Crónicas de um átomo

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João André Costa, professor em Londres, escreve para o Público/P3, Observador e Blog do Arlindo

Farage contra o Conde Cara-de-Caixote e o mundo 08/08/2026

Farage contra o Conde Cara-de-Caixote e o resto do mundo

Em Clacton, onde o mar parece ter sido posto ali por alguém esquecido de acabar a paisagem, Nigel Farage decidiu fazer das suas: demitir-se para voltar a candidatar-se ao lugar acabado de abandonar.

Como se um político pudesse sair de uma sala, fechar a porta, voltar a entrar e esperar todos fingirem ser esta uma nova entrada e não a mesma num casaco diferente.

Há qualquer coisa de infantil nesta política nem por isso épica: Farage olha para Clacton e vê o povo contra o sistema instalado, a coragem contra os burocratas, a liberdade contra os homens de gravata cujo único dever é fazer mais dinheiro; o eleitor olha para Clacton e vê apenas uma cédula com trinta e quatro nomes, alguns dos quais mais parecem ter sido inventados por uma criança sem paciência para escrever.

A eleição foi marcada para 13 de Agosto e tem um número recorde de candidatos. Farage é um deles. Os outros trinta e três são Joseph 77, Adham Alkhatip, Count Binface, Nick The Incredible Flying Brick, Tony Cane, Woke Trump Carrzee, William Stuart James Clouston, Rees Cowne, Glenn Charles Cummings, Martin Davies, Attieh Fard, Laurence Fox, Tony Francis, Robin Green, Abi Hookway, Howling Laud Hope, Stephen Richard Ingram, Amy Morris, Derrick Norbert Morris, Michael Noel O’Keeffe, Martyn OBrien, Nick Pelas, Ketankumar Pipaliya, Daniel Pocock, James Ransley, Gerry Smith, Kai Stephens, John Stevens, Baron Von Thunderclap, Pamela Walford, Marcus White e Marc Wilkinson.

Há três candidatos do Official Monster Raving Loony Party, um partido reflexo de uma democracia demasiado tempo ao sol.

Os grandes partidos decidiram não concorrer. Farage queria uma batalha contra o sistema e o sistema respondeu-lhe com a elegância de quem não aparece à festa. E de repente, este D. Quixote vê-se desprovido de moinhos, moinhos esses substituídos por uma procissão de independentes e um indivíduo com um caixote do lixo na cabeça.

Este último indivíduo dá pelo nome de Count Binface, ou, traduzido à letra, Conde Cara-de-Caixote.

Por baixo do caixote está Jonathan Harvey, comediante, escritor e produtor, um homem consciente desta política tão absurda a ponto de bastar enfiar um balde do lixo na cabeça para de imediato ser mais elegível aos olhos dos eleitores.

Harvey começou por ser Lord Buckethead (Lorde Cabeça-de-Balde), enfrentou Theresa May, mudou de personagem depois de problemas de direitos de autor e renasceu como Count Binface, guerreiro espacial, líder dos Recyclons, habitante do planeta Sigma IX, criatura com uma biografia de quase seis mil anos e uma saudável relação com o ridículo quando comparado com a exuberância do parlamento.

Se o político profissional pede para o levarem a sério, Count Binface responde, questionando a seriedade de quem, depois de uma birra diante dos jornalistas, abandona o lugar para voltar a disputá-lo.

Para Farage, ganhar esta eleição é ganhar a absolvição do eleitorado, deste modo transformando a investigação sobre os milhões recebidos e os apoios não declarados numa narrativa de perseguição.

Mas tem mais a perder se perder numa eleição cuja responsabilidade é apenas sua e onde desculpas como uma maré adversa ou um dia de chuva não encontram lugar diante da porta de saída.

Mesmo uma vitória esmagadora poderá trazer uma nota de rodapé amarga: ganhou sem a oposição dos grandes partidos, esses sim, os verdadeiros adversários.

E depois temos Count Binface.

Não, provavelmente Count Binface não vai ganhar. A política britânica tem uma longa tradição de permitir o absurdo no boletim de voto e uma tradição ainda mais longa de o deixar sair sem ocupar o Parlamento.

O seu melhor resultado foi em Londres, em 2021, quando obteve 92 896 votos na eleição para a Presidência da Câmara.

