14/07/2020
É normal duvidarmos das nossas capacidades e, se por um lado, duvidar nos ajuda a perceber em que aspetos podemos melhorar, por outro, se nos deixarmos f**ar apenas pela dúvida acabamos por nos deixar levar por um padrão de pensamentos e respetiva voz autocrítica que pode deter-nos. Por vezes essa voz é demasiado dura tornando-se uma verdadeira sabotadora do nosso bem-estar emocional, relacional e físico. Autocríticas centradas no erro e no fracasso, tem o poder de ativar em nós o sistema nervoso simpático (responsável pela ativação dos nossos orgãos quando temos que reagir perante uma ameaça) e consequentemente elevam, também, a produção de hormonas do stress. O nosso corpo reage aos nossos ataques da mesma forma que reage aos ataques das outras pessoas. Por isso, quando somos muito duros connosco somos, literalmente, uma ameaça a nós mesmos! Daqui podemos depreender que será mais vantajoso para nós que a nossa voz interior seja positiva, centrada na aprendizagem, no crescimento e na empatia. Falarmos connosco de forma positiva, agradável, como fazemos com alguém de quem gostamos muito, dá-nos alento, apazigua o desconforto emocional e alimenta a nossa resiliência e perseverança. Dizer para nós mesmos várias frases positivas como “aceito-me tal como sou”; “Sou competente em... e...” “Perdoo-me por ter errado”; “Da próxima vez vou saber fazer melhor”, entre outras, ajuda na construção desse discurso interno positivo e no desenvolvimento de uma mentalidade de crescimento* fazendo-nos sentir melhor mas, muitas vezes, é insuficiente para alcançar a mudança desejada e poderá até estar a camuflar uma mentira se não formos ao cerne da questão: “nós”; os nossos valores, crenças, forças e fraquezas. Quando reconhecemos as nossas forças e aceitamos as nossas limitações, estamos, então, capazes de começar a ouvir a nossa voz interior no seu tom crítico e acusador, sem nos identif**armos com ela. Quando nos permitimos aceitar como somos, libertamo-nos das amarras da auto-crítica, f**amos menos dependentes das opiniões dos outros e menos receosos delas, também. Estamos, então, preparados para substituir o discurso do “deita-abaixo” pelo discurso da auto-compaixão, pelo discurso da auto-motivação e superação pessoal. Passamos a encarar os julgamentos dos outros “apenas” como opiniões dessas pessoas (também elas filtradas pelas suas próprias auto-críticas e limitações) as quais, eventualmente, poderão ser encaradas e usadas por nós como sugestões para o nosso processo de melhoria contínua se acharmos que se enquadram no nosso propósito. É quando reconhecemos e abraçamos os nossos limites (sejam eles quais forem) que o nosso processo de libertação e superação começa. Sem o reconhecimento e aceitação de que possuímos limitações (físicas, emocionais, intelectuais) dificilmente poderemos traçar objetivos reais de desenvolvimento e harmonia emocional, pois andaremos sempre escondidos em desculpas, processos de culpabilização e de julgamento perante nós e perante os outros. Aceitarmo-nos como somos tem, ainda, o poder de nos libertarmos da necessidade de criticar os outros!
Este processo de reconhecimento pode trazer dor e desconforto pelo que, igualmente, aqui entram o poder do discurso interno positivo que nos leva a aceitar que também somos feitos de conquistas, possuímos forças (que, muitas vezes, não valorizamos), que possuímos imaginação e poder sobre os nossos pensamentos. Que podemos inspirar-nos nos outros para nos superarmos reconhecendo sempre que “receita” de superação implica adequações à “nossa” matéria prima! Que o sucesso pessoal tem como base o esforço e dedicação e que a principal medida de comparação é connosco mesmo.
* mentalidade de crescimento é um conceito criado pela psicóloga Carol Dweck. Baseia-se na convicção de as nossas capacidades não são fixas e que podemos melhorá-las com prática e dedicação. A atitude otimista está subjacente a todo o processo de progressão individual. O erro também faz parte desse percurso mas é encarado como aprendizagem e motivação de melhoria contínua.