12/12/2023
Eu estava caminhando pelas ruas sem nenhum destino, exatamente como sempre faço na Índia, pois não me importa o destino, mas sim a jornada. Eu já sentia um pouco de tristeza, porque em dois dias eu deixaria a Índia e essa era a "caminhada da despedida", embora parte de mim sentisse muita saudade de casa, do ar puro, da limpeza e organização da Ilha da Madeira e, sobretudo, do silêncio.
De repente, me deparei com uma lojinha/atelier, com alguns visitantes lá dentro. Me senti atraída por algumas das imagens que vi expostas do lado de fora e lá dentro, mas passei direto. Caminhei pelos becos da cidade até chegar à um templo lindíssimo e ali fiquei por algum tempo, sentada, fazendo das minhas atividades favoritas na Índia: observar as pessoas e o movimento do local e notar como o ritmo de vida é tão diferente do compasso ocidental. Ao voltar, meio sem noção de por onde eu havia passado, pois os becos são quase um labirinto, me deparei com a mesma lojinha. Como dessa vez eu vinha em outra direção, avistei a pintura de uma linda flor de lótus pendurada em uma das paredes lá dentro e atraída por essa pintura, resolvi entrar. Como na maioria das lojas que mantêm a tradição indiana viva, os sapatos são deixados à porta e entramos descalços. Logo à entrada, estava sentado no chão sobre uma almofada, o pintor de todas aquelas obras maravilhosas, pintando uma aquarela em uma mesa de madeira bem baixinha; ele parecia bem compenetrado, notei os movimentos bem suaves com o pincel e fiz o possível para não incomodá-lo. Logo em seguida, ele se levantou e se aproximou de mim justamente enquanto eu estava maravilhada com uma de suas pinturas, ele então buscou uma lupa e me mostrou os detalhes até então imperceptíveis à olhos nús. Ele era um pintor de miniaturas, o que é um estilo de pintura muito antigo na Índia. Mantivemos o silêncio por mais alguns instantes e continuei apreciando tudo. Ele tinha cabelos cacheados, olhos grandes, pele morena e emanava uma energia maravilhosa! Em seguida, avistei outra pintura lindíssima, onde um homem carregava nos braços uma ave enorme que não tinha olhos; os detalhes das pinturas eram maravilhosos! Ele então muito sutilmente me perguntou em tom quase inaudível: você pratica meditação? Respondi que sim com um sorriso. Ele sorriu e disse: “eu tinha certeza disso!”. Então se apresentou e perguntou o meu nome. Tinha um olhar muito doce e um sorriso muito franco! Continuamos vendo as obras dele, que eram gentilmente explicadas uma a uma por ele, no mesmo tom de voz bem baixinho, quase sussurrado. Por alguns instantes, parece que eu havia entrado em outro mundo, silencioso e belo, todos os ruídos da Índia haviam desaparecido e o quanto mais baixinho ele falava, mais eu o escutava melhor. Parei diante de uma linda pintura de uma árvore, feita em um papel antigo onde uma carta havia sido escrita em árabe, notei que haviam alguns números ao redor da árvore. Perguntei: “1500…??” Ele respondeu: “é o numero de folhas da árvore que pintei”. Os pormenores eram incrivelmente belos! Ele então me ofereceu um xícara de chá e nos sentamos no chão enquanto saboreávamos o chá que era delicioso, conversamos sobre meditação, artes, beleza e as exposições que ele fez pela Europa. Me contou também que era professor, havia estudado Letras e tinha um Mestrado em Sânscrito, mas que felizmente agora podia dedicar o seu tempo à pintura e a venda das mesmas naquele espaço.
Ele me convidou para voltar lá no dia seguinte, mas infelizmente eu já estava de partida. Nos levantamos e nos demos um carinhoso e longo abraço, depois ficamos segurando na mão um do outro e nos olhamos com muito carinho, naquilo que parecia um reencontro e não uma despedida!
Esses momentos mágicos sempre acontecem comigo na Índia!
Desde que voltei, as vezes eu me lembro deste pintor e penso qual será a sua nova pintura; penso também na coragem de quem ainda se dedica à arte e ao ao exercício de fazer o que se ama; como como isso é importante! Também penso no quão importante é andar por aí… reparando nos detalhes, sem ter o telefone ligado, sem internet e acima de tudo, com o coração aberto aos encontros e reencontros da(s) vida(s). Essa não foi uma caminhada de despedida.
Muitos dos meus amigos me escrevem mensagens comentando sobre a vontade que sentem de viajar e do medo que sentem de fazerem isso sozinhos! Muitas pessoas dizem que sonham em conhecer a Índia mas sentem medo dos choques culturais. Não esperem muito meus queridos, porque a vida passa muito rápido; muito mesmo!
A imagem criei aqui agora, é meramente ilustrativa.
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