No fundo, a eleição de Clacton é a caricatura da democracia moderna: de um lado, um candidato a pedir para o levarem a sério, do outro, um candidato ciente de como ninguém é levado a sério seguido de trinta e dois outros candidatos e o eleitor diante do boletim à procura de quem lhe permita continuar a acreditar estar a escolher alguma coisa.

E num palco montado por Farage e mais ninguém para além de Farage, independentemente da vitória ou da derrota, ninguém poderá esquecer esta batalha histórica no fim da qual um político acabou a discutir com um caixote do lixo.

© João André Costa, Agosto de 2026

Farage contra o Conde Cara-de-Caixote e o mundo Em Clacton, onde o mar parece ter sido posto ali por alguém esquecido de acabar a paisagem, Nigel Farage decidiu fazer das suas: demitir-se para voltar a candidatar-se ao lugar acabado de abandonar.

Photos from Crónicas de um átomo's post 02/08/2026

Sorrir para quê, se nasci português?

Esta fotografia, por exemplo. Quatro pessoas sentadas numa esplanada, quatro adultos, quatro testemunhas de qualquer coisa acontecida, ocorrida e acometida antes do disparo, coisa essa a qual a máquina, na sua crueldade mecânica, decidiu não registar.

Um homem à esquerda, uma mulher ao lado dele, outra mulher sorridente, um homem à direita, e no centro da mesa um guardanapo de papel dentro de uma caixa preta, a pequena urna funerária onde se depositam as migalhas de uma nação.

A rapariga sorridente, segunda a contar da esquerda, não é portuguesa. É europeia. E talvez seja por isso o sorriso.

Não porque os europeus sejam felizes, Deus nos livre dessa simplif**ação turística, mas porque ainda não recebeu, com a necessária profundidade, a formação nacional para desconfiar da alegria.

Ainda não aprendeu como uma pessoa a sorrir numa fotografia corre o risco de parecer pouco séria, pouco sofrida, pouco consciente do preço da gasolina, do estado do país, do árido e estéril futuro dos filhos, sem esquecer o estado do mundo e aquela dor antiga no joelho ainda hoje por explicar certamente relacionada com a humidade.

Os outros, portugueses, olham para a câmara com a expressão de quem foi chamado a reconhecer um cadáver.

Os outros três a olhar para a câmara maldizem sem maldizer a sorte, ou a falta dela, de nascer português.

Isto porque nascer português é nascer com a obrigação de pedir desculpa por existir: desculpe incomodar, desculpe estar atrasado, desculpe chegar cedo, desculpe ocupar esta cadeira, desculpe não ter opinião, desculpe não ter conseguido, desculpe estar doente, mas sobretudo desculpe ainda ter saúde se há sempre quem sofra mais.

E desde cedo a criança lusa aprende ser o mundo uma sala onde não se deve fazer barulho. Cresce, casa, trabalha, paga impostos, envelhece, morre e, no fim, ainda pede desculpa ao coveiro pelo trabalho dado: “Não vale a pena”, diz do fundo do caixão, “deixe-me aqui mesmo no chão”.

Porque nascer português é descobrir estar o futuro cancelado por falta de orçamento.

Quando somos pequenos dizem-nos estuda, trabalha, sê honesto, esforça-te, e um dia terás uma casa, uma família, um salário, talvez um jardim onde possas cultivar couves e fracassos.

Sim, fracassos, diz o teu pai, e cresce-se num ápice quando percebemos ser o futuro uma promoção enganosa, uma montra iluminada onde os brinquedos estão sempre fora do nosso alcance.

Não são para nós. Não são para ti. E, portanto, sorrir porquê? Sorrir para quê, se nasci português?

Porquê sorrir se a felicidade é para desconfiar? Diante da felicidade, o português olha imediatamente para o lado. Quem viu? Quanto custa? Aconteceu alguma coisa? E se alguém diz estar tudo bem, a resposta automática é: “Pois, por enquanto.”

A alegria em Portugal é para consumir rapidamente e em privado, atrás de uma cortina, não vá alguém bater à porta para nos lembrar haver uma guerra, uma crise, uma factura, uma doença, um primo desempregado ou uma pessoa conhecida acabada de fenecer.

