26/12/2025
NEM TUDO É O QUE PARECER SER
Afinal, o plano de Yossêf consistia em VINGANÇA contra seus irmãos, ou seria um TESTE?
Após ter sido lançado a um poço e ter sua morte tramada por seus irmãos, os quais depois percebem que poderão ter mais lucro com sua venda, após passar por tudo o que passou, seria razoável pensar que Yossêf planejou vingar-se de seus irmãos, ao vê-los dependendo dele para sua sobrevivência.
Por outro lado, ao plantar a taça de prata na mochila de Biniamin, acusá-lo de roubo e estabelecer sua escravização como pena, Yossêf acabou criando o cenário perfeito para descobrir se seus irmãos ainda continuavam os mesmos, ou se tinham crescido moralmente.
Caso os irmãos concordassem em abandonar Biniamin, ficaria claro para Yossêf que eles não tinham mudado em nada. Caso defendessem Biniamin e se negassem a deixá-lo, então passariam no teste de Yossêf, provando ter se tornado pessoas melhores.
Ao ver seu irmão Yehudá implorando para que deixasse Biniamin livre (Gn 44:18-34), até mesmo oferecendo a si mesmo para ficar em seu lugar como escravo (Gn 44:33), Yossêf teve a certeza de que seus irmãos passaram no teste. Ou talvez, por perceber a mudança em seus irmãos, tenha abandonado seu plano de vingança.
Ao voltarmo-nos ao discurso de Yehudá, podemos entendê-lo de maneiras diferentes. De um lado, podemos entender o desespero de um irmão mais velho que não pode deixar nada acontecer ao mais novo, sob pena de perder seu pai, já idoso e traumatizado pela perda de outro filho no passado. De outro, podemos acreditar que Yehudá confiava em Deus completamente e tinha toda a certeza de que nada de mal realmente aconteceria a Biniamin.
Se Yehudá estava desesperado, então ele passou no teste de Yossêf. Mas se, por outro lado, tinha certeza que Deus não deixaria que nada de mal ocorresse a seu irmão, então ele não passou no teste, pois nunca teria verdadeiramente se oferecido para ficar em seu lugar. Teria sido tudo um blefe do jogador Yehudá.
Se as palavras de Yehudá fizeram com que Yossêf desistisse de sua vingança, então não importa que tenha sido um blefe, pois o melhor resultado ocorreu. Por outro lado, se fosse realmente apenas um teste, então Yossêf na verdade nunca teria tido a intenção de escravizar Biniamin e punir os irmãos e, portanto, não importaria a ele o que Yehudá dissesse ou não dissesse.
Que confusão! Afinal de contas o que se passava na mente de Yossêf? O que se passava na mente de Yehudá? Nós NUNCA saberemos. A tradição judaica legou diferentes comentaristas que enxergaram as mesmas passagens de modos completamente diferentes, mas a verdade objetiva, do que se passava na mente desses dois personagens, isso nunca saberemos.
E essa é uma das maiores belezas da Torá: tenha sido um teste por parte de Yossêf, ou uma vingança contra os irmãos; tenha o discurso de Yehudá sido completamente sincero, tenha sido meramente um blefe; tenha tudo isso sido um plano divino, ou planejamentos humanos, o mais belo é o texto permitir que enxerguemos diferentes possibilidades a partir de diferentes ângulos.
E esse é o convite que nossa tradição nos faz nessa semana: que nos abramos a enxergar o mundo e as pessoas, nossas ações e as ações daqueles que nos cercam através de um caleidoscópio, que busquemos olhar por outros pontos de vista, entender o outro em sua subjetividade, e estabelecer o real diálogo respeitoso que tantas vezes nos faz falta na atualidade.
Shabat shalom,
Theo Hotz
Torá com Fritas
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