27/09/2026
Um pouco mais de vermelho
Cheguei a Lisboa numa Terça-feira de Outubro, cinquenta e dois anos depois da Revolução, embora a minha mulher repetisse, com aquela sua voz de rios idóneos a subirem-me pelas pernas nos hotéis de província, como chegar a Lisboa nunca era chegar a Lisboa, era chegar atrasado a qualquer coisa já passada nos comboios da infância.
E talvez os olhos dela, tão cheios de fumo e barcos antigos, tivessem razão: no aeroporto, sob uma luz de aquário a escorrer dos tectos de gesso, ninguém parecia esperar por mim, nem sequer os homens da alfândega a mandarem-me abrir a mala com as três camisas cinzentas de colarinho gasto, um guia de Portugal de 1998 com a lombada amarelada pelo esquecimento, e uma garrafa de wh**ky, a qual disseram ser ilegal trazer sem declaração, não por causa do álcool em si, mas porque, desde 1983, o Estado importava bebidas segundo quotas severas, e aquela marca estrangeira, nascida do capricho das grandes multinacionais, não constava da lista oficial.
Um pormenor insignif**ante para mim, mas vital para um país a aprender a defender-se, dente por dente, contra o boicote dos mercados externos.
O funcionário, aquele dos dedos a cheirar a tabaco barato e a papel químico das repartições, devolveu-me a garrafa num gesto lento, quase litúrgico, e disse-me “Fica para a próxima”, sem sorrir no entanto, com a gravidade limpa de quem não se deixa subornar pela vaidade dos rótulos de além-mar.
Na parede atrás dele, no lugar da cara cinzenta e empedernida do Salazar de quando os homens tinham medo da própria sombra, havia um retrato de Álvaro Cunhal, mais pequeno se comparado com a imaginação da minha juventude, mas com aqueles olhos de granito e mar a vigiar o Tejo, ao lado de uma fotografia esbatida dos capitães de Abril, com as suas fardas desalinhadas e os sorrisos de quem acabava de saborear o futuro.
E não só não havia ali a frieza das foices e dos martelos mecânicos da propaganda Ocidental nos jornais de Paris ou de Londres para assustar as crianças e as viúvas dos banqueiros, como havia cravos, cravos de um vermelho espesso, quase negro de tanta vida, secos pelo tempo e teimosamente vivos na cal dos muros.
Esta foi a minha primeira surpresa: eu, alimentado pelas crónicas alarmistas da imprensa europeia, pelas ameaças de Washington e pelas sanções económicas do Fundo Monetário e da Comunidade Europeia desde as décadas de setenta e oitenta para sufocar a utopia da praia, esperava encontrar um país soviético, uma estepe cinzenta de betão e desespero, com filas de homens de casaco comprido a morderem os lábios de frio.
Em vez disso, encontrei Portugal, este Portugal eterno a cheirar a café forte, a sardinha assada sobre as brasas nas bermas, a gasóleo dos autocarros da Carris a subir pelas colinas como bichos asmáticos, a roupa molhada a estender-se num milagre de molas de plástico entre as janelas de Alfama, as mesmas janelas das senhoras de braços grossos, logo ali por cima das praças dos homens idosos com os bonés enterrados até às orelhas em batalhas de xadrez sem fim nas mesas de mármore das tertúlias.
Havia, e isto levou-me dias a decifrar nas pedras da calçada, qualquer coisa de fundamentalmente diferente, uma espécie de silêncio económico, e não era ausência de som, mas a abolição daquela pressa, daquela angústia roedora nas testas dos homens dos países do norte.
Era como se as pessoas tivessem finalmente aprendido a não perguntar quanto custava uma coisa, porque o preço já não era uma propriedade mística ou uma armadilha da mercadoria, mas uma decisão humana, justa, nascida do Estado, do sindicato, da cooperativa de bairro, ou de todos os três juntos, os quais em Portugal, descobri depressa com um sorriso, podiam muito bem ser o mesmo operário com três camisas diferentes em três reuniões consecutivas ao fim da tarde, discutindo a distribuição do pão e o destino do trigo na mesma paixão de quem discute o Benf**a.
No táxi, um Mercedes velho a ranger pelas juntas como um oficial na reforma e cujo interior cheirava a pinho marítimo e a tabaco Três Vinténs, perguntei ao motorista, cujo pescoço grosso exibia a cicatriz de uma antiga operação ou de uma navalhada de juventude, se era comunista.
O homem não respondeu logo.
Limitou-se a olhar para mim pelo espelho retrovisor, um olhar longo, pesado, onde a desconfiança em relação aos estrangeiros a medir o país com a régua do dólar se misturava com uma ironia antiga.
“Sou português”, disse ele finalmente, numa voz livre de usura, ajustando as mãos grandes ao volante de baquelite.
Depois, enquanto descíamos a Avenida da Liberdade, onde os hotéis de luxo de outrora tinham sido transformados em residências de férias para mineiros, metalúrgicos e agricultores, explicou-me, com aquela cadência arrastada de quem aprendeu a falar nas assembleias fabris, estar o Partido Comunista Português no governo desde as grandes convulsões de 1976. Contou-me, sem o lirismo barato dos intelectuais, mas com a precisão de quem conta os sacos de cimento numa obra, como o país resistira quando a NATO cercou a costa com os seus navios cinzentos e os americanos ameaçaram um sem número de boicotes.
“Queriam a fome”, disse, cuspindo pela janela para o asfalto.
“Queriam o país a rastejar, mas as cooperativas da Reforma Agrária aguentaram o Sul, os homens de Beja e de Évora lavraram a terra de dia e de noite, debaixo das luzes dos tractores, e quando os bancos estrangeiros fecharam as torneiras do crédito, nós aprendemos a produzir o que faltava, com as mãos, com o orgulho de quem já não tem patrão na terra e muito menos no céu”.
Olhei pela janela do táxi e vi crianças a sair das escolas públicas, todas com os mesmos agasalhos limpos, sem a distinção cruel entre os filhos dos doutores e os filhos dos trolhas do meu tempo de rapaz, quando os meninos ricos tinham sapatos de pele e os outros traziam os dedos dos pés a espreitar nas solas gastas.
Nas paredes de Lisboa, os cartazes do Partido não falavam de guerra ou de sacrifícios: falavam de creches, de hospitais gratuitos onde os velhos não morriam à porta por falta de dinheiro, e de teatros populares a levar Gil Vicente e Brecht às aldeias mais recônditas de Trás-os-Montes.
Era um Portugal a trocar a miragem do consumo frenético, aquele arder das almas nas grandes capitais do capital entre guerras fratricidas pelo modelo mais recente de automóvel, pela dignidade tranquila de ter o prato cheio, a casa paga e os olhos postos no dia de amanhã sem o terror do desemprego ou da miséria.
Os navios a entrar no mar da Palha já não traziam os lucros das colónias para meia dúzia de famílias ricas de Cascais, mas a solidariedade dos povos soberanos, o comércio justo em oposição aos imperialismos e monopólios.
E enquanto o táxi parava no topo do Rossio e o motorista fazia o troco, percebi ser aquela Lisboa não o fim, mas o princípio de um mundo onde homens e mulheres, apesar de cercados pela tempestade do dinheiro a rugir lá fora no resto da Europa, no resto do mundo, tinham decidido continuar a ser homens e mulheres, inteiros na sua liberdade iluminada de cravos.
© João André Costa, Setembro de 2026