E depois esta saudade antes da perda, este órgão interno, uma espécie de segundo fígado com saudades da infância enquanto ainda somos crianças, saudades do Verão antes do Verão acabar, saudades de quem ao nosso lado está até não estar mais, daqui por muitos anos somente na fotografia.

E por isso, para quê sorrir para a objectiva se para além de tristes estamos a antecipar a tristeza?

A máquina diz: “Digam queijo.”

E nós pensamos: queijo, sim, mas depois a lactose, a reforma, o preço da renda, a morte.

Não obstante, entretanto e até lá, aguentar. Aguentamos tudo. A fila, o salário ou a falta dele, a espera, as humilhações, o patrão, a doença, o trânsito, o vizinho, o governo, o silêncio, a ausência do governo, a presença do vizinho, as esperas sem fim para um médico e no médico, os comboios atrasados e suprimidos.

“Vai-se andando”, dizemos para nós próprios cientes da inverdade desta filosofia nacional. Vai-se andando, mas não se anda nem se vive, não se avança, não se escolhe. Vai-se andando, enquanto atravessamos um incêndio com todos os pratos da avó numa mão só.

E não há ninguém para nos salvar quando os pais precisam antes de quem os salve e o mundo cai-nos nos ombros, pesa nos ombros e não há motivos para sorrir. Por conseguinte, o homem à esquerda da fotografia, a mulher ao lado e o homem à direita não sorriem, ao invés fingem para a fotografia saberem onde f**a a saída.

E tudo porque a felicidade portuguesa precisa de autorização administrativa.

Para sorrir é necessário preencher um formulário em triplicado, apresentar comprovativo de rendimento emocional e aguardar um despacho.

A rapariga europeia, essa, sorri. Talvez não saiba da premência de justif**ar a alegria. Talvez tenha vindo de um país onde uma fotografia é apenas uma fotografia. Os portugueses, pelo contrário, sabem ser a fotografia um documento para ajuizar aos olhos dos outros: a opinião dos outros, a jocosidade, o escárnio, a sentença e a condenação.

Apenas porque sim.

Talvez por isso o homem à direita sorria apenas com metade da boca. A outra metade está ocupada a antecipar o inevitável.

O homem à esquerda parece perguntar à câmara: “É mesmo preciso?”

A mulher ao lado dele não pergunta nada. Já sabe.

A mulher europeia sorri.

E nós, portugueses, olhamos para ela com a ternura de quem olha para alguém ainda ignaro do rombo neste barco.

Porque nascer português é abrir os olhos e procurar de imediato a desgraça. Onde está? Na cozinha? No telemóvel? No banco? No joelho? No mundo?

E se não a encontrarmos, esperamos.

É uma questão de tempo.

O homem da direita olha para a câmara.

E, durante um segundo, estão vivos.

Não felizes. Isso seria pedir demais.

Vivos, e estar vivo é o mais estranho disto tudo.

Porque a vida, vista de perto, não é uma fotografia de pessoas sorridentes, é esta mesa, estas mãos, estes olhos, um corpo inclinado sobre outro corpo, uma pessoa fora do enquadramento, o carro a passar lá atrás, uma sombra, a conversa por ouvir ou então uma não-conversa, o silêncio, o café tão frio como este meio-sorriso só para o retrato.

Quatro pessoas sentadas numa esplanada.

Uma delas europeia.

Três portugueses.

E, durante o tempo exacto do disparo, ninguém morreu.

Talvez seja pouco.

Talvez seja tudo.

Sorrir porquê?

Rir para quê?

Não sei quando nascer português é acordar todas as manhãs num filme de terror onde o monstro tem sempre o mesmo rosto e esse rosto, ao passarmos diante do espelho, parece-se connosco.

© João André Costa, Agosto de 2026

O Andy não é “legit” 24/07/2026

O Andy não é “legit”

