18/05/2024
Certa vez, conheci uma menininha chamada Júnia (nome fictício). Ela era pretinha, da minha cor, com o cabelinho preso em Maria Chiquinha. Quando olhei para ela, me vi refletida em seus olhos. Nosso olhar se cruzou e o dela suplicava por socorro. Logo nos tornamos próximas. Toda terça-feira, em um projeto social, ela vinha vergonhosa, mas sempre grudadinha em mim.
Um dia, algo estava diferente. Seus olhinhos estavam caídos, mais acanhados do que de costume, e em sua mãozinha havia uma cicatriz de queimadura. Naquele momento, uma luz acendeu em mim. Meu coração palpitou e senti um Deus gritando no meu ouvido. Algo terrível havia acontecido!
Perguntei a Júnia, e ela me contou tudo. Levantei-me imediatamente e fui atrás da líder comunitária. O que Júnia me revelou era apenas o começo de uma história de terror e tortura. Liguei para o Conselho Tutelar. Sabia que estava arriscando tudo – a confiança da comunidade, a integridade do projeto – mas não podia deixar uma menina tão doce ser esmagada pela crueldade humana.
Meu coração obstinado planejou arrancar ela dali, levá-la para minha casa, subir o "morrinho" e entregar sua família às autoridades locais. Chorei a noite toda, imaginando Júnia em sua casa de um cômodo, sendo vítima de violência, queimaduras, e depravidade.
Os dias se arrastaram e nada se resolvia. Eu pensava que talvez tivesse sido melhor fazer tudo do meu jeito. Júnia tinha um irmãozinho de um ano, também testemunha e vítima de todos os horrores.
Na semana seguinte, a notícia chegou. A mãe de Júnia, tomada pela vingança, atacou seu parceiro com uma faca. Mais uma violência que Júnia e seu irmão testemunharam. A sentença veio rápido dos "donos do morro". Perdi Júnia. O Conselho chegou tarde demais. Naquele universo paralelo, não havia o que ser feito. Sua mãe fugiu. Sozinha ? Não,acompanhada de seu algoz.
Essa história não teve um final feliz. Minha amiga de trincheira me disse: "Perdemos Júnia, mas olhe para frente. Você precisa ser forte, temos mais 50 crianças para lutar."
Eu nunca mais fui a mesma. Fecho os olhos e vejo o olhar doce de Júnia, apesar da amargura de sua vida. Meu coração chora por tantas outras 🧡
- Relato verídico-