Crónicas de um átomo

Crónicas de um átomo

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João André Costa, professor em Londres, escreve para o Público/P3, Observador e Blog do Arlindo

Photos from Crónicas de um átomo's post 21/06/2026

Crónica de uma professora com outro emprego à espera

Às cinco e meia da tarde olho para o relógio da sala de professores como quem consulta o pulso de um doente grave.

Ainda bate.

Eu também.

Mal. E não sei por quanto tempo.

Os miúdos já se foram embora, os corredores da escola esvaziaram-se daquele barulho de enxame, mas eu continuo aqui, a corrigir fichas, a responder a e-mails de pais indignados porque o filho teve dezasseis em vez de dezassete, a preencher grelhas para ninguém, sem esquecer os mil e um relatórios destinados a armários onde os papéis morrem empilhados uns sobre os outros.
Se não sair agora não chego ao infantário antes de fecharem. O mais velho já vai sozinho para a escola. Foi uma conquista. Uma liberdade de quinze minutos por dia, talvez vinte se o trânsito colaborar.
Crescem os filhos e nós celebramos estas pequenas independências como náufragos diante de uma tábua a boiar no mar.
Corro para o carro. A cidade inteira parece ter decidido sair à mesma hora.
Os semáforos sucedem-se como funcionários públicos da eternidade.

Vermelho.

Vermelho.

Vermelho outra vez.

Chego ao infantário quase a pedir desculpa por existir. O mais novo espera-me sentado numa cadeira minúscula, a olhar para mim com esta expressão de órfão abandonado numa ilha deserta durante quinze anos ou mais.

Mais.

Ui, quinze anos…

Muito mais!

“Mãe, foste a última." Claro que fui... sou sempre a última. A última a sair da escola. A última a chegar. A última a sentar-me. A última a dormir. A primeira a acordar.
Depois começam as compras. Cinco supermercados. Cinco. A carne é mais barata num. Os cereais noutro. A fruta no terceiro. Os legumes no quarto. E quando entro no quinto supermercado já não sei quem sou.
Empurro o carrinho pelos corredores alumiados como uma sonâmbula. Tenho uma lista no telemóvel, outra na cabeça e uma terceira escrita numa folha amarrotada dentro da carteira.
Cruzo-me com pessoas a passear entre as prateleiras como se estivessem num jardim botânico.

Eu não passeio.

Eu desempenho operações militares. Calculo trajectórias. Optimizo percursos. Comparo preços por quilo. Estudo promoções. Avalio datas de validade. Napoleão vergou a Europa sem se dar a tanto trabalho.

Tinha quem fizesse as compras por ele!

Entretanto, perdi o mais novo.

Não perdi nada, está no corredor dos brinquedos!

