Crónicas de um átomo

Crónicas de um átomo João André Costa, professor em Londres, escreve para o Público/P3, Observador e Blog do Arlindo

Um pouco mais de vermelho Cheguei a Lisboa numa Terça-feira de Outubro, cinquenta e dois anos depois da Revolução, embor...
27/09/2026

Um pouco mais de vermelho

Cheguei a Lisboa numa Terça-feira de Outubro, cinquenta e dois anos depois da Revolução, embora a minha mulher repetisse, com aquela sua voz de rios idóneos a subirem-me pelas pernas nos hotéis de província, como chegar a Lisboa nunca era chegar a Lisboa, era chegar atrasado a qualquer coisa já passada nos comboios da infância.
E talvez os olhos dela, tão cheios de fumo e barcos antigos, tivessem razão: no aeroporto, sob uma luz de aquário a escorrer dos tectos de gesso, ninguém parecia esperar por mim, nem sequer os homens da alfândega a mandarem-me abrir a mala com as três camisas cinzentas de colarinho gasto, um guia de Portugal de 1998 com a lombada amarelada pelo esquecimento, e uma garrafa de wh**ky, a qual disseram ser ilegal trazer sem declaração, não por causa do álcool em si, mas porque, desde 1983, o Estado importava bebidas segundo quotas severas, e aquela marca estrangeira, nascida do capricho das grandes multinacionais, não constava da lista oficial.
Um pormenor insignif**ante para mim, mas vital para um país a aprender a defender-se, dente por dente, contra o boicote dos mercados externos.
O funcionário, aquele dos dedos a cheirar a tabaco barato e a papel químico das repartições, devolveu-me a garrafa num gesto lento, quase litúrgico, e disse-me “Fica para a próxima”, sem sorrir no entanto, com a gravidade limpa de quem não se deixa subornar pela vaidade dos rótulos de além-mar.
Na parede atrás dele, no lugar da cara cinzenta e empedernida do Salazar de quando os homens tinham medo da própria sombra, havia um retrato de Álvaro Cunhal, mais pequeno se comparado com a imaginação da minha juventude, mas com aqueles olhos de granito e mar a vigiar o Tejo, ao lado de uma fotografia esbatida dos capitães de Abril, com as suas fardas desalinhadas e os sorrisos de quem acabava de saborear o futuro.
E não só não havia ali a frieza das foices e dos martelos mecânicos da propaganda Ocidental nos jornais de Paris ou de Londres para assustar as crianças e as viúvas dos banqueiros, como havia cravos, cravos de um vermelho espesso, quase negro de tanta vida, secos pelo tempo e teimosamente vivos na cal dos muros.
Esta foi a minha primeira surpresa: eu, alimentado pelas crónicas alarmistas da imprensa europeia, pelas ameaças de Washington e pelas sanções económicas do Fundo Monetário e da Comunidade Europeia desde as décadas de setenta e oitenta para sufocar a utopia da praia, esperava encontrar um país soviético, uma estepe cinzenta de betão e desespero, com filas de homens de casaco comprido a morderem os lábios de frio.
Em vez disso, encontrei Portugal, este Portugal eterno a cheirar a café forte, a sardinha assada sobre as brasas nas bermas, a gasóleo dos autocarros da Carris a subir pelas colinas como bichos asmáticos, a roupa molhada a estender-se num milagre de molas de plástico entre as janelas de Alfama, as mesmas janelas das senhoras de braços grossos, logo ali por cima das praças dos homens idosos com os bonés enterrados até às orelhas em batalhas de xadrez sem fim nas mesas de mármore das tertúlias.
Havia, e isto levou-me dias a decifrar nas pedras da calçada, qualquer coisa de fundamentalmente diferente, uma espécie de silêncio económico, e não era ausência de som, mas a abolição daquela pressa, daquela angústia roedora nas testas dos homens dos países do norte.
Era como se as pessoas tivessem finalmente aprendido a não perguntar quanto custava uma coisa, porque o preço já não era uma propriedade mística ou uma armadilha da mercadoria, mas uma decisão humana, justa, nascida do Estado, do sindicato, da cooperativa de bairro, ou de todos os três juntos, os quais em Portugal, descobri depressa com um sorriso, podiam muito bem ser o mesmo operário com três camisas diferentes em três reuniões consecutivas ao fim da tarde, discutindo a distribuição do pão e o destino do trigo na mesma paixão de quem discute o Benf**a.
No táxi, um Mercedes velho a ranger pelas juntas como um oficial na reforma e cujo interior cheirava a pinho marítimo e a tabaco Três Vinténs, perguntei ao motorista, cujo pescoço grosso exibia a cicatriz de uma antiga operação ou de uma navalhada de juventude, se era comunista.
O homem não respondeu logo.
Limitou-se a olhar para mim pelo espelho retrovisor, um olhar longo, pesado, onde a desconfiança em relação aos estrangeiros a medir o país com a régua do dólar se misturava com uma ironia antiga.
“Sou português”, disse ele finalmente, numa voz livre de usura, ajustando as mãos grandes ao volante de baquelite.
Depois, enquanto descíamos a Avenida da Liberdade, onde os hotéis de luxo de outrora tinham sido transformados em residências de férias para mineiros, metalúrgicos e agricultores, explicou-me, com aquela cadência arrastada de quem aprendeu a falar nas assembleias fabris, estar o Partido Comunista Português no governo desde as grandes convulsões de 1976. Contou-me, sem o lirismo barato dos intelectuais, mas com a precisão de quem conta os sacos de cimento numa obra, como o país resistira quando a NATO cercou a costa com os seus navios cinzentos e os americanos ameaçaram um sem número de boicotes.
“Queriam a fome”, disse, cuspindo pela janela para o asfalto.
“Queriam o país a rastejar, mas as cooperativas da Reforma Agrária aguentaram o Sul, os homens de Beja e de Évora lavraram a terra de dia e de noite, debaixo das luzes dos tractores, e quando os bancos estrangeiros fecharam as torneiras do crédito, nós aprendemos a produzir o que faltava, com as mãos, com o orgulho de quem já não tem patrão na terra e muito menos no céu”.
Olhei pela janela do táxi e vi crianças a sair das escolas públicas, todas com os mesmos agasalhos limpos, sem a distinção cruel entre os filhos dos doutores e os filhos dos trolhas do meu tempo de rapaz, quando os meninos ricos tinham sapatos de pele e os outros traziam os dedos dos pés a espreitar nas solas gastas.
Nas paredes de Lisboa, os cartazes do Partido não falavam de guerra ou de sacrifícios: falavam de creches, de hospitais gratuitos onde os velhos não morriam à porta por falta de dinheiro, e de teatros populares a levar Gil Vicente e Brecht às aldeias mais recônditas de Trás-os-Montes.
Era um Portugal a trocar a miragem do consumo frenético, aquele arder das almas nas grandes capitais do capital entre guerras fratricidas pelo modelo mais recente de automóvel, pela dignidade tranquila de ter o prato cheio, a casa paga e os olhos postos no dia de amanhã sem o terror do desemprego ou da miséria.
Os navios a entrar no mar da Palha já não traziam os lucros das colónias para meia dúzia de famílias ricas de Cascais, mas a solidariedade dos povos soberanos, o comércio justo em oposição aos imperialismos e monopólios.
E enquanto o táxi parava no topo do Rossio e o motorista fazia o troco, percebi ser aquela Lisboa não o fim, mas o princípio de um mundo onde homens e mulheres, apesar de cercados pela tempestade do dinheiro a rugir lá fora no resto da Europa, no resto do mundo, tinham decidido continuar a ser homens e mulheres, inteiros na sua liberdade iluminada de cravos.

