26/07/2025
"Não consegui pregar olho esta noite. Tenho o corpo cheio de bagas vermelhas. Coço-me com a ponta dos dedos, ao de leve para não provocar feridas. Se meto a unha, e a uma tentação estou feito. Seriam três da manhã quando saí para a rua. A cabeça latejava por dentro. Já não podia mais. Ainda os sentia a passear em cima de mim a esfregar as patinhas de satisfação. Esforçava-me por não fazer por ali um pintelho e de repente 'Zás'. Acendia a luz, sacudia os lençóis e punha-me a vasculhar a cama toda que nem doido. Nem um. Nem um, finalmente esborrachado entre as minhas unhas, que esguichasse sangue por todos os lados. Só se aventuram às escuras os cobardes. E, mesmo assim, devem vir camuflados cobertos pelo pó das frinchas e dos recantos bacientos do quarto. Largar um fósforo a isto tudo. Atear fogo à palha podre do colchão e dançar de alegria no meio das labaredas enquanto os ouço 'crack', 'crack', a estalar como castanhas ao lume. A humidade vinda do rio encharcava-me os ossos. Deixei de ouvir as badaladas da Sé. Acabou-se-me o tabaco, o que ainda assim, foi o pior de tudo. A comichão já não me incomodava muito a não ser nas costas das mãos. O ardor nos tomates só começou pela manhã, se não estou em erro. Vagueei durante não sei quanto tempo. Não se via vivalma, nem um ladrão de carros para dar dois dedos e cravar um cigarro. Por fim, lá topei uma padaria aberta. As carcaças caíram-me na fraqueza - o costume. Tenho um pacote de manteiga escondido no meu quarto. Aposto que a p**a da velha não o encontra nem que vire tudo do avesso. Já não caio noutra. "Senhor João, o quarto não tem serventias. A velha descobriu um cacho de bananas podres em cima do guarda-fatos e foi um pandemónio. Não volto a comprar bananas da Colômbia. Compram-se ainda verdes e dois dias depois estão completamente podres."
João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela