Ask a Jesuit (João J. Vila-Chã, SJ)

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26/10/2024

Sei que não preciso, mas nem por isso deixo de pedir «desculpa» (aqui em sentido mediático) pela minha ausência desta plataforma em dias mais recentes. De todas as pessoas que me conhecem ou estimam é bem mais do que sabido que o tempo só raramente chega para tudo! Seja como for, pela presente dou a conhecer um evento recente, uma ocasião formidável para dialogar sobre um dos mais dramáticos, e isso hoje mais do que nunca, eventos na vida das sociedades, a saber, a guerra. E nada mais absurdo do que a guerra de agressão, aquela que, por princípio, considero, sempre e em todos os casos, ser entre todas a mais injusta.

15/10/2024

Santa Teresa de Jesus (1515-1582), também conhecida como de Ávila, é uma das poucas mulheres que até hoje recebeu o título de «Doutor da Igreja», no caso pela mão do Papa S. Paulo VI, e uma das figuras mais emblemáticas da história ocidental-cristã em época moderna. A 15 de outubro a Igreja dela faz memória litúrgica. Nascida em Ávila em 1515, chegado o momento, Teresa revelou-se mulher dotada de profunda capacidade intelectual e de ação. Aos 20 anos fugiu de casa para entrar no Carmelo de Ávila, e aos 39 fez a experiência de uma profunda conversão espiritual, processo longo e sofrido em que foi determinante a assistência recebida de alguns dos seus notáveis diretores espirituais. Em causa estava o seu desejo de alcançar um novo patamar de perfeição evangélica, aquele mesmo ideal que haveria de fazer dela, a partir do Carmelo de São José em Ávila, uma das mais importantes figuras do século XVI espanhol. Se olharmos para o conjunto da sua obra, podemos dizer que o grande objetivo existencial de Santa Teresa de Ávila foi morrer como "filha da Igreja"! Sem dúvida, a mais importante realização da sua vida passa pelo modo como deu expressão espiritual ao modo moderno de ser, reconhecendo os sinais de Deus nas condições específicas da sua época, e que em boa medida são ainda as do nosso próprio tempo também. Objeto de incompreensões de toda a espécie, vivendo uma vida sofrida pelas calúnias de que foi vítima, confusa pelas interferências do "mundo", profundamente dolorida por causa das múltiplas formas de ignorância que grassavam à sua volta, tanto piores quanto mais motivadas pelas paixões que sempre se intrometem nos juízos dos homens, Teresa de Ávila foi uma autêntica mulher de Deus e, humanamente falando, e como já dito, merece ser reconhecida como uma das figuras mais ilustres, e determinantes, de toda a História da Igreja nos tempos modernos, por certo merecedora de estar lado-a-lado com figuras humanas tão extraordinárias do seu tempo como foram Juan de la Cruz e Miguel de Cervantes, cada um delas cultores exímios e imorredoiros da língua castelhana. Dos seus escritos ficamos a saber alguns dos princípios normativos da sua vida e da sua ação: «A paciência tudo alcança»; «Nada te perturbe, nada te espante: Deus só basta»; «não te consideres vazia…Deus vive em ti, como num castelo todo de cristal e do mais fino diamante»! Mas a estes pensamentos teresianos, acrescentaria ainda aquele em que ela mesma define a oração como sendo uma «relação de amizade em que sabemos estar sós com Aquele que nos ama». Acerca da humildade, escreveu: «Uma vez estava eu considerando por que razão era Nosso Senhor tão amigo desta virtude da humildade, e logo se me pôs diante – a meu parecer sem eu considerar nisso, mas de repente – isto: é porque Deus é a suma Verdade, e a humildade é andar na verdade. E é muito grande verdade não termos coisa boa de nós mesmos, senão a miséria e sermos nada; e, quem isto não entende, anda em mentira. Quem melhor o entende, mais agrada à suma Verdade, porque anda nela.»

