23/07/2021
SER MULHER
Desde que o mundo é mundo que a Mulher sempre se viu impossibilitada de ter o mesmo valor que um Homem. Inicialmente, mais não era que pertença do pai que tal como moeda de troca passaria como mercadoria para um marido, do qual dependia. Não porque fosse inválida, ou incapaz, mais ai daquela que se tentasse emancipar. Mulheres sós, a auto-sustentarem-se numa floresta frondosa outro título não teria que o de bruxas. E a caça às mesmas começou e milhares foram queimadas para se "purif**arem", como se a liberdade, a independência fosse crime. Esse crime atravessou tempos e épocas e hoje vigora, porventura mais implacável que nunca. És casada e pensas em ter filhos? Não o digas numa entrevista, a maioria das entidades patronais não vê com bons olhos as baixas de apoio à família e as horas de amamentação. E sim, temos que pôr o dedo na ferida, porque uma coisa são as fofices que se dizem de início e outra coisa é a realidade. A mulher portuguesa é a que mais trabalha na Europa! E não são mesmo as que mais ganham! Ainda que tenham dois trabalhos: um enquanto profissional, outro enquanto doméstica. E não é fácil chegar a casa tarde, fazer jantar, dar banho as filhos, meter roupa a lavar e...nos dias mesmos maus ainda passar a ferro. Há ainda a situação ridícula de certos magistrados deste país e não só, avaliarem situações de violação e emitirem pareceres como "a jovem tinha de facto uma saia muito curta" ou, "bem com aquela barriga assim ao léu estava mesmo a pedi-las". E há quem concorde. Quem tenha pena dos coitados dos violadores que f**am presos por meia dúzia de dias. Seria interessante percebermos quem é a mulher portuguesa neste contexto de pandemia! A mulher que ainda acha que pode voar e ter sonhos, como o de ingressar na carreira política. Não, senhor. Aí já é um abuso. Um despautério. Torna-se logo má mãe porque o papel dela é estar em casa a criar os filhos. Mas talvez essa mulher deseje um futuro melhor para os mesmos! Se for gorda lá vem a piadinha: baleia deu à costa em Vila Nova de Alguidares de Baixo. É só prejuízo no papel dos cartazes! Se for bonita, caldo entornado. Aí só pode ser uma valente galdéria, daquelas que vêm de fora para roubar os maridos às de cá. Magras, bonitas e elegantes que até mete nojo!! Frescas que nem uma alface:) Mais vale as outras inchadas que parece que saíram de uma operação ao dente do ciso.
Lá está: profissão imprópria para mulher. Já para os homens é o ideal, sejam baixos, altos, gordos, magros, vesgos, desdentados, bebedolas e ar de engatatão. Abre-se assim a época da caça às bruxas, as mulheres, essas bandidas que com tanto eletrodoméstico bom deviam era estar em casa! A preparar o jantar para o marido candidato bebedola que já vem impregnado de perfume rasca da secretária nova, ou o engatatão que ainda tem a lata de vir desbobinar a babação das futuras eleitoras.
Não sou feminista e até tenho amigos políticos homens, de bem.
Mas sou mulher, e milhares antes de mim lutaram para que hoje eu tivesse os direitos que tenho. E é em memória de todas elas que eu afirmo BASTA quando qualquer mulher é maltratada por opções legítimas que faz. A luta pela igualdade das mulheres não pode ser feita em silêncio, nem com medo de represálias. Tem que ser eco da vontade de todas e de um direito que ninguém lhes pode tirar.
Dura lex sed lex. (Eu até traduzia, mas assim tirava a oportunidade de um sunset literário!)