“Legit”: calão característico das escolas do sul de Londres, e quem diz escolas diz os alunos, mais precisamente os meus alunos, céleres e perspicazes em identif**ar algo como “legit”, ergo legítimo, verdadeiro e honesto.
O oposto é “fake”, falso, uma cópia ou então um produto de contrafação.
Se este léxico corresponde, por norma, às roupas e apetrechos usados e exibidos pelos catraios no dia a dia, o mesmo é aplicável a Andy Burnham, “aka” (“also known as”) Andy.
Isto porque na eventualidade de Andy Burnham entrar em Downing Street sem uma eleição geral, fá-lo-á pela porta constitucional e pela janela política.
Se a lei assim o permite, já o mandato popular não.
Os ingleses votaram num partido, dir-me-ão. É verdade. Mas também votaram num rosto, numa voz, numa promessa específ**a: votaram por Keir Starmer, em Keir Starmer, com Keir Starmer.
Ao mesmo tempo, o sistema parlamentar britânico aceita a mudança de liderança a meio caminho.
E a Constituição, nem por isso redigida, não se escandaliza.
Já os eleitores não podem dizer o mesmo: os eleitores possuem memória, ressentimento, expectativas, às quais se junta esta sensação de terem trocado o cavalo a meio da corrida.
Vejo os jornais conservadores a exigir eleições antecipadas. Vejo comentadores falarem de uma coroação. Vejo a palavra “mandato” repetida como um sino de uma igreja a dar as badaladas da meia-noite, e já não sei se a anunciar um novo dia, se a exigir um outro mundo numa realidade paralela.
E compreendo a inquietação. Um primeiro-ministro sem o ajuizar das urnas carrega sempre uma sombra atrás de si. Uma sombra a crescer não só ao final da tarde, mas em função de todas as decisões.
Resultado prático: se Burnham convocar eleições rapidamente, poderá obter a legitimidade em falta e o selo de aprovação dos eleitores.
E “poderá” é o termo certo na ausência da certeza vigente quando as sondagens dos últimos meses mostram um país cansado, dividido e inquieto.
E a inquietude reflecte-se no Reform à frente nas sondagens enquanto Trabalhistas e Conservadores disputam um distante segundo lugar, a ponto de transformar uma eleição antecipada numa aventura de consequências imprevisíveis.
E neste campo Nigel Farage é um mestre na interpretação da política moderna como abandono. O abandono das cidades industriais, o abandono dos subúrbios e dos lugares onde as montras fechadas multiplicam-se como dentes perdidos numa boca envelhecida. O abandono das populações, das condições de vida, do emprego condigno e da habitação condigna.
O abandono da educação, da saúde e do futuro.
Existe uma raiva disponível. Uma raiva à procura de quem a dirija.
E aqui surge o paradoxo. Os mesmos a exigirem eleições para legitimar Burnham podem estar a legitimar Farage no poder.
Entretanto, o Reino Unido prepara-se para receber o sétimo primeiro-ministro em apenas uma década. Sete. O número parece saído de um romance sobre uma família incapaz de permanecer sentada à mesma mesa durante o jantar.
A instabilidade tornou-se rotina. A excepção transformou-se em hábito.
E no meio desta dança das cadeiras, Burnham com a herança de um mandato, nem por isso seu.
Entre um primeiro-ministro sem legitimidade directa e uma eleição capaz de entregar o poder à direita populista, o Reino Unido encontra-se suspenso num corredor estreito e mal alumiado, sem saber qual das duas portas conduz à saída e qual conduz apenas a outra divisão da mesma casa em ruínas.
E talvez seja este o retrato do Reino Unido contemporâneo: um país desesperadamente à procura de um condutor enquanto discute se o veículo ainda tem travões.

© João André Costa, Julho de 2026

O Andy não é “legit” Os ingleses votaram num partido, dir-me-ão. É verdade. Mas também votaram num rosto, numa voz, numa promessa específ**a: votaram por Keir Starmer, em Keir Starmer, com Keir Starmer.

Photos from Crónicas de um átomo's post 19/07/2026

Hoje somos todos Espanha

Aqui vai uma admissão. Não, antes confissão, diante do padre e depois da missa: este meu ódio aos espanhóis não é só bacoco e infantil, mas irracional e, portanto, injustificável e inadmissível.

Não nestes tempos, não neste mundo onde o amor entre os povos é primordial se queremos sobreviver como espécie.

Por tal, vá lá alguém perceber este raiva ancestral sem qualquer origem ou razão de ser.

Porque sim. Por causa do vento.

Não veio da escola. A escola nunca ensinou História, ensinou datas cantadas de cor sobre reis e rainhas, batalhas, vitórias e tratados. Empinávamos tudo para despejar na folha e esquecer no dia a seguir.

Também não veio de casa e os ressentimentos ibéricos não tinham lugar à mesa.

Nasceu comigo.

Só pode.

