21/03/2026
Desde 2016 que caminho com o Ritual do Útero. Ao longo destes anos, muitas mulheres, e também alguns homens, passaram por este espaço. Cada círculo é diferente, não pelo que é feito, mas pelo que se abre. Há sempre algo único que emerge quando alguém se permite realmente estar.
É um ritual simples. E talvez seja precisamente isso que o torna tão profundo. Não exige complexidade, mas presença. Trabalha em camadas que nem sempre são visíveis de imediato; memórias guardadas no corpo, emoções antigas, histórias que não começaram em nós, mas que continuam a viver através de nós.
Há algo que se vai tornando claro com o tempo: quando uma pessoa se olha com verdade e decide não repetir o mesmo padrão, algo na linhagem muda. Não de forma mágica ou instantânea, mas real. Pequena, às vezes silenciosa, mas real.
Tenho tido o privilégio de testemunhar alguns desses movimentos. Não como resultados garantidos, mas como processos. Corpos que aliviam, ciclos que se regulam, relações que encontram outro lugar. Pessoas que começam a escutar-se de forma diferente e, a partir daí, fazem escolhas mais alinhadas. E, muitas vezes, nasce também uma força nova, uma vitalidade mais presente, uma criatividade que deixa de estar bloqueada e começa a ganhar forma.
Houve histórias que me tocaram de forma especial. Uma delas foi a de uma mulher que desejava muito ser mãe e que engravidou pouco tempo depois de receber o Ritual. Não olho para isso como uma fórmula ou promessa, mas como um sinal do que pode acontecer quando o corpo deixa de estar em contração e passa a sentir-se em segurança para criar.
Com o tempo, fui percebendo que o Ritual, por si só, não faz o caminho. Ele abre uma porta. O que acontece depois depende da forma como cada pessoa escolhe atravessá-la. É um convite à responsabilidade, à escuta e à continuidade.
No fundo, esta partilha nasce de uma certeza simples: há uma inteligência no corpo que muitas vezes foi ignorada. E quando voltamos a esse lugar com respeito e presença algo se reorganiza. O útero deixa de ser um espaço onde se acumulam medos ou dores antigas e passa a ser reconhecido como um centro de criação, de vida, de direção.
Helena Pereira