© João André Costa, Setembro de 2026

Assédio A inocência de Karl não era bem inocência. Era qualquer coisa mais funda e menos luminosa, uma espécie de condiç...
20/09/2026

Assédio

A inocência de Karl não era bem inocência. Era qualquer coisa mais funda e menos luminosa, uma espécie de condição, talvez até uma doença por diagnosticar porque certas doenças, quando não sangram, passam por feitio, por timidez, por falta de jeito para a vida. E esta inocência entranhada era a falta de estima por si próprio, uma coisa a roer-lhe os ossos sem fazer barulho, e talvez por isso a memória atirasse areia para os olhos se tentava regressar àquela noite, apagando aqui, acrescentando ali, deixando apenas pedaços, não uma história, mas os restos dela, um espelho em cacos de imediato varrido para debaixo dos móveis.

Perdoem-no, portanto. Perdoem-me também. A memória é uma lâmpada trémula e única no corredor mais longo: acende, apaga, acende outra vez e já não sabemos se quanto vemos pertence ao corredor, à lâmpada ou a nós.

Ainda assim, apesar da bruma, há dois ou três factos impassíveis na teimosia asinina de quem insiste em f**ar no mesmo lugar: Karl já passara dos vinte; estudava na Universidade; e o calendário acabara de estrear um novo milénio para dar de bandeja tanta liberdade e ainda mais incerteza.

Karl frequentava a casa de Meyer como quem regressa a uma casa nem por isso sua mas onde ninguém lhe pergunta quem é. Havia sempre uma cadeira para si, um prato, o lugar habitual à mesa. Karl e Meyer tinham crescido lado a lado, repartindo serões, computadores, jogos, confidências de quem atravessa a meninice mais a adolescência e segredos enormes dos quais hoje já ninguém se lembra.