Talvez a herança de duas ou três vidas anteriores, findas entre Aljubarrota e Olivença ao longo dos séculos.

Ou talvez tenha sido enganado num negócio de pipas de azeite, ou, quem sabe, um b***o, o dinheiro ainda hoje por haver e o b***o sou eu.

Porque de resto não encontro outra explicação para esta antipatia de sempre, primitiva, ancestral, genética.

Mas como, se até amigos espanhóis tenho? E apesar de admirar cidades, escritores e pintores, nada disso resolve o problema. O problema não é racional. É visceral. Basta ouvir um sotaque castelhano e uma parte remota do meu cérebro começa a rufar tambores medievais.

E o embaraço é tanto maior quando ninguém me acompanha nesta demanda e nesta peleja. Sou motivo de chacota permanente. Amigos e família riem-se desta cruzada imaginária, como se eu fosse o último resistente de uma guerra terminada há séculos. Dizem-me para crescer, urgentemente, e a Península já não é um campo de batalha. Se o intelecto anui, o resto de mim recusa-se e pede para morrer de pé.

Mais: este meu ódio nem sequer é correspondido do lado de lá da raia. Os espanhóis de hoje não nos odeiam. Na verdade, nem sequer pensam em nós. Vivem as suas vidas na tranquilidade ignara de quem mora numa casa tão grande a ponto de se esquecer deste pequeno vizinho do outro lado da parede.

Eu, pelo contrário, cresci com a Espanha permanentemente instalada na periferia do cérebro. Sei-lhes as cidades, os clubes, os políticos, as regiões e os dialectos. Eles, muitas vezes, sabem apenas de um país algures encostado ao Atlântico e cujo nome foge da ponta da língua quando não estão a olhar para o mapa.

O nosso duelo é um monólogo. Uma peça de teatro na qual um dos actores entra em palco cheio de emoção e o outro nem sequer sabe haver espetáculo.

Há ainda outro fenómeno inexplicável: o português nasce convencido do seu domínio do castelhano. Não é preciso aprender. Não é preciso estudar. Basta atravessar a fronteira e ligar o interruptor invisível do portunhol. Acrescenta uns “pues”, troca meia dúzia de terminações e acredita, com uma confiança enternecedora, ser bilingue. E fala. Fala inevitavelmente. Fala porque acredita falar e do lado de lá é gloriosamente entendido.
Os espanhóis, em contrapartida, são incapazes de perceber, ou sequer balbuciar, o português.

É uma metáfora perfeita da Península.

Nós passamos a vida a olhar para a Espanha. Eles passam a vida a olhar para o resto da Europa. Enquanto a Espanha discute a França, Alemanha ou Itália, nós continuamos aqui, na ponta da fotografia, encostados ao Atlântico.

E depois há o insulto máximo. O pecado sem absolvição.

Viajamos milhares de quilómetros, fazemos um esforço heróico para explicar de onde vimos e, inevitavelmente, alguém sorri e diz:

“Ah… Espanha.”

Não há português incapaz de não sentir uma pequena morte nesse instante.

Felizmente, há dias nos quais a realidade vence a obsessão.

Hoje é um deles.

É a mais improvável das alianças. Não nasce da simpatia. Nem da fraternidade. Nem sequer do perdão.

Nasce apenas da convicção de haver momentos onde é mais importante a dignidade dos povos.

E de outro modo não podia quando Sánchez decidiu ser um aliado não um vassalo e uma democracia não se mede na obediência cega a quem mais grita na sala.

Numa era onde tantos líderes confundem firmeza com servilismo, houve um chefe de governo a dizer “não” na convicção de quem quer continuar a olhar de frente para toda a nação. A sua nação. A nação de todos nós.

Porque a liberdade dos povos não começa nas grandes declarações, começa precisamente na possibilidade de um país, grande ou pequeno, escolher o seu caminho sem pedir licença ao império vigente.

E se a Espanha vencer esta noite, a reverência virá de Trump, obrigado a sorrir enquanto estende a mão e entrega o troféu ao justo vencedor.

Por isso, e apenas hoje, por uma noite só, anseio pela vitória da Espanha.

Amanhã volto ao normal. Prometo.

