07/06/2025
Sobre a lógica torta das coisas simples
O portão já estava cheio. Criança no carrinho, gente com mochila do tamanho de um airfryer industrial, casal discutindo baixinho. E lá estava ela: zona 4, bilhete na mão, ouvidos em alerta.
— Chamando agora os passageiros da zona 1 — disse a voz monótona no microfone.
A moça de salto 12 e blazer bege passou feito celebridade no tapete vermelho. Zona 1 entrou. Depois veio a zona 2, com seus fones de ouvido sem fio e cara de quem sabe o que está fazendo. Zona 3. A turma dos “quase lá”. Ela seguia esperando.
Até que enfim:
— Passageiros da zona 4, por favor…
Ela se levantou. Respirou fundo. Segurou a mala e atravessou a ponte de embarque. Mas o que encontrou na aeronave foi um corredor parado, travado por um senhor da zona 1 tentando levantar a mala no bagageiro enquanto equilibrava um copo de café e uma revista de palavras cruzadas.
Lá no fundo do avião, o assento dela sorria. Mas até chegar lá, teve que assistir a uma coreografia descoordenada de cotovelos, mochilas e desculpas sussurradas. Tudo porque quem entra primeiro… atrapalha quem vem depois.
Na cabeça dela, uma pergunta:
“Por que não embarcam do fundo pra frente?”
Na cabeça da companhia aérea, uma lógica diferente:
“Quem pagou mais, entra primeiro.”
Ela finalmente sentou. Olhou pela janelinha.
E pensou que talvez, na próxima viagem, fosse ela a desfilar na zona 1, só pra ver como é a sensação de atrapalhar os outros com classe.