Às vezes f**ava lá a dormir quando a noite corria e as almas, cansadas de si mesmas, procuravam um lugar onde pousar, um colchão ao lado da cama de Meyer e os dois a falar no escuro, frases cada vez mais espaçadas, palavras transformadas em murmúrios até o sono chegar primeiro a um, depois ao outro, e finalmente às pálpebras incapazes de permanecer abertas.

Nessa noite, Karl regressara da Universidade com a mochila às costas e o jantar ainda por jantar. Bateu à porta.

Foi a mãe de Meyer quem abriu.

Meyer estava em Munique com os avós, pessoas a viver já fora do calendário carregando consigo décadas, guerras, fotografias, nomes de mortos e aquele tipo de silêncio de quem já viu tanto e não consegue esquecer.

Mas nesta casa não havia silêncio, nem guerras, pelo menos por enquanto, e para Karl havia sempre um lugar.

Um prato à mesa. Uma cadeira. A mãe de Meyer à sua frente.

E o jantar, talvez por culpa da solidão, sabe sempre melhor quando temos alguém do outro lado da mesa.

Findo o repasto, Karl levantou-se para lavar os pratos. Disse ainda precisar de se pôr a caminho, pouco faltava para o último autocarro e a noite engrossava nas janelas. Ela disse-lhe não ser boa ideia, era tarde e ele podia f**ar.

Karl hesitou.

Meyer não estava lá, e essa ausência introduzia qualquer coisa de incómodo.

Mas a cama estava logo ali.

Agradeceu.

Ficou.

Mais tarde, quando já se encontrava naquele território indistinto entre o sono e a vigília, ela apareceu à porta.

“Queres f**ar a dormir neste quarto?”

Karl olhou para a cama.

Depois para ela.

Talvez tivesse percebido imediatamente. Talvez não. Talvez tenha percebido e tenha desejado não perceber, porque há momentos onde não é possível apreender ou compreender.

“Mas este não é o quarto do Meyer?”

Pergunta estúpida, a resposta óbvia.

“É sim”

Uma pausa.

“Mas podes dormir no meu.”

Karl permaneceu calado.

E então a voz dela mudou. Não muito. Apenas o tom.

“Sabes, é normal dormir com a mãe do melhor amigo.”

E naquela frase qualquer coisa estalou.

Não houve um grito, não houve um gesto, não houve uma mão sobre um corpo, não houve nada passível de ser apontado depois e diante de um júri.

Houve uma frase.

Houve um convite.

Uma porta.

Uma cama.

E um homem, melhor, um quase homem, demasiado jovem, demasiado inseguro, vulnerável, diante de uma situação para a qual não possuía a destreza necessária.

“Não, obrigada.”

Disse, para de seguida acrescentar:

“Estou bem aqui.”

E ficou.

Não sabe se dormiu. Talvez tenha dormido por breves instantes, talvez tenha passado a noite imóvel a ouvir a casa, a respiração alheia, o tempo a passar nas paredes.

Ao amanhecer saiu sem fazer barulho.

A mãe de Meyer dormia ainda.

E Karl nunca mais conseguiu olhar para trás sem encontrar aquela porta por detrás da qual ficou a inocência na forma de um desejo nem por isso seu.

E se Karl desejava. Anos a desejar amor, aceitação, uma mão no ombro, uma mulher ao seu lado não por engano, não por pena ou por não haver mais ninguém.

E de repente alguém ao seu encontro e Karl sem ter como se defender.

E aqui começa o abuso, quando não sabemos dizer não, ou sabemos, mas apenas quando já é tarde e é sempre tarde enquanto tentamos compreender quanto acabou de acontecer.

Karl soube dizer não. Mas não soube explicar e muito menos nomear e tudo quanto não disse à mãe de Meyer, disse a si mesmo desde então. Anos em silêncio até a memória, essa funcionária paciente do esquecimento, guardar este episódio na gaveta mais funda do inconsciente.

Não aconteceu nada, repetiu tantas vezes.

Não aconteceu nada.

Foi a frase perfeita para fechar a porta.

Não aconteceu nada.

E, contudo alguma coisa aconteceu.

Existiu uma proposta. Existiu um convite.

A posição de poder, a confiança, a abismal diferença de idades, a vulnerabilidade, tudo isso existiu.

E uma recusa não faz da intenção menos intencional.

E as palavras também deixam marcas independentemente se um corpo foi tocado ou não.

Assédio. Esta sim, é a palavra certa, há tanto perdida no éter. Até hoje.

Até hoje enquanto Karl olha para trás para perguntar a si mesmo quantas vezes foi aquela porta aberta.

Quantos mais terão ouvido aquela voz?

Quantos terão f**ado?

