14/04/2015
O Artolas. Projeto final da UFCD 0141 animação 2D.
O Artolas
Dizem os velhos que o Artolas é descendido de Sarronco, se não o Sarronco em si, o bicho-papão ou “homem-do-saco”, ainda que tenha o feitio de um trasgo, mais dado a travessuras. Será por ventura um ser dos bosques velhos mas é descrito normalmente como um duende gigante que trocou as vestes verdes e o barrete vermelho por um traje oitocentista. O fato negro engrandece-lhe ainda mais a figura por entre os troncos das árvores. No topo da cabeça exibe uma grande cartola, com dois ou três metros. O Artolas em si terá 10 ou 15 ou 20 metros de altura, dependendo do tamanho das árvores por onde se camufla, qual demónio ou vigilante da floresta. Na verdade, raramente o encaram de frente e quem o vislumbrou, pelo canto do olho, não lhe terá visto feições.
A cara é lisa, branca, sem nariz, olhos ou boca. Tem, no entanto, uma grande barba que lhe desce ao longo da cara até ao peito. Não é de falas, mas a presença faz as nossas entranhas falarem por si. Dizem que aparece para amedrontar os solitários que se aventuram na jornada por esses arrabaldes e caminhos, ladeados de muros e pomares, nos regatos e nas encruzilhadas. O Artolas deixa os mais incautos desorientados sem saber que direcção tomar, urinando-lhe nas pernas: ou assim lhe deitam estes as culpas, pois quem não se urinaria depois de tal encontro?
É tão medonha a figura e tão desconhecidas as intenções que não há mãe ou pai que não use invocar este ser no imaginário para meter medo aos filhos que desdenham da sopa e dos trabalhos de casa ou daqueles meninos que gostam de ir brincar para longe de casa. Os adultos aliás, raramente são incomodados por ele, porque a razão da idade apaga-lhes da memória o medo que guardavam em pequeninos.
Ainda assim, o Artolas gosta de lhes pregar partidas, fazendo gemer a madeira das casas à noite, deslocando as loiças e outros objectos, com as suas mãos compridas como ramos, metidas por alguma janela que se esqueceu aberta. “Deve ter sido o vento”. O mesmo vento que assobia nas tempestades, como se o vento tivesse boca. Bem, o Artolas também não terá boca, ou pelo menos que alguém tenha visto debaixo da espessa barba.
Quando zangado, o Artolas vai importunar as pessoas que estão a dormir na cama e que depois acordam com um grande pesadelo, pregadas na cama, sentindo-lhe a presença no canto do quarto, a espreitar pela janela ou junto à varanda.
Contava uma velha senhora que lhe viu várias vezes sombra nas paredes iluminadas pelos relâmpagos em noites de borrasca. A mesma senhora que noutras noites mais calmas, o mirou a atravessar o Largo da Serra (antigo Largo da Feira) "com 4 passos a comprido, dois passos em largura", aguardando outros transeuntes nocturnos. Foi várias vezes visto a jogar cartas, sentado no fontanário do largo, com bêbedos que lá iam refrescar os beiços, equilibrando nos dedos longos e esguios, baralhos em miniatura. Noutras vezes, dava-lhes grandes sapatadas e gargalhadas em tom jocoso.