Quando finalmente chego à caixa recebo a mensagem do meu marido. "A espuma de barbear." Fico imóvel. A espuma de barbear. Claro! A espuma de barbear. A peça em falta no puzzle da civilização ocidental.
Volto para trás. Corredor sete. Prateleira três. Espuma de barbear. Missão cumprida.
Regresso a casa às sete e qualquer coisa. Despejo sacos. Despejo o mais novo. Despejo a mim própria. Os dois filhos entram no quarto e, poucos minutos depois, o silêncio instala-se, aquele silêncio moderno dos ecrãs acesos.
Sentados lado a lado, telemóvel na mão, parecem dois astronautas ligados a um outro planeta, a um outro sistema solar, muito, muito longe, numa galáxia muito, muito distante.
Enquanto isso a sopa ao lume. Os bifes ao lume. O arroz ao lume. As compras por arrumar. A máquina por encher de roupa. O aspirador por aspirar.
Passo pela sala, pela cozinha, pelos quartos. Levanto sofás. Arrasto camas. Desvio armários. Não sei de onde vem a força. Talvez da mesma reserva secreta onde as mães guardam os dias. Aspiro migalhas, pó, cabelos, fragmentos invisíveis da existência doméstica.
Entretanto, corro para a casa de banho. Lavatório. Espelho. Sanita. Tudo a brilhar. A roupa do meu marido espera-me na tábua de engomar como um desafio pessoal. Camisas. Mais camisas. Sempre camisas. Passo-as a ferro enquanto vigio o arroz. O v***r sobe. O relógio avança. A máquina termina. Penduro roupa. Ponho a mesa. Verifico a sopa. Volto ao arroz. Regresso à roupa. Uma espécie de dança macabra entre divisões da casa.
Às oito menos cinco tudo parece finalmente pronto. A comida quente. A mesa posta. Os pratos alinhados. As crianças convocadas. Escuto então a chave no trinco. O som. Aquele som. Como o disparo de uma corrida. O meu marido entra.
Nem um beijo.
Nem um afago.
Nem uma palavra.
Magnânimo.
Imperial.
Napoleão!
Senta-se. Os meus filhos sentam-se. Eu sento-me por fim. Talvez pela primeira vez desde manhã. Olho para a sopa. Olho para os bifes. Olho para o arroz. Olho para as minhas mãos. As mesmas mãos depois de horas a carregar, limpar, escrever, cozinhar, conduzir, arrumar, ensinar, comprar e engomar. Estas mãos já nem parecem minhas.
O meu marido prova o arroz. Franze ligeiramente a testa. E diz: "Esqueceste-te de pôr manteiga." Ninguém responde. Nem os miúdos. Nem a televisão. Nem os talheres. Eu também não. Porque naquele instante percebo como não é a manteiga em falta no arroz.
Quem está em falta sou eu.
Há muito tempo.
Desde sempre?
Já não sei quando.
Nem porquê.
Talvez por amor.
De certeza por amor.
Porque, de resto, não vejo outra razão.
Amanhã é outro dia. Tenho de ir preparar aulas.

© João André Costa, Junho de 2026

Porta-aviões ao fundo: o fim dos Trabalhistas em Makerfield? 14/06/2026

Porta-aviões ao fundo: o fim dos Trabalhistas em Makerfield?

Leio os jornais ingleses numa minudência clínica, de estetoscópio na mão não há procura de esperança, mas para perceber se o paciente ainda respira. E o Partido Trabalhista, este Partido Trabalhista de Keir Starmer, é o paciente.

Andy Burnham decidiu regressar ao Parlamento e o impulso é compreensível. Há políticos incapazes de f**ar à margem de um incêndio e querem entrar no edifício em chamas convencidos de poderem ainda salvar os móveis. Mas Makerfield não é apenas uma eleição. É um referendo.

Os jornais descrevem Burnham como a possível salvação dos Trabalhistas, um homem capaz de reconquistar o norte perdido, as cidades industriais abandonadas, os eleitores fugidos para o Reform UK como quem foge de uma igreja onde já ninguém tem fé.

Infelizmente, esta corrida não é apenas política e Burnham parte com atraso.

Porque da janela do autocarro vejo os rostos cansados de Croydon, Wigan e Rochdale, operários reformados, mulheres com sacos dos bancos alimentares, rapazes a trabalhar doze horas por dia em armazéns mal alumiados, e nos seus olhares a mesma desilusão aquando do Brexit.
Um referendo nem por isso sobre a Europa, mas sobre décadas a ouvir promessas enquanto os salários encolhem, os hospitais esboroam-se, as rendas disparam e os empregos passam a trabalhos temporários em aplicações de entregas ao domicílio.

Neste cenário, votou-se Leave em nome de uma vida melhor.

E desde então continuam a votar por uma vida melhor.

E Westminster é hoje um carro gripado, incapaz de melhorar materialmente a vida das pessoas, uma espécie de teatro administrativo onde se discutem percentagens enquanto a população passa fome.

O eleitorado já não procura programas. Procura culpados. E nesta arena, Nigel Farage prospera.