Photos from Ask a Jesuit (João J. Vila-Chã, SJ)'s post 06/10/2024

A 6 de outubro de 1552, em Macerata, na Itália, nascia Matteo Ricci. Entrou na Companhia de Jesus e fez-se ao largo; em 1610 morria em Pequim, amado e respeitado até pelas autoridades imperiais da China do seu tempo. Morreu exausto das suas viagens, da sua Peregrinação ao serviço da Inculturação do Evangelho. Sobretudo, morreu apaixonado pela China e pelo seu Povo; mais do que isso, e malgrado o estado de melancolia em que viveu os seus últimos anos, morreu com a esperança de que o Império do Meio um dia abriria plenamente as suas portas a Cristo. Ao morrer na capital do Império Chinês, em 1610, Padre Matteo Ricci era já considerado como o grande missionário que efetivamente foi. Como jesuíta, ele é hoje, mais do que nunca, uma das grandes inspirações necessárias à Igreja, na China como fora dela. Na verdade, um jesuíta e missionário da Igreja que foi pioneiro no encontro entre o Ocidente e a Ásia, entre a Europa e a China, entre o Catolicismo e as plurisseculares tradições religiosas da China.

Em 1595, na cidade de Nanchang, Matteo Ricci, para os Chineses Li Madou, compôs, em Chinês, um Ensaio sobre a Amizade, a que começou por dar o título de You Lun, um dos primeiríssimos textos escritos em Chinês por um Europeu, ainda hoje conhecido e amado pelos Chineses, tanto assim que os seus textos, incluindo o pequeno tratado sobre a Amizade, tiveram o extraordinário privilégio de serem incluídos, primeiros entre todos os Ocidentais, numa Antologia Imperial. O seu “Tratado da Amizade” começa assim:

«Eu, Matteo, do longínquo Ocidente, naveguei através dos mares e entrei na China com respeito pela virtude ilustrada do Filho do Céu, da Grande Dinastia Ming, assim como pelos ensinamentos legados pelos antigos reis. Desde a altura em que elegi o lugar do meu alojamento em Lingbiao, as estações do ano passaram várias vezes. Na Primavera deste ano, atravessei as montanhas, naveguei rio abaixo, e cheguei a Jinling, onde contemplei a glória da capital do reino, que me encheu de felicidade, e pensei que não foi em vão que fiz esta viagem. Mas a minha longa viagem ainda não tinha chegado ao fim. Naveguei de regresso a Yuzhang e atraquei o meu barco em Nanpu. Lancei o meu olhar sobre a Montanha Ocidental e fiquei deliciado com a sua surpreendente beleza e pelo seu aspecto luxuriante. Pensei para comigo próprio que esta terra tem de ser o lugar onde habitam os sábios. Hesitando durante algum tempo entre regressar e ficar, finalmente não pude partir. Assim, deixei o meu barco e estabeleci residência ali.»

Neste dia, ocasião em que passam 44 anos desde a minha entrada na Companhia de Jesus, celebro a grandeza do trabalho, mas sobretudo do exemplo missionário do Padre Matteo Ricci. Na China, mas também para além dela, o desafio continua a ser o do respeito pela liberdade de religião e de consciência dos homens e mulheres que, na China como em outros lugares do mundo, não raro com grandes sacrifícios, professam a fé católica; por seu lado, a Igreja não quer, ou pode, abandonar a missão que hoje faz parte da sua auto-compreensão como corpo eclesial, e da sua missão de prosseguir no trabalho de dar à Fé em Cristo, único Salvador, uma cada vez mais justa e adequada inculturação nos mais diversos espaços culturais da humanidade, incluindo a China.
A 6 de outubro de 1552, em Macerata, na Itália, nascia Matteo Ricci. Entrou na Companhia de Jesus e fez-se ao largo; em 1610 morria em Pequim, amado e respeitado até pelas autoridades imperiais da China do seu tempo. Morreu exausto das suas viagens, da sua Peregrinação ao serviço da Inculturação do Evangelho. Sobretudo, morreu apaixonado pela China e pelo seu Povo; mais do que isso, e malgrado o estado de melancolia em que viveu os seus últimos anos, morreu com a esperança de que o Império do Meio um dia abriria plenamente as suas portas a Cristo. Ao morrer na capital do Império Chinês, em 1610, Padre Matteo Ricci era já considerado como o grande missionário que efetivamente foi. Como jesuíta, ele é hoje, mais do que nunca, uma das grandes inspirações necessárias à Igreja, na China como fora dela. Na verdade, um jesuíta e missionário da Igreja que foi pioneiro no encontro entre o Ocidente e a Ásia, entre a Europa e a China, entre o Catolicismo e as plurisseculares tradições religiosas da China.

