12/09/2022
Uma história do “ Ç “ ( cê-cedilha)
Em 2005, a Câmara de Foz do Iguaçu, no Paraná, aprovou um projeto de lei para alterar o nome do município para ‘Foz do Iguassu’. A intenção era facilitar a propaganda turística da cidade aos falantes do inglês e do espanhol, línguas em que o cê-cedilha não existe. O prefeito foi esperto. Fez uma consulta popular e, ao saber que 90% da população eram contrários, vetou a mudança.
O curioso é que o cê cedilhado vem justamente da língua espanhola, mas que acabou o abandonando no século XVIII. Em português, no entanto, o Ç permaneceu em inúmeras palavras portuguesas, a ponto de merecer uma tecla só para ele nos teclados de computadores PT-BR.
Os antigos estudiosos da língua reclamavam: “Para que usar Ç se o S cumpre bem o papel de representar o som /s/ (sibilante alveolar surda)?” Pois então, há quem se queixe disso até hoje alegando que sua permanência só complica a aprendizagem da língua. Taí o bololô entre ‘seção/sessão’, ‘paço/passo’ e ‘ruço/russo’ que não me deixam mentir.
A questão é que o, por muito tempo, S e Ç tinham sons diferentes, em português, espanhol, francês e catalão. O Ç equivalia ao som /ts/ ou /dz/. A palavra ‘braço’, por exemplo, era lida /brátso/ e /brádzo/.
O símbolo surgiu no século XI. Durante a Idade Média, para representar esse som, no Reino Visigodo (na península Ibérica), era costume escrever um Z (parecido com este símbolo: ʒ) com um pequeno sinal, parecido com um C, colado acima. Com o tempo, o C ficou maior enquanto o Z ficou reduzido ali abaixo, um Z pequenino.
Em espanhol antigo, o Z era chamado ‘ceda’ (vindo do latim ‘zeta’). Adicionando-lhe o sufixo diminutivo ‘-illa’, surgiu a palavra ‘cedilla’ (pequeno zê), que ficou ‘cedilha’ em português.
Só lá pelos séculos XVI e XVII é que a diferença na pronúncia de Ç e S desapareceu. Afinal, falar só /s/ é bem mais fácil. O ‘braço’ passou a ser pronunciado /brásso/. Por isso, a Real Academia Espanhola, no século XVIII, aboliu o Ç do espanhol e voltou a grafar Z na maioria dos casos. Hoje, os espanhóis escrevem ‘zapato, abrazo, corazón, azúcar’, todos com som /s/. Em português, por força da tradição, o cê-cedilha permaneceu.
O Ç havia tomado o lugar de muitas palavras latinas em que o som de TI era /tsi/ ou /si/. Assim, ‘justitia’ (pronunciado /iustítsia/ ou /justíssia/, dependendo do lugar) ficou ‘justiça’ e ‘orationem’ virou ‘oração’ – e assim mantivemos.
As palavras de origem árabe também conservavam esse som e, portanto, eram grafadas com Ç, como açougue (‘as-suq’), açafrão (‘az-zafaran’), açude (‘as-sudd’) e taça (‘ṭasa’).
Um som parecido era observado em muitos vocábulos tupis, o que nos justifica o Ç em palavras como, açaí, araçá, babaçu, juçara e paçoca. O gramático português Duarte Nunes de Leão, na sua obra ‘Orthographia da Lingoa Portugueza’ (1576, p. 23), já falava que as pessoas tinham dificuldade em diferenciar os sons /s/ e /dz/ dos indígenas. Como disse o autor, “era uma espécie de Z”.
Uma gramínea usada para cobrir as casas era falada ‘çapê’, mas o ouvido pouco atento registrava ‘sapê’. No final das contas, muitas localidades brasileiras tinham seus nomes escritos dos dois jeitos e cada uma adotou a grafia mais popular: Mogi Guassu/Guaçu (SP), Pirassununga/Piraçununga (SP), Quiçaman/Quissaman (RJ) (atual Quissamã), Mossoró/Moçoró (RN). Eis o início daquele enrosco da cidade de Foz do Iguaçu.
📚 Referências: ‘Balança intellectual’, por Francisco de Pina de Sá e de Mello’ (1752), ‘Grammatica philosophica da lingua portuguesa’, por Jeronymo Soares Barboza (1822), e ‘O que é a cedilha (ç)?’, por Bruno Vaiano, na revista ‘Superinteressante’ (jul. 2021).
📸 Figura: Imagens e Moldes (jul. 2022).
🗣 Sugestão: Guilherme Moreira.
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