Porque a política inglesa já não funciona pela esperança, mas pela raiva, e enquanto os Trabalhistas apresentam relatórios, Farage apresenta inimigos de bandeja entre imigrantes, elites, Bruxelas, legisladores, ambientalistas e Westminster.

Qualquer alvo serve conquanto dê ao eleitor a sensação de ter alguém do lado de lá capaz de partilhar a sua frustração.

E a estratégia funciona quando a vida piorou.

Basta olhar para as antigas cidades industriais do Norte, agora transformadas em conglomerados de apartamentos de luxo onde animais de estimação comem refeições orgânicas entregues por assinatura mensal.

Uma realidade díspar lado com os bancos alimentares cujas famílias têm na escola a única garantia de uma refeição para os seus filhos.
E no meio disto os Trabalhistas inertes e incapazes de tomar uma decisão sequer, com medo dos mercados, medo dos jornais, medo dos investidores, medo da City.

A resposta governamental? Prudência, estabilidade, uma gestão responsável. Infelizmente, um eleitor desesperado não vota na prudência, vota em quem promete incendiar a sala.

Burnham acredita na sua imagem de homem do norte, mais próximo dos sindicatos e mais distante e dos salões de Westminster, uma imagem à procura de inverter o rumo.

Mas Makerfield não quer saber de Burnham, quer saber dos Trabalhistas face a face com um verdadeiro teste existencial.

E o importante é castigar quem governa.

Desde 2016. Primeiro contra David Cameron. Depois contra Theresa May. Depois contra Boris Johnson. Depois contra os Conservadores. Agora contra Starmer. Amanhã contra quem vier a seguir. Uma espécie de vingança eleitoral permanente num país onde a desigualdade cresce como bolor nas paredes das casas num Inverno sem fim.

Uma eleição após a outra num efeito dominó lento e inexorável rumo ao cenário antes impensável e impossível: Nigel Farage em Downing Street.

Fecho o jornal, olho pela janela para esta Inglaterra exaurida, também Ela uma jangada de pedra à deriva.

Deus nos acuda. Porque mais ninguém pode.

© João André Costa, Junho de 2026

Porta-aviões ao fundo: o fim dos Trabalhistas em Makerfield? Andy Burnham decidiu regressar ao Parlamento e o impulso é compreensível. Há políticos incapazes de f**ar à margem de um incêndio.

Photos from Crónicas de um átomo's post 07/06/2026

A morte da língua portuguesa

Às vezes acordo de madrugada convencido de ainda existir alguém: um homem em Bragança a abrir a janela para o frio, uma mulher em Olhão a sacudir uma toalha na varanda, um miúdo qualquer a dizer fogo ou bolas (para não dizer outra coisa) ao deixar cair o copo de leite no chão.

E fico imóvel na cama, à escuta, como os velhos a encostar o ouvido aos búzios julgando ouvir o mar, e não ouço nada.

A língua portuguesa termina comigo. Não morreu numa explosão, numa guerra, numa biblioteca incendiada. Foi diminuindo.

Primeiro os emigrantes a esquecerem as palavras, os verbos, as expressões, a saudade.

Depois os filhos dos emigrantes a responderem noutras línguas quando lhes perguntavam sobre Portugal, um país transformado numa fotografia sépia esquecida no fim de uma gaveta no fim do mundo, no fim de uma viagem, para não mais voltar.

E agora eu, o último, a falar sozinho na cozinha como os doidos dos bairros do antigamente.

Há sempre um doido.

Havia sempre um doido.

Só resta um doido.

Digo cadeira para a cadeira. Digo janela para a janela. Digo saudade e a palavra regressa-me vazia, sem eco, como uma moeda atirada a um poço de onde roubaram o fundo.

Telefono para a polícia para denunciar o furto, mas ninguém fala em português, e eu fico sozinho a chorar os vinte cêntimos perdidos no fundo do poço sem fundo, talvez caída no chão algures do lado de lá do mundo.

Não atirasses a moeda.