Em 1595, na cidade de Nanchang, Matteo Ricci, para os Chineses Li Madou, compôs, em Chinês, um Ensaio sobre a Amizade, a que começou por dar o título de You Lun, um dos primeiríssimos textos escritos em Chinês por um Europeu, ainda hoje conhecido e amado pelos Chineses, tanto assim que os seus textos, incluindo o pequeno tratado sobre a Amizade, tiveram o extraordinário privilégio de serem incluídos, primeiros entre todos os Ocidentais, numa Antologia Imperial. O seu “Tratado da Amizade” começa assim:

«Eu, Matteo, do longínquo Ocidente, naveguei através dos mares e entrei na China com respeito pela virtude ilustrada do Filho do Céu, da Grande Dinastia Ming, assim como pelos ensinamentos legados pelos antigos reis. Desde a altura em que elegi o lugar do meu alojamento em Lingbiao, as estações do ano passaram várias vezes. Na Primavera deste ano, atravessei as montanhas, naveguei rio abaixo, e cheguei a Jinling, onde contemplei a glória da capital do reino, que me encheu de felicidade, e pensei que não foi em vão que fiz esta viagem. Mas a minha longa viagem ainda não tinha chegado ao fim. Naveguei de regresso a Yuzhang e atraquei o meu barco em Nanpu. Lancei o meu olhar sobre a Montanha Ocidental e fiquei deliciado com a sua surpreendente beleza e pelo seu aspecto luxuriante. Pensei para comigo próprio que esta terra tem de ser o lugar onde habitam os sábios. Hesitando durante algum tempo entre regressar e ficar, finalmente não pude partir. Assim, deixei o meu barco e estabeleci residência ali.»

Neste dia, ocasião em que passam 44 anos desde a minha entrada na Companhia de Jesus, celebro a grandeza do trabalho, mas sobretudo do exemplo missionário do Padre Matteo Ricci. Na China, mas também para além dela, o desafio continua a ser o do respeito pela liberdade de religião e de consciência dos homens e mulheres que, na China como em outros lugares do mundo, não raro com grandes sacrifícios, professam a fé católica; por seu lado, a Igreja não quer, ou pode, abandonar a missão que hoje faz parte da sua auto-compreensão como corpo eclesial, e da sua missão de prosseguir no trabalho de dar à Fé em Cristo, único Salvador, uma cada vez mais justa e adequada inculturação nos mais diversos espaços culturais da humanidade, incluindo a China.

03/10/2024

A proximidade de São Francisco à Pessoa de Jesus foi de tal maneira grande que nada na sua vida, nem muito menos os “stigmata”, são de ser vistos como surpresa, pois a sua existência, depois da conversão, foi toda ela feita de radicalidade evangélica, de louca paixão por Jesus Cristo. A nação italiana, de Unidade ainda recente, tem um grande apreço por este que necessariamente está entre os mais universais de todos os seus filhos, sendo justo e mais do que compreensível que em 1939, por insistência do Povo Italiano, o Papa Pio XII tenha declarado São Francisco de Assis, juntamente com Santa Catarina de Siena, Patrono Principal da Itália. Apraz-me ainda dizer que São Francisco de Assis pode e deve ser tido pelo santo-patrono do ecologismo mais autêntico (e, portanto, não ideológico), dos comerciantes, dos animais e, dentre estes, dos passarinhos em particular. No que me toca, prefiro dizer que Francisco de Assis merece ser particularmente reconhecido como patrono de todos os que buscam a Deus na sua vida, de quem quer que leia os Evangelhos disposto/a a reescrevê-los com a existência que lhe seja própria, patrono, enfim, de quem, em tudo e em todos, reconhece ou deseja reconhecer que o Melhor é sempre o mais essencial, o mais autêntico, o mais radical. O «Cântico das Criaturas» que Francisco de Assis compôs quando era quase chegado o fim da sua vida, constitui um testemunho de rara beleza e profundidade espiritual, alguém que hoje, como ao longo dos séculos passados, bem nos pode ensinar a procurar e a ver Deus em todas as coisas, a descobrir a mais profunda fraternidade que une as criaturas entre si e nós, cada uma delas com todas as outras. Deus em tudo, mas radicalmente mais do que tudo e o todo. Único, sempre inconfundível com nada que Deus não seja. Daí, simplesmente, a grandeza do «Poverello» de Assis. E a importância que para nós pode e deve ter olhar de novo, e contemplar, a vida daquele que merece ser tido como um dos santos mais radicais de todos os tempos: Francisco de Assis, o santo cujo «trânsito» para Deus ocorreu na noite do dia 3, mas cuja Festa se celebra, desde há muito, ocorre a cada quatro de outubro. – A imagem foi feita em Subiaco e constitui uma das mais antigas representações de São Francisco de Assis que se conhecem.