Quantos terão sido incapazes de dizer não?

Quantos, ao contrário dele, terão confundido aquela atenção com o desejo de uma vida inteira?

Não há respostas.

Não há testemunhas, ou se há, amareleceram em fotografias antigas em estantes onde já não há estantes e em quartos feitos escritórios e arrecadações numa casa a morar noutro lugar.

No entanto, as palavras f**am: abuso, abusador, vítima, medo, vergonha, dúvida, incompreensão. Uma noite inteira ainda hoje carregada às costas.

E a memória a encher-se de dúvidas precisamente para nos proteger.

Para toldar e anestesiar. Por ser preciso viver.

Ou sobreviver quando não se consegue olhar de frente e é preciso andar de lado.

O tempo ergue muros enquanto o ego, esse carpinteiro fiel, lima as arestas das recordações até a ferida caber numa frase só.

Foi só uma noite.

Não aconteceu nada.

Mas esteve prestes a acontecer e a vida também se mede em função de gestos interrompidos. Pecar por pensamentos, palavras, actos e omissões: uma mão a querer chegar à mão, uma porta aberta a noite inteira.

Às vezes, durante a noite, quando a casa está silenciosa e o passado regressa sem pedir licença, Karl ainda consegue ouvir aquela voz.

“Sabes, é normal…”

Algumas frases não acabam quando deixamos de as ouvir. Ficam. E esperam.

Esperam por alguém com coragem suficiente para acender a luz.

© João André Costa, Setembro de 2026

Os selvagens aprenderamDurante anos ouvimos falar deles.Dos ingleses.Dos alunos ingleses, quero dizer.Como se fossem uma...
13/09/2026