© João André Costa, Julho de 2026

Photos from Crónicas de um átomo's post 17/07/2026

Um ministro aos papéis

Julho. O calor dobra as árvores e derrete o alcatrão enquanto milhares de jovens esperam por uma nota capaz de resumir dezoito anos de existência mais a cidade onde irão viver, a profissão escolhida e a vida.
Coisa pouca, portanto.
Não obstante (tambores a rufar), os exames nacionais descobriram uma nova forma de ansiedade: já não basta responder às perguntas, agora é preciso esperar, e já agora rezar, pela entrega dos exames na sua integridade a quem os corrige.
Chamaram-lhe modernização. Os exames passaram para uma plataforma digital e, de repente, os classif**adores encontraram respostas incompletas, páginas com destino incerto, acessos interrompidos, prazos prolongados como roupa esquecida no estendal.
Não foi a tecnologia a falhar. Foi aquela velha convicção portuguesa de bastar inaugurar uma ponte para acreditar como a estrada já existe.
Porque as máquinas não respeitam decretos e os sistemas informáticos não se convencem em função de conferências de imprensa. A tecnologia tem uma qualidade profundamente incómoda: funciona apenas quando foi preparada para funcionar.
Em contracorrente, do outro lado do Canal da Mancha, as provas continuam a ser escritas em papel. Depois viajam para centros onde são digitalizadas página a página. Cada resposta transforma-se numa imagem e o corrector já não recebe um molho de exames de um único aluno, mas uma pergunta apenas. E centenas de vezes a mesma pergunta. Torna-se especialista naquele pedaço minúsculo do programa.
Se a classif**ação foge do padrão esperado, o sistema avisa. Se há discrepâncias, outro corrector revê. As somas fazem-se sozinhas. E os exames não desaparecem entre duas secretárias.
Não aconteceu de um ano para o outro. Começou discretamente no início deste século, quando ainda havia quem visse na leitura de respostas num ecrã uma heresia pedagógica. Vieram testes-piloto, anos de experimentação, falhas corrigidas sem alarmismo, investimento constante, formação de classif**adores, aperfeiçoamento dos programas. Mais de vinte anos depois, ninguém discute a existência do sistema. Discutem-se apenas as notas.
Talvez seja essa a diferença menos tecnológica de todas.
Nós apaixonamo-nos pelo momento da inauguração. Gostamos da fotografia, da fita cortada, do ministro a sorrir diante de um ecrã onde tudo parece funcionar porque ninguém carregou ainda no botão errado. Os ingleses, na sua falta de romantismo, apaixonam-se antes pelo manual de instruções. Experimentam. Repetem. Corrigem. Voltam atrás. Há qualquer coisa de profundamente enfadonha nesta perseverança. E no enfado o sucesso.
Viva o enfado!
Antes o enfado!
Há uma espécie de lirismo nacional na improvisação, herdada sabe-se lá de onde. Talvez das caravelas, talvez das vindimas, talvez da convicção de como, no último instante, aparecerá sempre alguém suficientemente engenhoso para resolver as faltas dos outros. Se durante muito tempo essa habilidade salvou-nos, hoje tornou-se um método. Um método baseado em excepções a produzir excepções em série.
É propositado. Porque enquanto produzimos excepções, desacreditamos sistemas públicos em favor do privado num país a caminhar a passos largos para um futuro onde quem tem posses vai para as universidades privadas, quem tem ainda mais posses detém as universidades privadas e quem nada tem oferece a rendição, subjugado e sujeito às condições impostas. Isto no caso de haver condições...

