03/08/2026
CALOR EXTREMO NO TRABALHO: PREVENIR É PROTEGER
Orientações para o Local de Trabalho
CONTEXTO
Nas últimas décadas temos vindo a verificar um aumento significativo das temperaturas médias globais, tornando os períodos de calor extremo mais frequentes, intensos e prolongados. Este fenómeno, associado às alterações climáticas, tem provocado novos desafios nos locais de trabalho.
Os trabalhadores e trabalhadoras que desempenham funções no exterior ou em locais com elevadas fontes de calor encontram-se particularmente expostos a condições que podem comprometer a sua Saúde e Segurança.
A exposição prolongada a temperaturas elevadas pode dificultar a capacidade do organismo em regular a sua temperatura, levando ao aparecimento de problemas como desidratação, fadiga, tonturas, exaustão pelo calor e, em situações mais graves, golpe de calor que pode conduzir à morte.
Para além dos efeitos na saúde dos trabalhadores, o calor excessivo pode também afetar o desempenho profissional, reduzindo a concentração, aumentando a probabilidade de erros e contribuindo para o aumento do risco de acidentes de trabalho.
Neste contexto, a exposição ao calor excessivo constitui um importante risco profissional que deve ser identificado e prevenido pelas organizações.
A adoção de medidas de proteção, como a adaptação dos horários de trabalho, a criação de períodos de descanso, a disponibilização de água e a melhoria das condições dos locais de trabalho, é essencial para garantir a segurança e o bem-estar dos trabalhadores.
1 - Quem pode ser afetado
Os trabalhadores de praticamente todos os setores podem ser afetados pelo aumento da temperatura ambiente. No entanto, os grupos que atualmente suscitam maior preocupação são os trabalhadores ao ar livre nos setores da agricultura, silvicultura e construção, bem como os profissionais de primeira intervenção e os profissionais de saúde.
Os trabalhadores em ambientes interiores também podem estar em risco, especialmente aqueles que trabalham em indústrias com elevada produção de calor ou que desempenham atividades fisicamente exigentes.
1.1 - Trabalhadores ao ar livre
Os setores em que os trabalhadores estão mais sujeitos a realizar trabalho físico intenso sob exposição direta ao sol e ao calor incluem:
Agricultura;
Silvicultura;
Manutenção de espaços públicos;
Reparação e manutenção de estradas;
Pescas;
Construção civil;
Mineração e exploração de pedreiras;
Transportes;
Recolha de resíduos;
Serviços de manutenção.
Os profissionais de emergência, como bombeiros, agentes da polícia, militares, profissionais dos serviços médicos de emergência e equipas de salvamento, também podem ser afetados, por exemplo, durante catástrofes naturais ou incêndios florestais.
Durante fenómenos meteorológicos extremos ou desastres naturais, estes profissionais têm frequentemente de trabalhar no limite da sua capacidade, utilizando vestuário ou equipamentos de proteção individual, o que pode aumentar significativamente a carga física e mental.
1.2 - Trabalhadores em ambientes interiores
Os trabalhadores em ambientes interiores também estão sujeitos ao risco de stress térmico, que pode agravar-se durante as ondas de calor, especialmente aqueles que trabalham em:
Edifícios com climatização insuficiente;
Máquinas com cabina sem sistemas de arrefecimento (por exemplo, gruas);
Ambientes industriais com elevada produção de calor;
Atividades fisicamente exigentes;
Ou que necessitam de utilizar equipamentos de proteção individual em condições de calor.
Entre as profissões e setores de maior risco incluem-se:
Trabalhadores da pecuária e horticultura;
Setores da eletricidade, gás, água e indústria transformadora;
Fundições e instalações de fusão de metais;
Siderurgias;
Fábricas de vidro e de borracha;
Túneis de ar comprimido;
Centrais elétricas;
Fábricas de tijolos e de cerâmica;
Salas de caldeiras;
Fundições e fornos industriais, onde materiais extremamente quentes ou fundidos constituem a principal fonte de calor;
Lavandarias;
Cozinhas de restaurantes;
Padarias;
Fábricas de conservas;
Profissionais de limpeza;
Trabalhadores da restauração;
Trabalhadores de armazém.
2 - Stress térmico – Doenças relacionadas com o calor
O stress térmico ocorre quando o organismo deixa de conseguir manter a temperatura corporal dentro dos valores normais devido à exposição prolongada ao calor, especialmente quando há temperaturas elevadas, humidade, esforço físico intenso e pouca hidratação.
O corpo humano requer uma temperatura constante de aproximadamente 37º C. Se o corpo tiver de se esforçar demasiado para se manter fresco ou começar a sobreaquecer, o trabalhador pode desenvolver doenças relacionadas com o calor.
Se não for tratado, pode evoluir para doenças graves relacionadas com o calor, podendo ocasionar a morte.
2.1 - Golpe de calor
O golpe de calor é a forma mais grave de doença relacionada com o calor e constitui uma emergência médica.
A presença ou ausência de suor não é um indicador fiável da gravidade da situação, uma vez que existem dois tipos de golpe de calor:
Golpe de calor não relacionado com esforço – geralmente ocorre em crianças, idosos e pessoas com doenças crónicas. Nestes casos existe pouca ou nenhuma transpiração.
Golpe de calor por esforço – ocorre durante atividade física intensa ou trabalho pesado. A temperatura corporal aumenta rapidamente e a transpiração normalmente está presente.
O golpe de calor ocorre quando o organismo deixa de conseguir controlar a sua temperatura.
Nestas circunstâncias:
A temperatura corporal aumenta rapidamente;
O mecanismo de transpiração deixa de funcionar eficazmente;
O corpo perde a capacidade de arrefecer.
A temperatura corporal pode atingir 40 °C ou mais em apenas 10 a 15 minutos.
Sem tratamento imediato, o golpe de calor pode provocar incapacidade permanente ou mesmo a morte.
2.1.1 - Sintomas do golpe de calor
Confusão;
Alteração do estado mental;
Fala arrastada;
Comportamento irracional;
Perda parcial ou total da consciência (coma);
Pele quente e seca ou transpiração abundante;
Convulsões;
Temperatura corporal muito elevada;
Morte, caso o tratamento seja atrasado.
2.1.2 - Primeiros socorros em caso de golpe de calor
Perante um trabalhador com suspeita de golpe de calor, deve proceder-se da seguinte forma:
- Ligar imediatamente para o 112 e solicitar assistência médica urgente.
- Permanecer junto do trabalhador até à chegada dos serviços de emergência.
- Levar a vítima para um local fresco e à sombra.
- Remover a roupa exterior ou desnecessária.
- Arrefecer rapidamente o trabalhador através de uma ou mais das seguintes medidas:
Colocar a vítima numa banheira com água fria ou gelo, sempre que possível;
Molhar a pele com água fresca;
Aplicar toalhas húmidas frias ou gelo na cabeça, pescoço, axilas e virilhas;
Molhar a roupa com água fria;
Aumentar a circulação de ar à volta da vítima (por exemplo, utilizando uma ventoinha);
Não obrigar a pessoa a beber líquidos, sobretudo se estiver confusa ou inconsciente.
2.2 - Exaustão pelo calor
A exaustão pelo calor é a resposta do organismo à perda excessiva de água e sais minerais, geralmente causada por transpiração intensa. Se não for tratada, pode evoluir para um golpe de calor.
Os grupos mais suscetíveis incluem:
Pessoas idosas;
Pessoas com hipertensão arterial;
Trabalhadores expostos a ambientes quentes.
2.2.1 - Sinais e sintomas da exaustão pelo calor
Dor de cabeça;
Náuseas;
Tonturas;
Fraqueza;
Alterações da visão;
Irritabilidade;
Sede intensa;
Transpiração abundante;
Formigueiro e dormência nas extremidades após exposição ao calor;
Cãibras musculares;
Falta de ar;
Palpitações;
Aumento da temperatura corporal;
Diminuição da produção de urina;
Pele pálida, fria e húmida.
2.2.2 - Primeiros socorros em caso de exaustão pelo calor
Em caso de exaustão pelo calor, deve proceder-se da seguinte forma:
Procurar assistência médica, encaminhando o trabalhador para um centro de saúde ou serviço de urgência para avaliação e tratamento;
Ligar para o 112 se não houver acesso imediato a cuidados médicos;
Não deixar o trabalhador sozinho; deve permanecer acompanhado até à chegada de ajuda;
Retirar o trabalhador da zona quente e incentivá-lo a beber líquidos, preferencialmente pequenos goles frequentes de água fresca;
Remover roupa desnecessária, incluindo sapatos e meias;
Arrefecer o trabalhador com compressas frias ou lavando a cabeça, o rosto e o pescoço com água fria.