Os selvagens aprenderam

Durante anos ouvimos falar deles.
Dos ingleses.
Dos alunos ingleses, quero dizer.
Como se fossem uma espécie particular de adolescente produzido pela geografia para testar a paciência dos professores: indisciplinados, mal-educados, agressivos, incapazes de permanecer sentados cinco minutos sem transformar uma sala de aula numa pequena guerra civil, criaturas indomáveis a chegar à escola (isto quando vão à escola) de telemóvel na mão, auscultadores nos ouvidos e nenhuma intenção de aprender.
Selvagens, ou quase, filhos de um sistema permissivo, de professores sem autoridade e de escolas onde ninguém consegue mandar verdadeiramente em ninguém.
E, no entanto, há qualquer coisa de profundamente desconcertante quando se olha para os recentes resultados do PISA.
Porque aqueles selvagens, aqueles adolescentes supostamente impossíveis, aqueles alunos na boca de tantos como exemplo de tudo quanto a escola não deve ser, estão entre os dez melhores do mundo.
Sim, entre os dez melhores do mundo e não, não é uma realidade paralela.
Sou português, ensino em Inglaterra e esta posição tem qualquer coisa de esquizoide ao obrigar a olhar para dois lugares ao mesmo tempo.
Trago comigo a escola portuguesa: os corredores, o ruído das salas, os professores extenuados, as reuniões, os programas em mudança constante, para não dizer rotativa, mais as reformas anunciadas como se trouxessem dentro delas a salvação para desaparecerem logo de seguida com a discrição de quem nunca chegou a ser.
E sim, encontro aqui muitos dos mesmos problemas.
Alunos constantemente atrasados à escola, atrasados às aulas, atrasados para esta vida nem por isso sua, para de imediato e ainda à porta da sala perguntarem se podem ir à casa de banho enquanto olham para o relógio como se o relógio estivesse em dívida para consigo.
E de outro modo não poderia ser quando se passa a noite de volta da PlayStation, do TikTok e do Snap em telemóveis topo de gama mais o ChatGPT para lhes dizer tudo quanto deveriam aprender.
Não são génios, são adolescentes em tudo distantes de Shakespeare ou de uma epifania sobre a fotossíntese depois de resolverem uma equação quadrática.
São miúdos. Alguns maravilhosos, outros difíceis, muitos indiferentes, outros tantos perdidos.
Alguns são capazes de nos surpreender numa Terça-feira às dez e vinte da manhã só para fazer perder a cabeça de quem vos escreve às dez e vinte e cinco.
Juntemos a isto professores sobrecarregados, falta de recursos, desigualdade social, pobreza, absentismo e não temos apenas crianças a entrar numa sala, mas vidas incapazes de caber numa ficha de matemática, vidas sem saber como fugir quando se pede mais pensamento crítico, e crítico é o fim do dia de quem não quer voltar a casa.
E talvez esta seja precisamente a questão.
Como consegue uma escola obter resultados tão bons com alunos nem por isso diferentes dos alunos portugueses?
Comecemos pela insistência institucional de como uma escola deve ensinar entre literacia, numeracia, história, factos, regras e conceitos.
Sem medo.
Foi essa uma das mudanças associadas aos governos de David Cameron e, particularmente, a Michael Gove e Nick Gibb: maior peso curricular, maior exigência académica, reforço das disciplinas fundamentais, maior importância dos exames do final do Ensino Secundário (GCSEs), numa cultura de avaliação e responsabilização.
Não foi uma revolução, foi uma mudança de direcção.
E as direcções, quando mantidas durante tempo suficiente, chegam sempre ao sítio aonde as esperam.
A Inglaterra deu maior importância ao inglês, à matemática, às ciências, à história, à geografia, às línguas.
Reduziu em muitos GCSEs a importância do trabalho ao longo do ano e devolveu aos exames uma parte do seu peso.
E sim, é possível criticar isto tudo.
Eu próprio não posso estar plenamente de acordo se a escola olha para os alunos como percentagens e tabelas.
Uma criança não é um dezassete, muito menos um quatorze e nunca um oito.
Não obstante, olhemos para a cultura e deixemos os rankings de lado.
Isto porque em Inglaterra ouço muitas vezes uma pergunta:
“What does the evidence say?“
O que dizem os factos?
Não o que penso.
Não aquilo que sempre fizemos.
O que dizem os resultados?
O que é que funcionou?
Com quem?
Em que circunstâncias?
Durante quanto tempo?
É uma pergunta irritante.
Ainda bem.
Porque a didáctica educativa precisa, de vez em quando, de um confronto com a realidade.
Portugal tem professores extraordinários. Conheci professores portugueses capazes de ensinar uma turma inteira com quase nada, capazes de inventar materiais, f**ar depois da aula, depois do dia, depois da noite, sempre disponíveis para os pais enquanto corrigem trabalhos e exames ao fim-de-semana, durante as férias, e tudo isto para poderem chegar à escola na Segunda-feira na certeza de não faltar absolutamente nada.
Mas um sistema educativo não pode depender eternamente do heroísmo.
Não podemos construir uma escola como quem constrói um barco e depois esperar ser o professor simultaneamente o motor, o leme e o salva-vidas.
E os números portugueses estão aí: em 2025, os resultados em matemática, leitura e ciências regressaram aos níveis de 2006.
Isto não é uma estatística, são salas de aulas com crianças incapazes de compreender um problema ou perceber quanto está escrito enquanto chegam ao Secundário sem conhecimentos de base.
E por isso talvez a pergunta esteja mal formulada.
Em vez de perguntarmos a razão para a queda de Portugal, talvez devêssemos perguntar qual a razão para Inglaterra não cair da mesma maneira?
A diferença é pequena na frase, mas enorme na consequência.
Porque por terras de Sua Majestade uma reforma pode ser discutida, combatida, aplicada, avaliada.
Depois o governo muda, algumas coisas mudam, é inevitável, mas nem tudo começa outra vez.
Os ideais permanecem: avaliação, exigência, responsabilização, expectativa.
Sim, expectativa.
Porque a questão nunca é “Será que ele consegue?”, mas antes “Como é que o vamos levar até lá?”.
E a expectativa muda o professor.
Muda a aula.
Muda o aluno.
E, ao fim de dez anos, talvez mude um sistema inteiro.
Temos também cada vez menos certezas sobre a tecnologia. Se um computador pode ser uma ferramenta extraordinária, também pode ser uma maneira extraordinariamente eficiente de não aprender nada. A inteligência artificial pode explicar uma matéria a um aluno, mas também pode substituir o pensamento e fazer o trabalho inteiro por ele.
E aqui regressamos ao professor. Aquele professor a quem durante anos disseram não mais ser necessário neste advento tecnológico.
Talvez estejamos finalmente a descobrir o contrário e quanto mais ferramentas temos, mais precisamos de alguém para dizer: fecha o computador, fecha os olhos, imagina, sonha, descreve, realiza.
Um bom professor é, entre outras coisas, um porteiro: sabe quem entra e quem não entra, sabe quando facilitar e quando desafiar. Sabe reconhecer a diferença entre o aprender e o papaguear.
Portugal tem bons professores. A questão é saber se o sistema deixa ensinar.
E depois existe o tempo, o envelhecimento, a falta de professores, a dificuldade na formação e recrutamento.
O cansaço, invisível nas estatísticas lusas.
E é talvez aqui onde a comparação é mais desconfortável.
Porque a escola inglesa, durante tantos anos descrita como permissiva, caótica, povoada por adolescentes impossíveis e professores sem autoridade, conseguiu resultados em tudo contrários à sua história e reputação.
Ou seja, os selvagens aprenderam, e tudo porque alguém insistiu em ensiná-los. Porque alguém decidiu ser a criança capaz apesar de difícil num sistema onde desistir não é opção.
Portugal não precisa, nem deve, ser Inglaterra. E se por um lado não é preciso importar uma escola, por outro para quando o dia onde sejamos capazes de olhar para os outros sem este complexo de inferioridade?
Porque uma criança não se preocupa com o resultado das eleições ou com a mudança de ministro.
Uma criança não deixa de dormir porque o currículo foi reformulado. A criança, a nossa criança, chega à aula, senta-se (se tivermos sorte), e espera (cinco, quatro, três…) para alguém lhe ensinar qualquer coisa no mesmo espaço de tempo deste TikTok.
Agora a sério, não existem crianças inglesas naturalmente melhores, assim como não existem crianças portuguesas condenadas ao fracasso. Existem sistemas, decisões e, sobretudo, tempo. A capacidade de uma escola repetir durante anos, sem se envergonhar da repetição.
Porque quando fechamos a porta da sala de aula, já não temos nem Inglaterra nem Portugal. Temos uma criança diante de nós, e ela não trouxe consigo a culpa de nenhum ministro.