02/10/2024

Antes antes que o dia acabe, uma palavra sobre a devoção eclesial aos «Anjos da Guarda» pois que 2 de outubro é dia de se lhes fazer memória. Em meu entender, a devoção aos Anjos da Guarda é um doas aspetos particularmente consoladores da Fé Cristã, pois saber que nunca estamos sozinhos é o melhor que podemos saber sobre a nossa condição de seres-no-mundo. A nossa vida é um evento comunitário, um estar sempre na companhia de alguém; o nosso percurso existencial não se faz «fora-de-mão», mas sempre na presença de amigos espirituais que nos inspiram, nos guiam e, claro, nos dão-a-mão. Na verdade, o Anjo da Guarda que cada um de nós tem é manifestação séria e profunda de um aspecto essencial da nossa vida de Fé, a saber, que Deus sempre cuida de nós, um/a-a-um/a e cada um/a por si. E tudo isto é perfeitamente lógico, pois de toda a lógica da Revelação, e da Razão que por ela se deixa iluminar, sabemos que o Absoluto entendido cristãmente não se fecha sobre si-mesmo, antes cuida da nossa Salvação, ou seja, da nossa Felicidade na sua dimensão mais profunda. Sérgio Bulgakov, um dos mais importantes teólogos russos da idade contemporânea, afirma que a acção dos Anjos da Guarda é comparável à de um pedagogo, ou seja, à de alguém que está sempre connosco, não para nos substituir mas simplesmente para nos ajudar a ser, e a manifestar, quem realmente, e mais profundamente, somos. Numa breve palavra, é este o sentido que vejo, e em que acredito, pois vejo, relativamente à devoção da Igreja aos Santos Anjos da Guarda. E que bom seria se as nossas crianças voltassem a ser alertadas para a presença nas suas vidas dos Anjos que as guardam; e se nas nossas casas houvesse sempre um Espaço Aberto por onde convidamos a presença do Anjo que as guarda. Ou ainda, se nações inteiras despertassem para a presença ativa dos Anjos que as protegem.

01/10/2024

Santa Teresa de Lisieux, também conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897), morreu no dia 30 de setembro de 1897, aos 24 anos de idade, no Carmelo de Lisieux, em França. A festa litúrgica desta supreendente Doutora da Igreja, porém, ocorre a 1 de outubro. Do muito que se sabe sobre esta grande Mulher na história da Igreja, e isso malgrado o diminutivo que damos ao seu nome real, sublinho o que sobre ela disse o Papa Pio XI, o mesmo que em 1925 a canonizou: «Teresa de Lisieux é... UM GRANDE HOMEM!» A expressão faz sentido, pois a preocupação do Papa de então era evitar que se desse o que, infelizmente, já estava a acontecer: a promulgação de uma imagem demasiado insípida da Espiritualidade de Santa Teresinha do Menino Jesus! Evidentemente, o Papa tinha razão tanto mais que na Espiritualidade de Santa Teresinha do Menino Jesus não há nada de pietístico, e muito menos de insípido. A sua espiritualidade é extraordinariamente dinâmica, viril, ousada, "forte" até no sentido nietzschiano da palavra. A Espiritualidade de Teresa foi e é um grande Dom de Deus à Igreja e ao mundo, coisa que se veio a saber sobretudo depois da sua morte. E ninguém pense que foi por acaso que a Igreja acabou por declarar co-Padroeira Universal das Missões esta Carmelita de clausura, uma jovem que morre de tuberculose quando nem sequer tinha alcançado 25 anos de idade e que tirando a sua (extraordinária) viagem a Roma pouco antes de entrar no Carmelo nunca saiu do seu país nem, depois de nele entrar, do seu convento, colocada como agora está lado a lado com o grande missionário do Oriente que foi São Francisco Xavier, um dos cofundadores da Companhia de Jesus. Comprovadamente, Teresinha de Jesus foi e permanece ainda uma eficientíssima Missionária, uma das maiores que a Igreja alguma vez já teve depois de São Paulo, manifestamente à altura de todos os grandes missionários que na História mostraram o que a Igreja ainda hoje tem de melhor: universalidade, inclusividade, diversidade na unidade. E como não pensar na importância do seu exemplo e da sua intercessão para o mundo em que vivemos, para a nossa Igreja, para a Missão global da mesma, para cada um/a de nós, e em particular para quem tem a missão de pensar a Fé, de levar a Mensagem do Cristo de Deus a todos os Povos e Culturas, de comunicar a cada homem e mulher que encontramos, um por um/a e todos na comunidade da Igreja, ou fora dela, os Dons de Deus?

