Centro Estudos Bioética Pólo Coimbra

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O Centro de Estudos de Bioética é a mais antiga instituição do país a dedicar-se ao estudo e à

23/03/2026

Comunicado

FEDERAÇÃO PELA VIDA DENUNCIA ATAQUE TERRORISTA À
MARCHA PELA VIDA EM LISBOA

No dia 21 de março, realizou-se em Lisboa a Marcha pela Vida, que terminou em São Bento. Pouco após a chegada ao Parlamento, onde participaram milhares de pessoas, e tendo-se já iniciado os discursos, um grupo de pessoas aproximou-se do palco com uma atitude provocadora. Traziam consigo uma caixa.

A organização solicitou que se deslocassem para outro local, o que foi cumprido.

Passada uma hora sobre a chegada destes indivíduos, e estando ainda no largo algumas centenas de pessoas, um dos elementos retirou da referida caixa — que anteriormente esteve encostada ao palco — um dispositivo incendiário.

O indivíduo correu em direção ao palco, onde se encontrava a maioria dos presentes, incluindo crianças e bebés, tentou efetuar a ignição e arremessou o engenho contra as pessoas.

Felizmente, a ignição falhou, embora o combustível utilizado no dispositivo tenha ensopado várias pessoas, incluindo dois bebés. Os restantes elementos do grupo fugiram, mas o atacante foi detido pela PSP.

A PSP, tal como a Federação pela Vida, possui testemunhos e imagens de todos estes factos. Perante os dados apurados – um ato planeado por um grupo de pessoas, que por razões políticas procuram atacar alvos que causem impacto – não nos restam dúvida, que estamos diante de um ato terrorista.

Não tivesse a ignição falhado e estaríamos hoje a falar da morte de crianças e bebés. Contudo, o falhanço do atentado não pode escamotear que uma organização política planeou e procurou executar um ataque com um engenho incendiário contra um evento público repleto de famílias, jovens e crianças.

Pelo exposto, a Federação pela Vida vem instar:

Que este ataque seja tratado pelas autoridades como o ato de

terrorismo que é. É urgente que sejam investigados todos os que a ele estiveram ligados.

Que, caso se venha a provar a ligação entre os atacantes e alguma

organização política, esta seja declarada organização terrorista, tal

como previsto na Lei de Combate ao Terrorismo (Lei n.º 52/2003, de 22 de agosto).

Que todos aqueles que, especialmente no exercício de poderes

públicos, têm usado nos últimos anos um tom de ódio contra o

movimento próvida — acusando-nos de inúmeras iniquidades —

coloquem a mão na consciência e compreendam as consequências do seu discurso.

A Federação pela Vida irá pedir uma audiência ao Senhor Ministro da Administração Interna, bem como, oportunamente, ao Senhor Procurador Geral da República. No momento apropriado, esta Federação irá também constituir-se como assistente no processo judicial que se seguirá.
A violência é sempre censurável, mas quando praticada num acto público, pela sua potencialidade e alarme social é ainda mais grave.

Num Estado de Direito os Poderes Públicos têm o superior dever de agir em conformidade.

Lisboa, 23 de Março 2026

A Direcção da Federação Portuguesa pela Vida.

14/03/2026

«A compaixão como imperativo bioético: amar carregando a dor do outro

Na sua mensagem para o # # Dia Mundial do Doente, o Papa Leão XIV propõe como tema “A compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro”, apelando a gestos concretos de “proximidade e presença” como resposta à “cultura do descarte e da indiferença”.

Embora enraizada numa tradição religiosa, esta proposta ultrapassa o âmbito confessional e interpela diretamente a consciência bioética contemporânea. Num tempo marcado por avanços tecnológicos sem precedentes na medicina, a questão decisiva permanece profundamente humana: que lugar ocupa a vulnerabilidade na nossa escala de valores?

A parábola do bom samaritano, evocada pelo Papa, descreve alguém que interrompe o seu caminho, aproxima-se, toca as feridas e assume responsabilidade pelo outro. Lida sob uma perspetiva bioética, esta narrativa traduz-se num princípio fundamental: a centralidade da pessoa doente enquanto sujeito de dignidade inviolável, e não como objeto de intervenção técnica. A ética biomédica moderna estrutura-se frequentemente em torno de quatro princípios — autonomia, beneficência, não maleficência e justiça. A compaixão, enquanto atitude ativa de reconhecimento da fragilidade alheia, não substitui estes princípios; antes, oferece-lhes um horizonte humanizador.