© João André Costa, Setembro de 2026

Crónica de um professor esquecido Quando um professor aprende tarde, aprende mesmo tarde e não há volta a dar se já devi...
06/09/2026

Crónica de um professor esquecido

Quando um professor aprende tarde, aprende mesmo tarde e não há volta a dar se já devia saber, e afinal não sabe, como os alunos têm nomes.
Não os nomes, entenda-se, enquanto estão diante de mim, sentados nas carteiras, levantando a mão, pedindo para ir à casa de banho, entregando trabalhos com aquela caligrafia tão galinácea quanto nervosa, não, até porque nesses meses eu sei-lhes os nomes, sei-lhes as caras, sei quem se esquece sempre do caderno, quem chega cinco minutos atrasado, quem olha pela janela quando devia olhar para mim e quem olha para mim precisamente porque está a olhar para a janela.
Esses nomes ao longo do ano sei eu de ginjeira.
Depois chegam as férias e aqui começa o problema.
As férias não descansam apenas o corpo, as férias fazem uma limpeza geral à memória, uma espécie de empregada doméstica interior cabeça adentro durante o querido mês de Agosto a abrir gavetas, a olhar para os nomes e a dizer como isto já não serve, isto também não, este rapaz já não vem, esta menina mudou de turma, este ano há outros, e toca de despejar tudo no lixo e a minha opinião não é para aqui chamada.
O início de cada ano lectivo é, deste modo, de uma eficácia extraordinária ao conseguir olvidar os nomes de turmas inteiras.
Não é desinteresse. Não é incompetência. É sobrevivência.
Pura e dura.
E de outro modo não podia ser se a memória, ou pelo menos a minha memória, é um animal exigente e não há espaço para tudo dentro dela. E apesar da boa vontade, queira eu conservar os nomes de todos os alunos ano após ano e em breve precisarei não de uma ou duas cabeças, mas um armazém inteiro, e mesmo assim não sei se chega.
Isto porque todos os anos chegam outros petizes, outras caras, outras vozes, outros problemas, outras mães, outros pais para ocupar tempo, trabalho e espaço nesta memória única e só, e cada Setembro sublinha a necessidade de estar inteiro para quem agora chega.
Os alunos anteriores já partiram. Foram para outras salas, outras escolas, outras vidas. Não obstante, no primeiro dia de aulas, encontro uma das minhas antigas alunas no corredor, sorridente, crescida, o rosto mais de mulher e menos a criança ainda ontem diante de mim, e ela diz:
“Professor!”
Paro.
Ela espera.
Eu sorrio.
E o nome varre-se-me da cabeça como uma folha de papel a voar por uma janela aberta.
Conheço-a bem. Ou talvez não. Sim. Não. Fui professor dela e uma vez até chorou diante da turma por causa de uma nota.
Mas o nome não vem.
Nada.
Um deserto.
E ela, incrédula, desfere a inevitável, e anual, estocada:
“Então, stôr, não se lembra de mim?”
Lembro-me de ti, penso. Lembro-me perfeitamente de ti. Só não me lembro de como te chamas.
Mas isto não se diz.
Por conseguinte, ao longo dos anos desenvolvi várias estratégias, começando desde logo pelo contexto. Assim, se encontro um antigo aluno, digo de imediato:
“Então, como vão as coisas?”
É uma frase extraordinária porque não contém nenhum nome e revela interesse. Se o aluno responde “Muito bem”, continuo:
“E agora, estás onde?”
A partir daí posso descobrir a faculdade, o emprego, namoros, casamentos, os filhos, o país onde vive e, com sorte, até o nome.
Continuando, temos a família:
“E os teus pais?”
Perguntar pela família é particularmente ef**az porque os pais costumam ter nomes (nem sempre) e os nomes levam-me aos filhos. Às vezes não. Uma vez estive dez minutos a conversar com um rapaz no supermercado, perguntei pela mãe, pelo pai, pelo irmão, pela escola, pelo cão e pela avó, e saí dali sabendo absolutamente tudo excepto o nome dele.
Quando nos despedimos, ele disse efusivamente:
“Então até para a semana!”
E eu respondi:
“Até para a semana, João.”
Mas não era o João, era o Miguel.
Descobri porque a mãe, dois corredores atrás, gritou:
“Miguel, não te esqueças do leite!”
Continuei a empurrar o carrinho como quem recebera uma sentença.
A terceira estratégia é o plural e funciona lindamente.
Encontramo-nos num café e digo:
“Então, como está essa malta toda?”
O antigo aluno ri, começa a contar histórias dos outros alunos e, enquanto fala, eu pesco à vez os nomes nas águas turvas desta memória.
Por fim, há o silêncio.
Às vezes basta sorrir.
Há encontros fortuitos e, se eu não disser nada, a pessoa interpreta o meu silêncio como emoção, surpresa, talvez até afecto.
E o afecto existe.
Esse é precisamente o meu problema.
Porque eu não me esqueço das pessoas. Esqueço-me dos nomes.
São coisas diferentes.
Lembro-me das mãos levantadas, dos nervos antes dos te**es, das gargalhadas, das discussões, dos casacos esquecidos nas cadeiras, das paixões às escondidas derramadas em lágrimas à vista de toda a gente. Lembro-me de um aluno porque nunca falava e de outro porque falava por todos.
Mas e os nomes?
Os nomes desaparecem, e quando o nosso nome desaparece no rosto de quem tanto nos ensinou, é como se nós desaparecêssemos também. E ao desaparecer, morremos um pouco.
E haverá maior injustiça quando se esquece o nome de alguém a quem ensinámos, ou tentámos ensinar, durante um ano inteiro?
Talvez haja.
Talvez a verdadeira injustiça seja exigir à memória tratar como eternamente presente tudo quanto a vida já empurrou para trás.
E eu tenho novos alunos, razão pela qual a cabeça limpa as prateleiras e se eu me esqueço tal só acontece porque preciso de continuar a lembrar.
É cruel.
É ridículo.
Penso neles.
Penso em mim.
Penso na memória, essa criatura mal-educada a decidir sozinha e inconscientemente sobre o espaço a vagar.
E concluo não ser egoísta.
Sou apenas humano, digo para mim mesmo enquanto dou de caras com um antigo aluno depois de vinte anos. E então sorrio com toda a sinceridade do mundo e pergunto:
“Então, meu rapaz, como é que tu te chamas mesmo?”

