11/01/2023
Mas por que ‘bater as botas’ virou sinônimo de ‘falecer’?
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Em 2017, o meu cantor predileto, Belchior, encerrou sua carreira neste plano terreno e foi cantar junto aos anjos. Este é um eufemismo bem aguinha com açúcar para dizer que Belchior faleceu, feneceu, finou-se. É que o término da vida é um conceito muito pesado para se falar.
O médico diz “ele se foi”. O fã diz “ele nos deixou”. À criança, falaram que ele “virou estrelinha”. O católico diz que ele “foi para os braços do Senhor”. O espírita diz que “desencarnou”. O que não falta é alternativa para atenuar a menção a uma situação em que não há atenuante. Esta é a força do eufemismo, aquela figura de linguagem que usamos para suavizar palavras desagradáveis.
Muitas vezes, dependendo do contexto, o eufemismo fúnebre se usa da jocosidade, do humor, para deixar a situação mais leve. Precisamos até nos atentar a isso, pois imagine alguém anunciando o óbito de alguém dizendo aos familiares que, infelizmente, fulano ‘abotoou o paletó’, ‘assentou o cabelo’ ou ‘bateu a caçoleta’.
A lista de expressões empregadas como sinônimos eufemísticos para defuntar é curiosa; uns mais poéticos, outros mais cruentos. O sujeito pode: bater a alcatra na terra ingrata, bater com a cola na cerca, dar à espinha, dar o couro às varas, dar o último alento, dar o peido-mestre, entregar a alma a Deus (ou ao diabo), descer à cova, entregar a rapadura, esticar a canela (ou as pernas), ir para a cucuia (ou cacuia), ir para o céu, (para o outro mundo ou para os anjinhos) ir-se desta para melhor, fazer a passagem, largar a casca, vestir o pijama de madeira. Nossa, tem mais alguma que você conhece?
Nem sempre podemos levar ao pé da letra as expressões. Que o cidadão virou anjo dá até para se entender; que foi comer capim pela raiz pode até ser de mau gosto, mas também é compreensível a quem ouve pela primeira vez. Mas e ‘bater as botas’? Qual é o sentido disso? Por que bater esses calçados acabaram significando ‘falecer’. A explicação é de bater palmas!
Antes de contar o fim do filme, é bom adverti-lo, querido leitor, sobre uma bobagem pseudoetimológica que anda circulando pela internet. Olha a história chinfrim que me mandaram:
“Durante o período em que a Coroa Portuguesa esteve no Brasil, uma série de cidades fundadas por holandeses queria independência, então declararam guerra. O grande ponto é que, em vez de os holandeses mandarem seus homens para as batalhas, eles vestiram e equiparam os escravos. Por nunca terem usado roupas tão pesadas nem botas, era muito comum que esses escravos tropeçarem nas próprias botinas no meio do campo de batalha, sendo facilmente atingidos pelo inimigo. A partir disso, virou uma gíria entre os escravos dos holandeses dizerem que fulano ‘bateu as botas’ no campo de batalha.”
Para esta versão não há evidências, nenhum registro escrito antigo. Outra pseudo-história parecida diz que isso teria surgido na Guerra do Paraguai. Bobagens.
A expressão original é ‘bater a bota’, como ainda é comumente falada em Portugal, mas sua origem é brasileira. Em 1889, o Visconde de Beaurepaire-Rohan registrou ‘bater a bota’, em seu ‘Diccionario de vocabulos brasileiros’, como sinônimo de ‘bater a pacuera, bater a linda plumagem (essa é boa, hein), bater as asas e voar’, ou seja, falecer.
O ‘Grande diccionario portuguez’, de Domingos Vieira (1871) traz a expressão ‘bater os sapatos’ significando ‘retirar-se, ausentar-se’. ‘Bater botas’ e ‘bater os sapatos’ se referem à ação de batê-los ao chão para correr. Na ‘Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano’, de 1935, consta que ‘bater a bota’ significa ‘fugir, desaparecer, pôr-se ao fresco; morrer”. Os dois sentidos aparecem.
Perceba, então, que ‘bater a(s) bota(s)’ não tem nada de bater uma bota à outra. É só uma maneira eufêmica de dizer que pobre mortal se foi, partiu, foi para o beleléu. E, como diria Belchior: “e que tudo mais vá para o céu!”
📚 Referência: ‘Revista do Instituto Archeológico, Histórico e Geográphico Pernambucano (1935).
📸 Figura: Mariana Crisóstomo (set. 2018).
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