18/07/2020
Pieter Brueguel, “O triunfo da morte”. Ca. 1562.
“Quando aparece o perigo do contágio, de início procura-se não vê-lo. As crônicas relativas às pestes ressaltam a frequente negligência das autoridades em tomar as medidas que a iminência do perigo impunha [...].
Por certo, encontram-se em tal atitude justificativas razoáveis: pretendia-se não assustar a população (daí as múltiplas interdições de manifestações de luto no começo das epidemias) e sobretudo não interromper as relações econômicas com o exterior. Pois a quarentena para uma cidade significava dificuldades de abastecimento, ruína dos negócios, desemprego, desordens prováveis nas ruas etc. Enquanto a epidemia só causava um número limitado de óbitos ainda se podia esperar que regredisse por si mesma antes de ter devastado toda a cidade.
Porém, mais profundas que essas razões confessadas ou confessáveis, existiam certamente motivações menos conscientes: o medo legítimo da peste levava a retardar pelo maior tempo possível o momento em que seria encarada de frente. Médicos e autoridades procuravam então enganar a si mesmos. Tranquilizando as populações, tranquilizavam-se por sua vez.”
Jean Delumeau, “História do medo no Ocidente: 1300-1800”. 1978.
Entre os comentários que fazem arrepiar os cabelos dos professores de história está o temido "nada mudou". Muitas vezes, é mais fácil observar as permanências do que apreciar a profundidade das transformações na história.
Por exemplo: é provável que você tenha notado paralelos entre as descrições de Jean Delumeau acerca da Peste na Europa medieval e o desenrolar da pandemia global em 2020. Mas você considerou que, entre os séculos XIV e XXI, os impactos das “dificuldades de abastecimento” são bastante diferentes? Ou então que o sentido de “desemprego” em sociedades pré-industriais pode ser diferente daquele com o qual estamos acostumados?
É possível ir ainda além, como Delumeu, que estuda os efeitos das epidemias, guerras, perseguições e outros fenômenos históricos sobre o medo. Você já havia imaginado que os sentimentos também podem se transformar ao longo da história?
Prof. Gustavo