14/07/2026
O UNIVERSO DAS SEITAS DESTRUTIVAS - PARTE X
– O MOVIMENTO RAELIANO. UMA SEITA DESTRUTIVA QUE NASCEU DE UM ENCONTRO COM UM EXTRATERRESTRE
Há líderes que se proclamam profetas do Deus da Bíblia. E há líderes que vão mais longe e afirmam que esse Deus afinal não existe, que os criadores da humanidade são extraterrestres, e que eles próprios foram escolhidos por esses extraterrestres para salvar o mundo. Claude Vorilhon é um desses líderes.
E o que é verdadeiramente perturbador não é a doutrina — é o facto de resultar.
A ORIGEM
O Movimento Raeliano foi criado em 1973 por Claude Vorilhon, um antigo jornalista desportivo francês. Antes de se tornar profeta extraterrestre, Vorilhon tinha uma vida perfeitamente mundana: aos 15 anos tentou uma carreira de estrela pop no rádio, lançou seis singles e viu a carreira terminar abruptamente quando o seu produtor se suicidou. Nos anos seguintes dedicou-se ao jornalismo automobilístico e fundou a sua própria revista, a Autopop.
A 13 de Dezembro de 1973, Vorilhon afirma que, durante uma caminhada numa zona vulcânica em Auvergne, na França, foi visitado por um extraterrestre que lhe revelou que os seus semelhantes — os Elohim — eram os criadores de toda a vida humana na Terra, tendo-a criado há 25.000 anos através de técnicas avançadas de clonagem e engenharia genética.
A partir desse momento, Claude Vorilhon tornou-se Raël — o profeta escolhido pelos criadores da humanidade para preparar o mundo para o seu regresso. Em 1974 publicou o seu primeiro livro, "O Livro que Diz a Verdade", e convocou uma conferência em Paris à qual assistiram duas mil pessoas. Daí nasceu a organização MADECH — Movimento para Acolher os Elohim, Criadores da Humanidade. Em 1976, transformou-a no Movimento Raeliano Internacional.
O LÍDER
Claude Vorilhon nasceu a 30 de Setembro de 1946 em Vichy, França. É carismático, mediático e completamente à vontade no papel que escolheu para si próprio — o de último profeta da humanidade, enviado não por Deus mas pelos seus criadores extraterrestres.
A doutrina que construiu é uma fusão calculada de elementos de todas as grandes religiões com ufologia e ficção científica: os Elohim criaram a humanidade, enviaram à Terra os grandes profetas — Jesus, Moisés, Maomé, Buda — como seus emissários, e prometeram regressar quando a humanidade estiver suficientemente evoluída. Os raelianos acreditam que estes profetas vivem actualmente noutros planetas e voltarão à Terra.
O mecanismo de recrutamento é sofisticado: a doutrina raeliana rejeita o sobrenatural e apresenta-se como "religião ateísta" e científica — o que a torna paradoxalmente atraente para pessoas que rejeitam as religiões tradicionais mas procuram sentido e pertença. A sexualidade é apresentada como sagrada e liberatória. A "meditação sensual" — um dos pilares do movimento — ensina os membros a atingir o chamado "orgasmo cósmico" como via de ascensão espiritual.
O PERIGO
O mecanismo central de controlo do Movimento Raeliano é a construção de uma identidade totalmente alternativa — científica na aparência, doutrinária na essência. Os membros são ensinados que são literalmente clones de extraterrestres, que a morte é apenas uma etapa antes da clonagem e que a imortalidade está ao alcance de quem seguir os ensinamentos de Raël.
Em Dezembro de 2002, Brigitte Boisselier, episcopisa raeliana e directora da empresa de biotecnologia Clonaid, anunciou o nascimento de uma criança chamada Eva — supostamente o primeiro clone humano alguma vez produzido. O anúncio gerou manchetes em todo o mundo, debates éticos e acusações de embuste. Nenhuma prova foi jamais apresentada. Mas o objectivo estava cumprido: o Movimento Raeliano estava na primeira página de todos os jornais do mundo.
Em 1995, a Assembleia Nacional Francesa investigou o Movimento Raeliano como organização perigosa. Em 2003, a entrada de Raël foi negada na Coreia do Sul. O grupo foi investigado em múltiplos países por alegações de abuso sexual, manipulação financeira e exploração de membros vulneráveis. Ex-seguidores descrevem um ambiente de controlo progressivo onde a doutrina da "liberdade sexual" servia na prática para beneficiar o líder e o círculo interno.
O QUE FICOU
O movimento raeliano completou mais de 50 anos de existência — e Raël já está a beirar os 80 anos — com dezenas de milhar de seguidores espalhados pelo mundo. O movimento afirma mais de 85.000 membros, embora académicos independentes estimem números consideravelmente mais modestos. Raël afirma que os Elohim visitarão a Terra novamente até 2035. O contador está a correr.
Em 2015, os representantes do Movimento Raeliano Internacional enviaram ao Governo português um pedido formal para construir em Portugal uma embaixada extraterrestre, solicitando uma propriedade com quatro quilómetros quadrados para receber os Elohim quando regressarem. Portugal não respondeu favoravelmente ao pedido.
A história de Claude Vorilhon é o encerramento perfeito desta série, porque demonstra que as seitas destrutivas não precisam de massacres, de incêndios nem de veneno para serem perigosas ou coercivas. Basta uma narrativa suficientemente sedutora, um líder suficientemente carismático e uma promessa suficientemente grande. O resto faz-se sozinho.
Ao longo desta série, percorremos dez grupos, dez líderes e décadas de manipulação, controlo e destruição de vidas. O denominador comum é sempre o mesmo: líderes que colocam a sua autoridade acima de tudo, incluindo da vida e da dignidade dos seus seguidores.
No meu livro "O Universo das Seitas Destrutivas" (2024, Penguin Random House Portugal), analiso em detalhe os mecanismos de manipulação e controlo mental que tornam grupos como estes tão eficazes e tão difíceis de abandonar.
Porque reconhecer um grupo destrutivo começa sempre pelo mesmo passo: saber o que procurar. E o que evitar.
António Madaleno
Autor de "Apóstata! Porque Abandonei as Testemunhas de Jeová" e "O Universo das Seitas Destrutivas" (Penguin Livros)