2.3 - Rabdomiólise
A rabdomiólise é uma condição médica associada ao stress térmico e ao esforço físico prolongado.
Carateriza-se pela destruição rápida das fibras musculares. Quando o tecido muscular se degrada, são libertados para a corrente sanguínea eletrólitos e proteínas de grande dimensão, podendo provocar:
Alterações do ritmo cardíaco;
Convulsões;
Lesões renais.
Embora possa ocorrer sem sintomas, os sinais mais frequentes incluem:
Dores ou cãibras musculares;
Urina anormalmente escura (cor de chá ou de cola);
Fraqueza;
Intolerância ao exercício físico.
2.3.1 - Primeiros socorros em caso de rabdomiólise
Um trabalhador com suspeita de rabdomiólise deve:
Interromper imediatamente a atividade;
Aumentar a ingestão de líquidos (preferencialmente água);
Procurar assistência médica urgente na unidade de saúde mais próxima;
Solicitar avaliação para rabdomiólise.
2.4 - Síncope por calor
A síncope por calor corresponde a um episódio de desmaio ou tontura provocado por uma diminuição temporária do fluxo sanguíneo para o cérebro.
Ocorre normalmente quando uma pessoa permanece muito tempo em pé ou se levanta subitamente após estar sentada ou deitada.
As principais causas incluem:
Perda de líquidos através da transpiração;
Diminuição da pressão arterial devido à acumulação de sangue nas pernas.
A desidratação e a falta de aclimatização ao calor aumentam o risco.
2.4.1 - Sintomas da síncope por calor
Desmaio de curta duração;
Tonturas;
Sensação de desfalecimento.
2.4.2 - Primeiros socorros em caso de síncope por calor
A recuperação costuma ser rápida após repouso num local fresco.
O trabalhador deve:
Sentar-se ou deitar-se num local fresco;
Beber lentamente água.
2.5 - Cãibras provocadas pelo calor
As cãibras por calor são dores musculares intensas que podem surgir isoladamente ou associadas a outras doenças relacionadas com o calor.
Afetam sobretudo trabalhadores que transpiram abundantemente durante atividades físicas intensas.
Resultam de um desequilíbrio dos sais minerais provocado pela transpiração excessiva, que reduz os níveis de sal e água no organismo.
O trabalhador deve deslocar-se para um local mais fresco e iniciar hidratação.
2.5.1 - Sintomas das cãibras provocadas pelo calor
Cãibras musculares;
Dor;
Espasmos musculares no abdómen, braços ou pernas.
2.5.2 - Primeiros socorros em caso de cãibras por calor
O trabalhador deve:
Beber água;
Ingerir um snack ou uma bebida que reponha hidratos de carbono e eletrólitos (como uma bebida isotónica), aproximadamente a cada 15 a 20 minutos.
Procurar assistência médica se:
O trabalhador tiver problemas cardíacos;
Estiver sujeito a uma dieta com restrição de sódio;
As cãibras persistirem durante mais de uma hora.
2.6 - Edema provocado pelo calor
O edema por calor consiste num inchaço que ocorre frequentemente em pessoas ainda não aclimatizadas ao trabalho em ambientes quentes.
O inchaço manifesta-se mais frequentemente nos tornozelos.
2.6.1 - Primeiros socorros em caso de edema por calor
Quando o edema é provocado pelo calor, recomenda-se:
Elevar os pés sempre que possível;
Evitar a exposição ao calor e fazer pausas em locais frescos ou climatizados;
Beber quantidades suficientes de água;
Utilizar meias de compressão ou meias de suporte para reduzir a acumulação de líquidos nos pés e tornozelos.
3 - Stress térmico – Medidas e Recomendações
3.1 - Avaliação dos riscos no local de trabalho
Sempre que exista possibilidade de ocorrência de stress térmico, o empregador deve proceder à avaliação dos riscos para os trabalhadores.