12/09/2024

Um outro vídeo de um mundo Outro, cheio de Fé e de Esperança! O vídeo tem como referente o regresso a Casa das centenas de milhar de pessoas que em Timor Leste, há dias, participaram na Eucaristia presidida por Papa Francisco durante a sua Visita Apostólica. Só de Ver, em meu entender, ficamos a saber a razão de ser de Timor-Leste como nação soberana e independente, como povo «escolhido» que a todos, em momentos como este, interpela, no mundo católico, mas também fora dele. Com efeito, penso que todos precisamos de aprender a realmente conhecer, e a ajudar nesta sua formidável caminhada histórica, esta maravilhosa fração do Povo de Deus que vive e labuta em Timor Leste.

Photos from Ask a Jesuit (João J. Vila-Chã, SJ)'s post 11/09/2024

As imagens impressionam e nunca mais deveriam ser esquecidas: Timor Leste recebeu o Papa Francisco com enorme devoção e carinho, com impressionante fidelidade, com uma extraordinária grandeza de alma! Parabéns Timor Leste! Parabéns a todos, desde as autoridades do Estado aos simples fieis, que fizeram com que esta viagem fosse possível e Timor tenha podido de forma que à distância me permito julgar de brilhante e esplendorosa, reafirmar a sua Fé, a Fé da Igreja de Jesus Cristo que tantos em Timor Leste fazem agora questão de cada vez mais ser transformada em realidade cultural, em vivência social de natureza quotidiana. Assim possam todos os que trabalham em prol do Bem Comum, a começar pelo Estado e por todas as estruturas eclesiais, fazer de tudo para que Timor Leste progrida como nação livre e independente, uma nação devotada às sempre urgentes tarefas de garantir o seu Futuro na prosperidade e na paz, um futuro que, para ser construído, tem de assentar em verdadeiros projetos de educação como base do desenvolvimento, um imperativo que se torna tanto mais imperioso quanto, ao que sei, mais de 60% da população timorense tem menos de 30 anos. As tarefas são, pois, ingentes, e ninguém como os Timorenses, homens e mulheres de todas as idades, para as levar a cabo. E tal como, numa magistral manobra de construção metafórica, apontou Papa Francisco no termo da Celebração Eucarística de hoje, há que ter cuidado com os crocodilos que, sempre muitos e, piro que tudo, sempre disfarçados, vão dando às belíssimas “costas” de Timor Leste! — Agradeço aos detentores dos respetivos direitos as magníficas fotografias que neste momento me é dado partilhar.