© João André Costa, Julho de 2026

Photos from Crónicas de um átomo's post 11/07/2026

Carta aberta a Inês de Medeiros

Cara Inês de Medeiros,

Escrevo-lhe porque a distância assim o obriga, a qual às vezes é a única forma de estar perto.
Da Inglaterra, onde vivo há quase vinte anos, olho para um mapa conhecido de cor, o mapa da Caparica. Não pelo nome das ruas, mas pelo cheiro das manhãs mais o sal a secar na pele muitos anos antes da palavra saudade tomar o seu lugar.
E pela saudade regresso todos os Verões. Porque há lugares onde passamos férias e há lugares aonde voltamos para nos lembrarmos de quem somos: a Caparica onde nasci, onde cresci, onde aprendi como o mar tem dias como um longo abraço e dias onde castiga, e nunca sem trair.
O mar diz-nos sempre a quanto vem.
Acreditei durante muitos anos morrer ali. Não hoje, não amanhã, mas um dia qualquer, sentado na varanda ao fim da tarde, a ver o sol mergulhar no Atlântico com a serenidade de quem já não tem pressa.
Um fim tão simples a ponto de caber inteiro numa cadeira de plástico.
Depois veio a água. Ou a falta dela.
É estranho escrever esta frase. A água devia ser um facto, e não uma personagem. Devia correr nas to****ras com a mesma discrição do sangue nas veias. Ninguém pensa nela enquanto existe. Só damos pela sua importância quando desaparece.
No ano passado começaram os cortes. Regressávamos da praia cobertos de sal e cansaço, felizes como só se é depois de um dia inteiro de mar. Rodava-se a to****ra e silêncio. Um silêncio metálico, cruel. Não podíamos tomar banho. Não podíamos cozinhar. Não podíamos lavar a areia dos pés das crianças nem o sal colado à pele como uma segunda pele. Esperava-se. Dez da noite. Onze. Meia-noite. Uma da manhã. Às vezes voltava. Outras vezes voltava apenas a esperança do dia seguinte.
E o mais absurdo era isto: começámos a recear ir para a praia. Medo de mergulhar porque talvez não houvesse água para lavar o mar do corpo.
Este ano nem isso.
O Verão acabou antes de começar.
Não é uma figura de estilo. É uma constatação. E não é nem um contratempo, nem um azar, não é excepção, mas rotina: não há água.
E apesar dos voos comprados e das malas feitas, este ano não volto a casa: as férias não serão em Portugal e muito menos na Caparica.
Pela primeira vez, não porque não tenha saudades, mas porque as saudades, infelizmente, não enchem depósitos nem fazem correr to****ras.
Ou talvez encham se convertermos todas as saudades em lágrimas de mar.
A minha família só me volta a ver no Natal.
Se no Natal houver água.
Os amigos, guardados na memória como se nos tivéssemos abraçado ontem, terão de esperar mais um ano.
Se a água voltar.
O mar, o mesmo mar aqui tão longe a entrar sem licença quarto dentro tantas noites, terá de esperar mais um ano.
Se a água voltar.
Em terras de Sua Majestade trabalho o ano inteiro, doze horas por dia, de segunda a sexta, domingos de manhã incluídos, para poder voltar a casa por três semanas.
E custa-me dizê-lo.
Porque a Caparica nunca me expulsou.
Foi a sede quem o fez.
Por isso esta missiva como um simples pedido a quem governa: normalidade.
Água.
Só isso.
Não é pedir muito.
Água: essa pequena palavra capaz de ocupar quase nada na boca, quase tudo na vida.
Porque um concelho sem água perde dignidade, perde moradores, turistas, comércio, confiança e, por fim, filhos a adiar para sempre o tão ansiado regresso.
Como eu.
Talvez um dia volte a sentar-me naquela varanda de frente para o mar. Talvez volte a acreditar ter ali o meu último pôr do sol, onde tudo começou. Mas, neste momento, a Caparica parece um velho álbum de fotografias: continua inteira nas imagens e cada vez mais distante da realidade.
E para quem trabalha onze meses em nome de um Verão por acontecer, a vontade é só uma: não mais regressar. E f**ar em Inglaterra, onde a vida é em tudo melhor. Não é difícil, basta abrir a to****ra.

© João André Costa, Julho de 2026

Photos from Crónicas de um átomo's post 04/07/2026

E nunca mais voltaste à Caparica

Há casas nem por isso feitas de paredes. Não são casas, antes uma maneira de voltar depois de um ano inteiro à espera de um Verão inteiro condensado na curva da estrada quando a arriba desaparece e o Atlântico, paciente, inerte e eterno celebra o teu regresso.

E aquela casa na Costa de Caparica (de e não da) um regresso ao princípio, ao lugar onde a infância ainda mora escondida nas persianas de madeira, no cheiro da maresia entranhado nas toalhas, na areia a entrar contigo casa adentro como um cão fiel.

Um dia, dizias para ti mesmo, quando o tempo deixasse de correr atrás de ti e começasse finalmente a caminhar ao teu lado, seria ali o destino dos últimos anos. Os últimos livros. Os últimos cafés. Os últimos pores do sol na varanda. O fim da vida não te assustava conquanto tivesses o mar à janela.