© João André Costa, Setembro de 2026

A cavernaEle nunca quis ser pai.E se nunca o disse, também não era preciso, bastando o silêncio cómodo quando se diz alg...
30/08/2026

A caverna

Ele nunca quis ser pai.

E se nunca o disse, também não era preciso, bastando o silêncio cómodo quando se diz algo cruel sem o compromisso de quem abre a boca.

Ela queria um filho. Ele não queria. Ela insistiu, a vida fez o resto, e depois dos quarenta apareceu uma criança a pedir-lhe os braços, a voz, o tempo e tudo aquilo seu tão seu para não entregar a ninguém.

E ele entregou pouco.

Talvez tenha acreditado bastar cumprir determinadas tarefas: pagar, levar, buscar, estar presente na fotografia, responder quando era absolutamente necessário, como se a paternidade pudesse ser resolvida administrativamente, uma assinatura no sítio certo, uma transferência bancária, uma porta aberta de manhã e outra fechada à noite.

Mas uma criança não sabe nada de obrigações administrativas. Uma criança quer o pai.

O filho cresceu.

Agora adolescente, já não corre para ele da mesma maneira, já não tem a certeza ingénua do pai como uma espécie de deus doméstico capaz de tudo, a saber de tudo, a resolver tudo, a proteger de tudo. Mas continua a querer o mais difícil quando se cresce: uma palavra.

Uma palavra apenas.

Uma palavra quando o pai chega a casa e o filho existe.

Ou quando o pai se senta à mesa e vê o filho.

Uma palavra.

Não é pedir muito, e para quem espera é o mundo inteiro.

Ou talvez seja pedir muito, e o mundo inteiro é do pai e de mais ninguém.

Porque o pai chega a casa e passa por ele como quem passa por um móvel. A porta abre-se, as chaves pousam, o ruído dos sapatos no chão, a pergunta por chegar. O filho olha para o rosto dele, espera um “olá”, qualquer coisa capaz de confirmar a sua existência, e recebe o silêncio. Aprende então, lentamente, uma matemática terrível: se o pai não me fala, talvez eu não mereça ser ouvido.

