de Vila de Nazaré - Cabo de Santos Agostinho.
Maiores informações em
08/06/2026
CASAMENTOS INTERCONFECIONAIS 🕊️
Ao relatar em seu diário a tomada da capitania do Rio Grande, em 1634, Cuthbert Pudsey, mercenário inglês a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, tece alguns comentários sobre os habitantes do dito território, indígenas e portugueses, e as relações que em pouco tempo estabeleceram com os neerlandeses. Fala especificamente do capitão Joris Garstman, oficial responsável pela Fortaleza dos Reis Magos, e quem teria sido “o primeiro oficial a casar-se com uma portuguesa, [...] filha de um senhor de engenho de açúcar, sendo ela a herdeira de seu pai”.
À primeira vista, pode até parecer um caso isolado, mas não. Pudsey esclarece: “desde que penetramos no país, muitos se casaram com mulheres portuguesas de boa cepa e qualidade, tais como o Coronel [Charles de] Tourlon, o Capitão [Frederick] Mettinge e muitos mais. E hoje em dia”, no início da década de 1640, “mais e mais se casam”.
Para além das uniões heterodoxas e “amancebamentos”, esses casamentos, celebrados por ritos considerados legítimos no período, fossem católicos ou protestantes, compõem um dos pontos mais interessantes de uma coexistência não belicosa entre lusos e neerlandeses que se detectou no Brasil entre as décadas de 1630 e 1640.
Envolveram cônjuges de confissões distintas, em uniões para as quais um deles se converteu à religião do outro; eram enlaces relativ mente triviais, mas alarmantes para padres como Manuel Calado e para os ministros da Igreja Reformada; e foram protagonizados também por nomes notórios, como D. Ana Paes – e seus dois matrimônios com protestantes, incluindo com De Tourlon – e Gaspar van der Ley.
O historiador Gabriel Ferreira Gurian se debruça sobre esse e outros tópicos em ‘Do conflito e do convívio: as ocupações holandesas no Brasil e em Angola sob a perspectiva lusa (1624-1680)’, livro que acaba de sair pela e que contará com um evento de lançamento em São Paulo-SP () na próxima quarta-feira, dia 10/06.
PUDSEY, C. Diário de uma estada no Brasil (1629-1640). Petrópolis: Index, 2000.
GURIAN, G. F. Do conflito e do convívio. Recife: CEPE, 2025.
07/06/2026
| FONTE |
PISO, Guilherme. História natural e médica da Índia Ocidental em cinco livros. Tradução e notas de Mário Lobô Leal; revisão de Felisberto Carneiro e Eduardo Rodrigues; esboço bibliográfico de José Honório Rodrigues. Rio de Janeiro: Ministério da Educação, Instituto Nacional do Livro, 1957.
06/06/2026
IPOJUCA, 1645: PRIMEIRO PALCO DA INSURREIÇÃO PERNAMBUCANA
Em junho de 1645, a conspiração contra o domínio holandês em Pernambuco encontrava-se em momento decisivo. As autoridades da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais (WIC) já haviam recebido notícias suspeitas sobre articulações entre lideranças luso-brasileiras. Pierre Moreau relata que, diante desses avisos, foram reforçadas as guarnições da Paraíba e do Rio Grande. Segundo o cronista, “os portugueses, tendo sabido que a sua empresa sobre Recife, Paraíba e Rio Grande estava descoberta, entraram em desespero”, enquanto seus chefes aguardavam a chegada de reforços comandados por Filipe Camarão e Henrique Dias.
Foi nesse contexto que Ipojuca entrou para a história. Moreau registra que “o lugar em que estes portugueses se sublevaram primeiramente e espalharam sangue foi na povoação de Ipojuca”, situada a seis léguas do Recife e a uma légua do Cabo de Santo Agostinho. Em 20 de junho de 1645, com a população reunida na praça, um jovem judeu foi acusado de divulgar informações sobre os preparativos da revolta. Percebendo o perigo, fugiu sem responder às provocações, perseguido por gritos de “Viva o Rei de Portugal”. Os soldados de um reduto próximo, que observavam a cena, retiraram-se com ele para o Cabo Santo Agostinho.
A partir desse instante, a rebelião tornou-se aberta. Os moradores pegaram em armas e marcharam pelos campos sob o comando de Amador de Araújo. A primeira ação dos insurgentes foi capturar uma embarcação e matar sete marinheiros holandeses recém-chegados. Em seguida, três judeus que viviam na povoação negociando mercadorias foram apunhalados. Os revoltosos ergueram ainda “diversas forcas e cadafalsos” destinados à execução daqueles que recusassem servir ao rei de Portugal.
A reação holandesa foi imediata. O Conselho da WIC no Recife nomeou o tenente-coronel Hendrick Haus comandante de uma força de 500 homens enviada para sufocar o levante. Assim, antes mesmo das grandes batalhas da restauração, Ipojuca tornou-se o cenário onde a conspiração deixou de ser segredo e assumiu a forma concreta da guerra.
Fonte: MOREAU, Pierre; BARO, Roulox. História das últimas lutas no Brasil entre holandeses e portugueses e relação da viagem ao país dos tapuias. São Paulo: EDUSP; Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1979.
Imagem: “Vila de Ipojuca” (Frans Post, ca. 1670-80); 55 x 66 cm; óleo sobre madeira assinado pelo artista na parte inferior; acervo do Siegerlandmuseum, Siegen, Alemanha (1934). Localidade da pintura atribuída por E. Larsen (1962) & J. de Sousa-Leão (1973).