Num contexto em que os sistemas de saúde enfrentam pressões económicas, envelhecimento demográfico e desigualdades persistentes no acesso aos cuidados, a “cultura do descarte” não é uma metáfora vaga. Ela manifesta-se quando vidas são avaliadas sobretudo segundo critérios de produtividade, quando o idoso dependente é percecionado como fardo, ou quando o doente crónico é reduzido a estatística. A bioética tem denunciado estas derivas utilitaristas, lembrando que o valor da vida humana não pode ser medido por eficiência, custo-benefício ou desempenho funcional.

O apelo à “proximidade e presença” assume, neste quadro, um significado concreto. A medicina tecnológica corre o risco de se tornar uma prática à distância — mediada por ecrãs, algoritmos e protocolos — onde o tempo dedicado à escuta é comprimido pela lógica da produtividade. Contudo, múltiplos estudos em ética clínica sublinham que a qualidade da relação terapêutica influência não apenas a satisfação do doente, mas também a adesão ao tratamento e os próprios resultados em saúde. A presença não é
um adorno sentimental: é parte integrante do cuidado.

A compaixão, numa perspetiva bioética, não é mero sentimento; é disposição para agir em favor do outro vulnerável, reconhecendo a sua singularidade. Esta atitude torna-se particularmente relevante em debates contemporâneos como os cuidados paliativos, o fim de vida ou a alocação de recursos escassos. “Carregar a dor do outro” não significa decidir por ele, anulando a sua autonomia, mas acompanhá-lo nas decisões difíceis, assegurando que nenhuma escolha nasce do abandono, da solidão ou da falta de alternativas.

Neste contexto, aproveito para recordar e homenagear o professor Ramiro Meneses que no conceito de “plesiologia”, propõe uma ética centrada na categoria do próximo (plésion). A plesiologia sublinha que o fundamento da responsabilidade ética não é uma abstração normativa, mas o encontro concreto com o outro vulnerável que interpela a minha liberdade. Em chave bioética, esta perspetiva reforça a ideia de que o cuidado não pode ser reduzido a protocolo ou contrato: ele nasce de uma relação de proximidade
que reconhece no doente não apenas um caso clínico, mas um “próximo” cuja fragilidade me convoca. A proposta do Papa encontra aqui uma ressonância filosófica significativa: a compaixão não é paternalismo, mas reconhecimento relacional da dignidade.

Importa ainda reconhecer que a ética do cuidado não se limita à relação profissional-doente. Ela interpela políticas públicas e modelos organizacionais. Sistemas de saúde que não garantem acesso equitativo, que exaurem profissionais até à exaustão moral ou que negligenciam a saúde mental traem, na prática, o princípio da compaixão. Amar carregando a dor do outro implica também criar condições estruturais para que médicos, enfermeiros, cuidadores informais e famílias possam cuidar sem se tornarem, eles próprios, vítimas de um sistema desumanizado.

Num mundo que celebra a autonomia individual, a mensagem do Papa recorda uma verdade antropológica fundamental: a vulnerabilidade é constitutiva da condição humana. Todos somos, em algum momento, o homem caído à beira do caminho. A bioética contemporânea tem vindo a redescobrir esta dimensão relacional, superando visões excessivamente individualistas e reconhecendo que a interdependência não diminui a dignidade; pelo contrário, funda-a.

Ao propor a compaixão como antídoto à indiferença, o Papa Leão XIV não apresenta apenas um convite espiritual. Oferece um critério ético para avaliar as nossas práticas clínicas, as nossas prioridades políticas e as nossas escolhas sociais. Numa era de inteligência artificial aplicada à saúde, de medicina personalizada e de decisões baseadas em dados, a pergunta essencial permanece: estamos a usar o progresso para servir a pessoa concreta, ou estamos a moldar a pessoa às exigências do sistema?

A resposta não se encontra apenas nos documentos do magistério ou nos códigos deontológicos, mas na prática quotidiana de quem cuida — e de quem decide como se cuida. A compaixão do samaritano, lida em chave bioética, desafia-nos a construir uma cultura do encontro onde nenhuma vida seja descartada e nenhuma dor ignorada. Porque, em última análise, a medida de
uma sociedade não se avalia pela sofisticação da sua tecnologia, mas pela forma como trata os seus mais frágeis.

António Jácomo
Diretor da Revista Portuguesa de Bioética»

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