Na avaliação devem ser considerados:
As exigências e o ritmo de trabalho, uma vez que quanto maior o esforço físico, maior será a produção de calor pelo organismo;
O ambiente de trabalho, incluindo temperatura do ar, humidade, circulação do ar e proximidade de fontes de calor;
O vestuário de trabalho e os equipamentos de proteção individual (EPI), que podem dificultar a transpiração e outros mecanismos naturais de regulação da temperatura corporal;
As caraterísticas individuais dos trabalhadores, como idade, constituição física e fatores médicos (por exemplo, doenças pré-existentes) que podem influenciar a tolerância ao calor.
Notas:
- O primeiro passo deve ser ouvir os trabalhadores e os seus Representantes em matéria de Segurança e Saúde;
- Sempre que necessário, deve ser solicitado apoio de profissionais especializados em saúde ocupacional;
- A avaliação do risco de stress térmico deve integrar a avaliação global de riscos do local de trabalho e considerar igualmente os riscos decorrentes das próprias medidas preventivas adotadas.
4 - Medidas técnicas
As medidas podem incluir:
Adaptar os processos de trabalho para reduzir a libertação de calor;
Instalar barreiras ou proteções refletoras ou absorventes de calor;
Isolar ou enclausurar processos, equipamentos ou instalações que produzam calor;
Isolar superfícies quentes ou revesti-las com materiais de baixa emissividade, como alumínio ou tintas especiais, para reduzir a radiação térmica;
Reduzir a radiação térmica permitindo o arrefecimento dos equipamentos antes da sua utilização;
Utilizar veículos com cabinas fechadas e climatizadas (por exemplo, tratores, camiões, carregadoras ou gruas);
Reduzir a humidade, eliminando pisos molhados, banhos de água quente, fugas de v***r e drenagens inadequadas;
Remover ar quente ou v***r através de sistemas de extração localizada;
Monitorizar continuamente a temperatura;
Instalar sombras para reduzir a exposição direta ao sol, utilizando estores, coberturas ou películas refletoras nas janelas;
utilizar superfícies não refletoras para minimizar a reflexão da radiação ultravioleta;
Instalar sistemas de ar condicionado, ventilação adequada e desumidificação;
implementar soluções sustentáveis de arrefecimento;
disponibilizar áreas de descanso frescas, climatizadas ou sombreadas próximas do local de trabalho;
Utilizar ventiladores de mesa ou teto;
Aumentar a circulação do ar através de ventiladores, janelas ou aberturas, especialmente em ambientes húmidos;
Garantir que as janelas possam ser abertas sem comprometer os sistemas de ventilação técnica existentes;
Posicionar os postos de trabalho afastados da luz solar direta e de outras fontes de calor.
5 - Medidas organizacionais
Quando as medidas técnicas não forem suficientes ou não puderem ser implementadas, devem ser adotadas medidas organizacionais, nomeadamente:
Limitar o tempo de permanência em ambientes quentes;
Aumentar o tempo de recuperação em locais frescos;
Incentivar os trabalhadores a ajustar o ritmo de trabalho;
Implementar rotação de tarefas;
Transferir trabalhadores para zonas mais frescas, sempre que possível;
Garantir pausas suficientes para hidratação e arrefecimento;
Estabelecer pausas adicionais em função da temperatura;
Ajustar metas e ritmos de produção para reduzir o esforço físico;
Flexibilizar os códigos de vestuário, permitindo roupa mais leve e respirável;
Adaptar os horários para evitar os períodos de maior calor e radiação UV;
Planear as tarefas fisicamente exigentes para as primeiras horas da manhã ou final da tarde;
Reduzir as exigências físicas das tarefas;
Reorganizar o trabalho para minimizar atividades pesadas, como subir e descer escadas repetidamente;
Aumentar o número de trabalhadores por tarefa;
Evitar o trabalho isolado ou assegurar sistemas de vigilância e comunicação eficazes.
Esta publicação insere-se no âmbito CAMPANHA sobre o Impacto das Alterações Climáticas na Segurança e Saúde dos Trabalhadores, desenvolvida pelo Departamento de SST da UGT.
Foi elaborada tendo por referência os conteúdos da seguinte da EU-OSHA:
"Temperatura Elevadas - Orientações para os locais de trabalho
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