As palavras fazem sentido enquanto houver alguém do outro lado para as receber e devolver. Uma palavra sem resposta é um abraço por dar, um desejo por cumprir, uma cicatriz no coração.

Penso em Portugal constantemente, talvez porque deixar de existir um país comece no instante no qual deixa de haver quem o nomeie.

Se eu morrer esta noite ninguém voltará a dizer Tejo daquela maneira líquida, com o “é” aberto como uma vela ao vento. Ninguém dirá Trafaria, Alentejo, Gerês, Sines, Monchique. Os lugares continuam decerto, as pedras continuam, o mar continua a bater contra os molhes, mas deixarão de possuir esta música só nossa. Um estrangeiro pode olhar a Nazaré e ver apenas água e casas. Nós víamos a infância inteira presa nas redes dos pescadores.

Tenho medo. Não da morte. Medo da ausência, e na ausência a morte em vida.

Porque uma língua morre duas vezes: primeiro quando a enterram, segundo quando deixa de ser pronunciada, elaborada, desenrolada na areia, na praia, ao sol num dia de praia.

E já não há praia. Ou há, mas não em português, não em Portugal.

Às vezes passeio junto ao mar e apetece-me falar alto para o vento na esperança do vento conservar qualquer coisa.

Digo frases inúteis: está frio hoje, a maré vai subir, cuidado com as rochas. Como se o Atlântico fosse uma velha cassete capaz de gravar as sílabas antes do silêncio.

Imagino as ondas a repetir os restos das vozes dos marinheiros na faina com Iemanjá, a repetir os pregões das mulheres nas lotas, os protestos dos bêbados às três da manhã em Alfama, os professores cansados a fazer a chamada nas escolas: um país inteiro transformado em espuma.

E depois a comida. E a tristeza inexplicável de não ter mais ninguém a quem pedir um caldo verde, um arroz de polvo, uma sardinha assada a cheirar ao fumo a subir pelas ruas de Junho. Não é a receita a desaparecer. É o gesto. A maneira de uma mãe empurrar o prato para o filho dizendo “come antes que arrefeça”. As línguas morrem também à mesa.

Dou por mim a traduzir mentalmente as palavras para ninguém. Vejo gaivotas e digo gaivotas embora pudesse usar outra palavra qualquer mais útil ao mundo. E insisto. Talvez por teimosia. Talvez porque dentro de cada idioma existe uma forma particular de olhar a chuva. E só em português é possível colher um sorriso com o orvalho da manhã.

E, no entanto, o pior não é não ter com quem falar. O pior é não haver ninguém capaz de compreender a memória. Como explicar noutra língua o cheiro das escadas antigas? Como explicar o barulho dos talheres num almoço de domingo? Ou então uma avó sentada à porta de casa a comentar a vida dos vizinhos enquanto o calor do verão v***a o ar das ruas? As traduções são mapas desenhados por gente ignara de um país.

Agora, às portas da morte, imagino-me numa praia vazia. Não uma praia real. Uma praia feita de recordações. As pegadas são minhas e atrás delas o mar apaga tudo devagar. Nenhuma criança corre. Nenhum rádio toca música pimba ao longe. Nenhum homem grita “Ó chefe, duas imperiais”.

Ou três.

Apenas eu, o último português, a caminhar junto à água.

E quando cair finalmente na areia talvez a última palavra desapareça comigo, pequena e frágil como a luz de um barco ao longe. Talvez ninguém perceba ter nesse instante perecido uma maneira inteira de abraçar o mar.

Quando o último falante da língua portuguesa morreu, o mar invadiu a terra, engoliu as praias, as terras, as casas, as estradas e os montes, e quem diz montes diz as montanhas e os rios também até à raia, até à fronteira.

