08/08/2026
Farage contra o Conde Cara-de-Caixote e o resto do mundo
Em Clacton, onde o mar parece ter sido posto ali por alguém esquecido de acabar a paisagem, Nigel Farage decidiu fazer das suas: demitir-se para voltar a candidatar-se ao lugar acabado de abandonar.
Como se um político pudesse sair de uma sala, fechar a porta, voltar a entrar e esperar todos fingirem ser esta uma nova entrada e não a mesma num casaco diferente.
Há qualquer coisa de infantil nesta política nem por isso épica: Farage olha para Clacton e vê o povo contra o sistema instalado, a coragem contra os burocratas, a liberdade contra os homens de gravata cujo único dever é fazer mais dinheiro; o eleitor olha para Clacton e vê apenas uma cédula com trinta e quatro nomes, alguns dos quais mais parecem ter sido inventados por uma criança sem paciência para escrever.
A eleição foi marcada para 13 de Agosto e tem um número recorde de candidatos. Farage é um deles. Os outros trinta e três são Joseph 77, Adham Alkhatip, Count Binface, Nick The Incredible Flying Brick, Tony Cane, Woke Trump Carrzee, William Stuart James Clouston, Rees Cowne, Glenn Charles Cummings, Martin Davies, Attieh Fard, Laurence Fox, Tony Francis, Robin Green, Abi Hookway, Howling Laud Hope, Stephen Richard Ingram, Amy Morris, Derrick Norbert Morris, Michael Noel O’Keeffe, Martyn OBrien, Nick Pelas, Ketankumar Pipaliya, Daniel Pocock, James Ransley, Gerry Smith, Kai Stephens, John Stevens, Baron Von Thunderclap, Pamela Walford, Marcus White e Marc Wilkinson.
Há três candidatos do Official Monster Raving Loony Party, um partido reflexo de uma democracia demasiado tempo ao sol.
Os grandes partidos decidiram não concorrer. Farage queria uma batalha contra o sistema e o sistema respondeu-lhe com a elegância de quem não aparece à festa. E de repente, este D. Quixote vê-se desprovido de moinhos, moinhos esses substituídos por uma procissão de independentes e um indivíduo com um caixote do lixo na cabeça.
Este último indivíduo dá pelo nome de Count Binface, ou, traduzido à letra, Conde Cara-de-Caixote.
Por baixo do caixote está Jonathan Harvey, comediante, escritor e produtor, um homem consciente desta política tão absurda a ponto de bastar enfiar um balde do lixo na cabeça para de imediato ser mais elegível aos olhos dos eleitores.
Harvey começou por ser Lord Buckethead (Lorde Cabeça-de-Balde), enfrentou Theresa May, mudou de personagem depois de problemas de direitos de autor e renasceu como Count Binface, guerreiro espacial, líder dos Recyclons, habitante do planeta Sigma IX, criatura com uma biografia de quase seis mil anos e uma saudável relação com o ridículo quando comparado com a exuberância do parlamento.
Se o político profissional pede para o levarem a sério, Count Binface responde, questionando a seriedade de quem, depois de uma birra diante dos jornalistas, abandona o lugar para voltar a disputá-lo.
Para Farage, ganhar esta eleição é ganhar a absolvição do eleitorado, deste modo transformando a investigação sobre os milhões recebidos e os apoios não declarados numa narrativa de perseguição.
Mas tem mais a perder se perder numa eleição cuja responsabilidade é apenas sua e onde desculpas como uma maré adversa ou um dia de chuva não encontram lugar diante da porta de saída.
Mesmo uma vitória esmagadora poderá trazer uma nota de rodapé amarga: ganhou sem a oposição dos grandes partidos, esses sim, os verdadeiros adversários.
E depois temos Count Binface.
Não, provavelmente Count Binface não vai ganhar. A política britânica tem uma longa tradição de permitir o absurdo no boletim de voto e uma tradição ainda mais longa de o deixar sair sem ocupar o Parlamento.
O seu melhor resultado foi em Londres, em 2021, quando obteve 92 896 votos na eleição para a Presidência da Câmara.
No fundo, a eleição de Clacton é a caricatura da democracia moderna: de um lado, um candidato a pedir para o levarem a sério, do outro, um candidato ciente de como ninguém é levado a sério seguido de trinta e dois outros candidatos e o eleitor diante do boletim à procura de quem lhe permita continuar a acreditar estar a escolher alguma coisa.
E num palco montado por Farage e mais ninguém para além de Farage, independentemente da vitória ou da derrota, ninguém poderá esquecer esta batalha histórica no fim da qual um político acabou a discutir com um caixote do lixo.
© João André Costa, Agosto de 2026
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