28/08/2024

Em Agosto de 1963, nesta cidade de Washington DC, Martin Luther King Jr. pronunciava perante enorme multidão um dos seus discursos mais famosos, hoje considerado um dos mais emblemáticos de todo o século XX, o seu inesquecível «I have a dream», um discurso que, para além do seu conteúdo, significou muitas outras coisas, entre elas a convicção de que o empenho na luta pela defesa dos direitos de todos é algo cujo significado vai sempre muito além do que, num determinado momento, se possa imaginar. Luther King, que haveria de ser tragicamente assassinado apenas alguns anos mais tarde na cidade de Memphis, é uma daquelas vozes realmente proféticas que temos na história contemporânea e que não podemos, ou devemos, esquecer: uma voz potente e articulada na luta pela justiça, uma voz inclusiva na luta pela igualdade, uma voz amiga na luta pela fraternidade, uma voz pacífica na luta contra a violência e a guerra em todas as suas formas. A voz de Martin Luther King que há 61 anos a partir do coração da cidade de Washington, e graças à força nascente da televisão, eletrizou a América e o mundo com o seu veemente, e retoricamente elaborado apelo ao respeito pela dignidade de todos os seres humanos, elevando assim a um dos seus picos mais altos a sua extraordinária missão de fazer despertar as consciências para a inevitabilidade de na história vir a ser um dado de facto a liberdade e a igualdade de todos os cidadãos, é uma voz que ainda hoje precisa de ser emulada: não para enganar, mas para despertar; não para encobrir, mas para dar lugar à luz da verdade e aos imperativos da justiça e da paz. O sonho de Martin Luther King ainda não está de todo realizado, embora muitos tenham sido os progressos conseguidos no último meio século da história mundial. Na verdade, precisamos todos de continuar a sonhar, mas sem nunca perder de vista o realismo e a determinação de Martin Luther King, um dos “profetas” do nosso tempo. Pelo que a pergunta se impõe: que sonho, realmente, nos faz correr pelos caminhos da vida? Qual é a paixão que, realmente, nos move? O mundo continua a precisar de líderes com a estamina e a força de convicção de Martin Luther King. Mais que tudo, a sua dedicação ao método da não-violência continua a ser urgente e imperativo, e isso por uma razão muito simples: a Paz e a Justiça estão longe, muito longe mesmo, de reinar onde mais é preciso, ou seja no coração dos homens e mulheres do tempo que é o nosso; e no coração de cada um/a, mais do que em todos os outros. — A foto é do exato lugar onde no dia 4 de abril de 1968, Martin Luther King Jr foi assassinado na cidade de Memphis, lugar que ainda há poucos dias tive o privilégio de poder visitar; o discurso do dia 28 de agosto de 1963, pode ser visto/escutado de novo aqui: https://youtu.be/vP4iY1TtS3s.

28/08/2024

Santo Agostinho terminou os seus dias a 28 de agosto do ano 430, em Hipona, cidade do norte de África, sede da Diocese de que era Bispo, o local onde escreveu parte muito significativa da sua obra de pensador cristão. As suas “Confissões”, a que depois se haveria de juntar, entre todas particularmente distinta, a “Cidade de Deus”, estão entre as obras mais profundas, revolucionárias e edificantes de toda a cultura ocidental. Os numerosos volumes disponíveis com os escritos filosóficos e teológicos deste extraordinário Doutor da Igreja permanecem ainda hoje um dos grandes tesouros intelectuais da humanidade. A sua vida foi, antes de mais, a de um sério e apaixonado buscador de Deus; a sua trajetória existencial foi a de alguém que se autocompreende como peregrino da Verdade, homem sempre disposto a contemplar e a servir. O seu pensamento não é apenas obra do seu brilhante intelecto; de facto, ele é sobretudo obra do seu iluminado afeto, projeção de um coração livre e aberto ao fulgor do Absoluto. Como Doutor da Igreja, Santo Agostinho, filho de Mónica de Tagaste, a mãe que tanto o procurou para o libertar do que sabia serem os seus erros e enganos, é um dos gigantes na história da Igreja e uma das figuras mais ilustres na história da humanidade. O que hoje ainda somos, em grande medida, o devemos à profundidade do pensamento deste homem que com o tempo e o batismo se fez de Deus e a nós, a quem quer que esteja disposto a fazer o esforço por o conhecer, continua a fazer-nos herdeiros de um extraordinário corpo de pensamento e doutrina. Como em todas as obras que são humanas, também nos escritos de Agostinho se pode encontrar o que nos nossos dias tem menos relevância, ou importância, quando se trata de fazer frente aos desafios do conhecimento. Mas ninguém, sobretudo se for intelectualmente honesto, pode negar o facto de Santo Agostinho permanecer uma das figuras mais excelsas do humanismo ocidental, um verdadeiro Pai da Europa, um profeta de um mundo que no seu tempo ainda estava por-vir, um mestre daquela Sabedoria que, personificada em Jesus Cristo, à vida dá sentido e alento. Homem de intelecto sumamente perspicaz e coração sumamente avantajado, Santo Agostinho continua a dizer-nos muito do que temos para aprender, ou não fosse ele um dos mais importantes doutores e mestres de pensamento de todos os tempos. [Imagem: «Santo Agostinho, Mestre em Roma» de Benozzo Gozzoli.]