Mas e se uma casa morrer antes de tempo? Não porque o sal rói as paredes, mas por não ser possível nela habitar. Basta, para tal, uma to****ra aberta e dentro de si este silêncio metálico, um silêncio a querer rir-se da tua ingenuidade. E nunca pensaste ser o mais triste de uma casa a ausência de água.

Na Costa de Caparica a água tornou-se uma visita incerta. Uns dias chega, noutros desaparece, e sempre sem aviso ou anúncio prévio.

As roturas sucedem-se, a rede envelheceu e o Verão continua a multiplicar pessoas e necessidades como se cada turista trouxesse consigo mais uma sede para juntar às outras. Se a Câmara de Almada e os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) reconhecem um problema de anos, entre reparações sucessivas e promessas de investimento pouco mais fazem para além de correr atrás da próxima rotura e nunca à frente dela.

Entretanto, a vida espera. Desespera.

Nas redes sociais repetem-se fotografias de to****ras secas, autoclismos por funcionar, restaurantes obrigados a fechar mais cedo, cafés sem poder servir um simples galão porque nem uma chávena conseguem lavar, famílias a ver passar as horas sem saber se podem tomar banho, idosos a encher baldes quando a água aparece, sem esquecer os alojamentos onde hóspedes prometem não mais voltar e ninguém sabe responder sem encolher os ombros.

O gesto mais português de todos continua a ser esse: encolher os ombros como quem pede desculpa quando a culpa não é sua.

É estranho viver numa terra rodeada de oceano e ter sede. Mais estranho ainda é perceber como a sede não é um fenómeno natural, ao invés o resultado da incapacidade de suprir este bem elementar, básico e universal.

Conheces quem tenha comprado depósitos de mil litros. Conheces quem tenha instalado bombas, mangueiras, sistemas improvisados para sobreviver aos caprichos de uma infraestrutura há muito por substituir.

E enquanto olhas para aqueles reservatórios azuis, enormes, pousados nos quintais como animais domésticos de uma nova espécie, ocorre-te ser esta a verdadeira fotografia do país: não a praia cheia. Não o pôr do sol partilhado nas redes, mas um depósito de plástico onde antes habitava uma to****ra.

E o problema não é a existência de depósitos: o problema é ver os mesmos depósitos como bens obrigatórios a poucos quilómetros da capital.

É uma inversão completa do contrato social. Em vez de o cidadão exigir o funcionamento de um serviço público, o mesmo cidadão adapta a casa para sobreviver à falha do serviço público. A responsabilidade muda de lugar e ninguém dá por isso. O abastecimento deixa de ser um direito garantido e passa a ser uma engenharia privada: quem tem dinheiro compra um depósito, uma bomba e um canalizador, e quem não tem dinheiro espera pela água.

Dizem dos portugueses serem um povo paciente, mas tu não concordas. Uma coisa é paciência, outra é resignação. Queixamo-nos à noite nas redes sociais, escrevemos ser isto uma vergonha, multiplicamos comentários indignados, distribuímos culpas por políticos, empresas e autarquias, e tudo isto para acordar na manhã seguinte e comprar mais um depósito de água.

Adaptamo-nos. Acomodamo-nos. Fazemos da excepção uma rotina. Como se sobreviver fosse suficiente.

Haja saúdinha.

E esta atitude, ou falta dela, tranquiliza quem decide. Um povo a protestar sentado não incomoda ninguém. Um povo capaz de resolver sozinho os problemas da competência do Estado torna o incumprimento numa poupança. E cada depósito comprado é uma manifestação por acontecer.

Os governantes agradecem em silêncio. Não precisam de dizer nada. Basta-lhes esperar enquanto a indignação segue o mesmo caminho da água: aparece por momentos para desaparecer logo a seguir.

Continuas a ir à Costa porque há afectos capazes de resistir à lógica. Abres as janelas, escutas o mar e imaginas a vida por viver. Depois olhas para a cozinha antes de desfazeres a mala. Não procuras a vista. Procuras a to****ra enquanto fantasias um copo de água ou um simples lavar das mãos.

E o tempo de abrires a to****ra na ausência de água é o tempo de pegar na mala e bater com a porta na certeza de nunca mais voltar à Caparica.

Não assim.

© João André Costa, Julho de 2026

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