Porque o pai não o quer. Renega-o. Exila-o. Exila-se. À mesa o rapaz senta-se para jantar e o pai levanta-se. Não é uma discussão. Não há gritos, pratos partidos, acusações. É pior. O pai simplesmente pega no prato, leva-o para o escritório e fecha a porta. A cadeira f**a vazia. O filho continua a comer, talvez devagar, talvez depressa, tentando a custo justif**ar o injustificável mais a frase na boca de todos: “Não quero estar contigo.”

Se durante o dia o filho telefona ao pai, o telefone toca no escritório, na sala, no bolso, sobre uma mesa qualquer. O pai vê o nome no ecrã e não atende. Talvez pense não ter nada para dizer.

Talvez pense querer o rapaz alguma coisa.

Talvez não pense absolutamente nada, e é justamente essa a crueldade, porque para o filho aquele toque contém a esperança inteira. Talvez tenha acontecido qualquer coisa na escola. Talvez queira contar uma piada. Talvez tenha tido um dia horrível. Talvez apenas queira ouvir a voz do pai.

O telefone pára de tocar e o rapaz aprende como pedir uma palavra é humilhante.

Porque o filho chega a casa com boas notas, um jogo ganho, um desenho, uma ideia ou uma qualquer pequena vitória do tamanho de uma montanha quando se é criança e não é preciso uma festa, nem tampouco um elogio, apenas um pai com os olhos levantados a dizer: “Vi.”

Mas o pai não vê.

Ou vê e não diz.

E há uma coisa particularmente dolorosa na indiferença: ela obriga quem a sofre a duvidar de quanto sentiu. Se uma agressão deixa uma marca clara, a indiferença deixa uma pergunta, uma dúvida, uma cavidade por preencher, a falta, um poço sem fundo e a certeza desta culpa só nossa e tanto nossa e o problema sou eu.

Algo de profundamente errado em mim. Só pode. Algo de profundamente podre neste reino meu onde a responsabilidade é minha e somente minha.

A culpa é minha quando um pai não conhece os amigos, os sonhos, as vergonhas, as músicas ouvidas fechado no quarto mais a pessoa na qual me torno.

A culpa só pode ser minha quando um pai, uma espécie de país estrangeiro dentro da própria casa, fisicamente presente e emocionalmente ausente, não assiste verdadeiramente ao nascimento deste homem.

E o adolescente aprende a não incomodar.

Aqui começa o perigo.

Um pai sem respostas é uma pergunta.

Um pai a levantar-se da mesa é uma sentença.

Um pai como uma máquina de rejeição.

E no seu silêncio a identidade.

E talvez um dia, aos vinte e cinco, aos trinta, aos quarenta, esse filho encontre alguém capaz de o amar e num repente o filho incapaz de receber esse amor. Talvez desconfie de quem f**a. Talvez veja distância onde a distância não existe. Talvez tenha necessidade permanente de aprovação ou, pelo contrário, seja incapaz de pedir qualquer coisa, porque aprendeu cedo como pedir é pedir para ser ignorado.

Talvez se torne excessivamente independente.

Talvez diga “não preciso de ninguém” ao invés de dizer “não me deixes outra vez”.

Talvez escolha pessoas indisponíveis porque a indisponibilidade parece-lhe familiar.

E há ainda outra possibilidade, talvez a mais triste e mais certa, aquela onde a ferida é mais funda: a de se tornar parecido com o pai e amar é uma obrigação incómoda, ao ponto de recuar quando alguém se aproxime.

E quando um filho lhe pedir atenção, sinta vontade de desaparecer na herança do seu sofrimento.

Porque as famílias têm esta estranha forma de vida de passar à próxima geração quanto nunca quiseram dar, um vazio, este vazio do tamanho de uma casa a caber dentro de ti e a acompanhar-te para todo o lado.

Não obstante, a esperança, esta mulher a dias a trabalhar sem salário enquanto limpa a casa da rejeição.
Talvez ainda exista uma porta, não a porta do escritório onde o pai come sozinho, mas outra, a porta aberta quando uma criança finalmente percebe não ser preciso a perfeição paterna se a um pai basta estar aqui e presente.

E na presença, uma palavra apenas: “Pai”.

E talvez, um dia, o pai consiga responder: “Filho”.

Quase nada.

Quase tudo.

Há homens capazes de entrar na paternidade como quem entra numa casa onde não querem morar. Abrem a porta, deixam o casaco numa cadeira, olham em redor e, muitos anos depois, continuam à espera de alguém para dizer ter havido um engano, aquela não é a casa deles e podem finalmente voltar para o lugar de onde vieram: a caverna.

© João André Costa, Agosto de 2026

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