All Star Timoroan - Hein Santo Padre 28/08/2024

Lamento muito não saber a língua, mas a sonoridade, e o complexo das imagens, é fantástico. Acho este um trabalho muito bem feito, muito digno do Povo de Timor e da sua vontade de acolher em breve o Santo Padre. Sinceros parabéns a quem quer que em Timor Leste está a fazer o seu melhor para que a visita apostólica de Papa Francisco venha a ficar como momento de grande intensidade espiritual no coração de todos os timorenses dos nossos dias. Timor tem um enorme potencial espiritual para a configuração do seu presente e do seu futuro. Desta forma, aproveito para felicitar e encorajar todos quantos em Timor Leste farão o seu melhor para acolher a Mensagem que Papa Francisco em breve, pessoalmente, lhes vai transmitir.

All Star Timoroan - Hein Santo Padre VÍDEO MÚZIKA “HEIN SANTO PADRE”Ho Ksolok Casa de Produção Audiovisual (CPA) Timor-Leste aprezenta ba maluk sira hotu vídeo múzika ho títulu HEIN SANTO PADRE ...

14/08/2024

São Maximiliano Kolbe (1894-1941), canonizado pelo seu grande compatriota Papa S. João Paulo II em 10 de outubro de 1982 e com Memória Litúrgica a 14 de agosto, constitui, só por si, uma Máxima de incalculável valor para a vida da Igreja e do mundo. Num tempo como o nosso em que da ordem do dia fazem parte temas tão pertinentes, urgentes e difíceis, como o da paz e o do entendimento entre povos e nações, a reconciliação nas e entre as famílias; um tempo, portanto, tão carente de dons como a reconciliação e o perdão; um tempo, enfim, em que mais do que nunca se torna claro que não aderir à Lei do Amor é o mesmo que se prestar a percorrer estradas de mal e caminhos de violência. No mínimo, da vida e da morte de Maximiliano Maria Kolbe deveremos, nós os de agora e todos os que vierem depois, procurar aprender a “máxima” da sua vida, que o foi sobretudo ao longo do duro processo que levou à sua morte feita de pura oblação e em perfeito seguimento de Cristo, uma máxima que ele mesmo, o nosso santo de hoje, traduziu em palavras tão simples, tão urgentes e tão profundas como estas que ele mesmo sempre repetia aos seus colaboradores: “nunca deixar esquecido o Amor!”
Há pouco mais de vinte anos, visitando Auschwitz, pude estar, em inquietante silêncio, diante das paredes da pequeníssima cela do infame Bloco 11 daquele que durante a Segunda Guerra Mundial foi um dos mais brutais campos de concentração e de morte de toda a história, aquele mesmo em que no dia 14 de Agosto de 1941, depois de 14 dias de inacreditável tortura, Maximiliano Kolbe, sem culpa alguma formada mesmo diante das leis mais iníquas que governavam aquele lugar de terror e de morte, mas tendo-se oferecido em substituição de um condenado que era pai de família para que este pudesse viver e retornar ao convívio dos seus, morreu na sequência da injecção de ácido fénico que os guardas prisionais lhe administraram para pôr termo à surpreendente resistência de um homem a quem ausência mais absoluta de alimentação e bebida não acabava de matar. Ao morrer, neste mesmo dia do ano de 1941, Massimiliano Kolbe disse apenas: «Ave Maria»!
Recordo ainda como durante a minha primeira visita a Nagasaki, no Japão, tive a grata surpresa, ao entrar no Museu adjunto à Igreja de Oura, de aprender que nos finais dos anos vinte do século passado, o Padre Maximiliano tinha alargado ao Japão a sua extraordinária actividade de publicista, remontando a 1930 o início da publicação na cidade de Nagasaki e a partir da sua nova “Cidade de Maria” da versão Japonesa do “Cavaleiro da Imaculada”, um «jornal» de que se editavam naquele tempo, sobretudo na Polónia, milhões de cópias anualmente. Na ocasião fiquei também a saber que na “Cidade de Maria” fundada por Maximiliano Kolbe no Japão numerosas vítimas do temível bombardeamento atómico da cidade de Nagasaki na manhã do dia 9 de agosto de 1945 encontraram refúgio e a proteção possível diante de tão grande, para muitos ainda hoje impensável, holocausto.

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