20/12/2024
E Agora, Onde Vamos? (Ou Halla La Weyn? / Et maintenant on va où?, 2011) de Nadine Labaki, retrata as (des)aventuras de uma aldeia remota e assolada pela guerra onde uma mesquita e uma igreja se erguem lado a lado e o cemitério local é separado em dois lotes por uma estrada de terra batida: um muçulmano, outro cristão. Labaki conta-nos a história de um grupo de mulheres dispostas a ir até às mais extraordinárias instâncias (por vezes blasfemas) a fim de impedir a eclosão de violência armada entre os seus homens.
Nesta aldeia, a ligação ao mundo exterior é estabelecida por uma ponte — pouco mais que uma ruína — que atravessa um desfiladeiro vertiginoso, cuja missão de percorrer diariamente, com intuito de assegurar os bens essenciais dos seus habitantes, recai sobre dois adolescentes e um motociclo. Esta linha de vida precária, simultaneamente estrutura literal e simbólica, reflete a natureza vulnerável e ténue da paz e dos laços que sustentam a união da aldeia. À sua semelhança, a comunidade paira à beira do abismo.
À semelhança de Takla (Claude Baz Moussawbaa), a lojista que numa sequência observamos enquanto cola uma imagem danificada da Virgem — e que “apesar de tudo continua linda” aos seus olhos —, as matriarcas desta comunidade penam-se por salvaguardar o que lhes é mais precioso: os seus homens (os seus filhos, os seus maridos, os seus vizinhos), a sua comunidade e a sua aldeia por qualquer meio necessário. Perante a tragédia que a acomete, Takla escolhe carregar silenciosamente o seu fardo, sacrificando o seu luto pessoal, entendendo assim poder travar o derrame de sangue vizinho.
A temática do sacrifício, da abnegação, é central aos seus esforços, sendo indestrinçável quer das instâncias a que são levadas no empreendimento de proteger a sua paz precária, quer do vínculo empático que partilham enquanto mães. Esta forma de solidariedade radical, cujos alicerces se acham numa experiência coletiva da perda, apresenta-se como mote da nossa meditação sobre o possível, e potencial, lastro das suas consequências extradiegéticas.
Nadine Labaki explora de que modo o bem-estar entre os homens é ameaçado não pelo fervor religioso dos seus habitantes e tampouco por incitamento das autoridades religiosas que por si zelam, mas pelas notícias do irromper de violência em outras partes — o ensaio da paz é de tal forma ténue que qualquer grão de arroz parece poder tombar a balança, movendo os ânimos em sentidos contrários à sua manutenção.
A realizadora predica sobre a problemática todo-pervasiva da fragilidade humana, do medo e da naturalização da desconfiança do Outro — mesmo aquele que nos é vizinho e irmão — tornando manifesta a garra inexorável dos ciclos viciosos de violência a que nos acostumamos. Como veremos, o desfecho possível é, e simultaneamente não é, de natureza religiosa — e, contudo, Labaki engenhosamente relembra-nos que a religião, e, mais precisamente, o diálogo inter-religioso, pode ser o veículo através do qual se move a mudança.
E Agora, Onde Vamos? apresenta-nos uma abordagem inusitada ao engenho fílmico – um híbrido que vive entre a comédia e o drama, pontuado por números musicais, recusando comprometer-se pacificamente com categorizações simples. O manifesto tom cómico do filme e a forma como este anda de mãos dadas com a tragédia na poética que a realizadora faz da vida quotidiana – no seu representar a quase-mundanidade da guerra, da morte e da sua parafernália – laboram no sentido de evidenciar tanto a complexidade como o absurdo da vida sob tais circunstâncias.
Labaki convida-nos, espectadores, a reconhecer quer o sofrimento civil quer a sua participação ativa no sectarismo e belicismo por via das suas, aparentemente inconsequentes, reações diárias face a um percecionado “Outro” ameaçador — que os próprios constroem, alimentando-se de, e alimentando o, preconceito e o medo.
A realizadora afirma amiúde a sua convicção no poder transformador do cinema, incidindo sobre a sua capacidade de promover a autorreflexão e diálogo entre os espectadores na mesma medida em que os interpela afetivamente. Neste sentido, torna-se pertinente fazer eco das suas palavras: “o filme representa mais do que um exorcismo terapêutico, […] transcende o domínio da memória pessoal em virtude da sua vida pública enquanto artefacto cultural”.
Esta consciência do poder e impacto dos media na fervura ou rescaldo dos ânimos encontra paralelos na obra em si. Em diversas instâncias a rádio, a televisão e os jornais aparentam ameaçar a precária paz vivida na aldeia. O seu poder é dual: o potencial do cinema enquanto gatilho para a mudança é sustentado pelo próprio labor da cineasta. Ao tomar parte, enquanto espectadores, na construção da obra, tomamos, literalmente, nas nossas mãos (nas nossas mentes, enfim nos nossos corações) o caminho a seguir e o(s) desfecho(s) possíveis. O título do filme é, assim, também uma interpelação ao espectador. Quando a tela escurece e os créditos passam, cabe, então, questionarmo-nos: “e agora, onde vamos?”
Inês Mariano, mestranda em Estudos Artísticos