Ficámos sem português, ficou apenas o espanhol…

© João André Costa, Junho de 2026

https://www.theguardian.com/science/2026/may/10/what-happens-when-we-lose-a-language?CMP=fb_gu&utm_medium=Social&utm_source=Facebook&fbclid=IwZnRzaAR26qpleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZAo2NjI4NTY4Mzc5AAEejnZVXayWdEqrV-jYLaCE3F5Ij8EmEyZ68b1QWOCn6v8G4GIR0bsA9PfBk7w_aem_2v_rxG-sgnw57jJW2gcLAQ =1778420089

Photos from Crónicas de um átomo's post 31/05/2026

Prova que és adulto

Aconteceu-me uma coisa curiosa, ou talvez trágica, mas com aquele travo a riso colado às tragédias pequenas, como um penso rápido mal colado no joelho de uma criança.

Depois da última atualização do iPhone, essa entidade vigilante ao estilo da porteira do meu prédio, o telemóvel deixou de reconhecer quem vos escreve.

Tudo bem, às vezes eu também não me reconheço.

Basta olhar ao espelho depois de uma noite de copos.

Mas, e dizia eu, o telemóvel não se limitava a não me reconhecer, também não reconhecia quanto de mim restava: a cara, as olheiras herdadas de gerações de insónias, o vinco obstinado entre as sobrancelhas, a bonomia da idade depositada sobre os móveis como pó.

Olhei para o ecrã e o ecrã devolveu-me outra pessoa. Ou pior, não devolveu nada. Um rectângulo liso, indiferente, como certas pessoas, as quais apesar de nos conhecerem há anos, não se lembram do nosso nome.

“Tente novamente”, dizia o telemóvel, com a paciência mecânica de quem não tem ninguém à espera.

E, neste momento, surgiu o meu pai, não o pai de carne e osso de outras divisões da memória, mas um progenitor digital no ecrã, uma espécie de fantasma administrativo com voz de treinador e cheiro a suor (sim, o ecrã a exalar suor) a pedir o seguinte:

“- Prova que és adulto.”

Para o telemóvel, e quem diz o telemóvel, diz o meu pai, não bastava existir, nem muito menos sobreviver a décadas de contas pagas. Era preciso provar, como quem apresenta documentos numa fronteira absurda, ter a maturidade de quem tem hoje dezoito anos, pelo menos dezoito anos, e de preferência mais de quarenta.

Saí de casa. Ou talvez tenha saído de mim, tarefa ainda mais complicada. Primeira prova: comprei umas alfaces. Umas alfaces roxas e verdadeiras, pesadas, com terra ainda agarrada às raízes, e carreguei-as como quem transporta um argumento irrefutável. Mostrei-as ao telefone:

“- Vês? Alface roxa. Para comprar alface, é preciso ter dinheiro, e só os adultos têm dinheiro.”

O telefone manteve-se mudo, talvez conivente e vegetariano, talvez céptico.

Segunda prova: fui ao banco e pedi para falar com alguém sobre juros de conta. Falei tanto a pontos de acreditar em quanto dizia e de seguida assinar papéis por ler, como qualquer adulto respeitável. Mostrei o extrato ao ecrã, com números a subir e a descer ao ritmo da febre:

“- Isto não é algo infantil, isto é economia pura e dura.”

Nada. Nem um piscar de luz.

Terceira prova: telefonei a um amigo e disse-lhe: “Temos de combinar um jantar” sem qualquer intenção de aparecer. Disse-o com convicção, com aquele peso de agenda invisível como só os adultos sabem dizer. O silêncio do outro lado confirmou a eficácia da mentira.

“- Estás a ver?” murmurei para o auscultador, “Já invento encontros como um verdadeiro profissional.”

Quarta prova: sentei-me numa sala de espera sem saber exatamente por quem esperar. Havia revistas antigas, pessoas com tosses educadas, um relógio atrasado de propósito na parede. Ou então a parede atrasada e o relógio certo, já não sei bem ao certo.

Esperei. Esperei até a espera passar a estado civil. Mostrei ao telefone o meu rosto paciente, treinado na arte de não reclamar: “A isto chamamos paciência de quem é mais velho”, expliquei, ou resignação, e a resignação dos adultos é em si um diploma.

No entanto, o telefone, qual oficial bem-educado, permaneceu impassível.

Quinta e última prova: olhei para mim ao espelho e reconheci o meu pai, a minha mãe, e um desconhecido no meio, como um intruso numa fotografia de família. Sorri-lhe, ao intruso, e ele sorriu de volta com uma ligeira demora, como quem aprende uma língua.

Disse em voz alta: “Está bem, fico.”

E talvez tenha sido isso. Não tanto o f**ar, mas o não partir, e ao não partir aceitar todas as responsabilidades daí advindas.

Voltei ao iPhone, esse juiz sem toga, e aproximei o rosto, não o de ontem nem o de amanhã, mas este, com as suas rugas em forma de perguntas.

Por um segundo, juro, o aparelho hesitou. Como se dentro dele houvesse uma criança confusa a pedir desculpa à mãe.

Finalmente, um abre-te sésamo e todas as aplicações novamente disponíveis e desbloqueadas.

Não por reconhecimento, creio, mas por cansaço, e no cansaço a exigência de provas a quem já não tem mais nada para mostrar além de si próprio.

E eu, adulto certif**ado por exaustão, entrei no mundo outra vez, com as alfaces debaixo do braço e a sensação ridícula de ter passado num exame desnecessário e ainda hoje por explicar.

Acordei. Outra vez. A suar, outra vez. Afinal, era um sonho, dos maus. Ao meu lado, no lugar do telemóvel, o meu pai, imutável, e eu ainda hoje sem o código, e quem diz o código, diz a combinação, para podermos falar, pelo menos uma vez.

© João André Costa, Maio de 2026

Photos from Crónicas de um átomo's post 24/05/2026

À Sexta-feira no fim do mundo

Há uma altura à Sexta-feira, ali pelas cinco e vinte, cinco e meia, na qual a escola muda de pele.

Não é uma mudança brusca, como quando uma tempestade sem aviso cai sobre os telhados de zinco do pavilhão gimnodesportivo, mas uma mudança silenciosa, subreptícia, para não dizer rastejante.

Primeiro desaparecem os alunos, aquele oceano de mochilas, de gargalhadas, de insultos gritados escada abaixo, de rapazes e raparigas a correr como se o mundo estiver para acabar de repente se num repente não chegarem todos e em primeiro ao portão.

Depois ev***ram-se os pais, os pais indignados, sempre indignados e especialmente indignados se delegam nos outros, e quem diz nos outros diz nos professores, a responsabilidade de educar crianças sem culpa alguma de vir ao mundo.

A este mundo.

E a responsabilidade é sempre dos pais.

Minha não é, e tua também não.

Em primeiro lugar dos pais.

Os pais furiosos por causa de um teste, os pais furibundos por causa de uma falta disciplinar, de um sete vírgula oito quando devia ser oito (mas se ele não estudou e chumbou à mesma!…).

E, finalmente, esfumam-se os professores.

É curioso como fogem.

Durante a semana falam do cansaço como soldados numa trincheira. Falam e desabafam num ror sem fim sobre os miúdos e como os mesmos estão cada vez mais impossíveis.

Falam sobre a Direção a exigir relatórios atrás de relatórios mais os inspectores aparecidos do nada com aquelas pastas de couro para vender a morte a prestações.

E depois há aquela colega de História agora na menopausa e esquecida de tudo e de todos, a História incluída.

E quem diz menopausa diz andropausa e o professor de educação física barrigudo (os professores de educação física são todos barrigudos) maravilhado com a musculação aos cinquenta e nove anos enquanto aperta, estrafega e sufoca os mesmos cinquenta e nove anos em licra.

“Isto assim não é vida”, dizem os professores uns para os outros e para mim. Isto assim é preciso espairecer e um destes dias rebentamos.

Mas chega a Sexta-feira e é vê-los sair.

A velocidade na qual abandonam a escola faria inveja aos ratos do Titanic. Não olham para trás. Alguns despedem-se no corredor com aquela alegria de quem obteve liberdade condicional:

“Bom fim de semana.”

“Até segunda.”

“Descansa.”

Descansa.

Como se fosse possível.

E eu ali, de mochila às costas, a fingir arrumar papéis, a fingir ainda ter te**es para corrigir, só para ver se alguém hesita, se alguém diz “vamos beber uma cerveja”, “vamos celebrar o fim da semana”, “vamos existir uns para os outros durante uma hora”.

Nada.

O silêncio cresce na escola como bolor nas paredes.

As luzes automáticas dos corredores apagam-se uma a uma atrás de mim. Clac. Clac. Clac. O eco dos meus sapatos acompanha-me naquele edifício vazio onde passei a maior parte da minha vida.

Conheço esta escola tão bem como o corpo.

O meu corpo.

Mas nem por isso a minha escola.

Sei onde o chão range. Sei quais as portas teimosas e casmurras, nem por isso para fechar, ao invés pontapear.

Conheço o cheiro das salas no Inverno, uma mistura de madeira inflada com a humidade dos casacos pendurados.

Sei como a sala dos professores, quando f**a vazia, parece uma estação de comboios abandonada depois da guerra.

E penso: passámos anos juntos.

Anos.

Vimos alunos crescer, casar, ter filhos. Assistimos aos divórcios uns dos outros, a doenças, aos funerais dos pais, a ataques cardíacos na sala de aula, a crises de choro escondidas na arrecadação.

Partilhámos cafés, greves, reuniões infinitas, jantares de Natal com bacalhau seco e sonhos ainda mais secos.

E, contudo, chega o fim-de-semana e somos estranhos.

Talvez a culpa seja minha.

Por viver para a escola.

Os outros não. Os outros têm vida. Famílias. Jantares. Casas onde alguém pergunta como correu o dia. Têm cães à espera. Filhos. Netos. Maridos a ver concursos na televisão. Mulheres a dizer para não chegarem tarde.

Eu tenho a escola e nem a escola me quer à Sexta-feira.

Sobretudo no último dia de aulas antes das férias grandes.

Esse dia é o pior.

A alegria dos outros ofende-me. Os abraços rápidos no parque de estacionamento, os planos de areia infinita em praias infinitas, as viagens marcadas, o “até Setembro se Deus quiser”.

E eu ali, imóvel, a pensar como até me ofereci para pagar os copos. Nem assim. Nem uma cerveja morna bebida à pressa no café ao lado da bomba de gasolina.

Nada.

Fecham-se as portas.

O silêncio instala-se.

E eu acabo por pegar na mochila e ir para casa como se tivesse sido despedido sem saber bem porquê.

Depois entro em casa e os meus pais estão à minha espera no sofá.

“Ainda bem que chegaste.”
“Precisamos de ir às compras.”
“O teu pai já não conduz à noite.”

E vamos os três ao supermercado sob a iluminação brutal dos corredores, a empurrar um carrinho cheio de águas, detergentes e iogurtes em promoção, enquanto eu penso nas férias grandes já no fim e ainda mal começaram.

Passo diante das prateleiras da cerveja como quem passa à frente da vida.

Estou a passar à frente da vida.

E a minha mãe a conhecer-me de ginjeira, num raspanete ríspido a empurrar-me para longe, mais precisamente na direção dos iogurtes.

Estão em promoção, não sei se já vos disse.

“Olha que f**as mal disposto”, diz ela.
E eu, já mal disposto, obedeço mansamente.

Assim, não vale a pena chegar ao fim-de-semana, muito menos às férias.

O meu reino por uma cerveja. Não é pedir muito.

Ou talvez seja.

© João André Costa, Maio de 2026

Photos from Crónicas de um átomo's post 17/05/2026

Cinco a quase tudo ou uma crónica sobre segregação escolar

No fim do Segundo Ciclo do Ensino Básico deram-me cinco a quase tudo, ou então fui eu quem fez por ter cinco a quase tudo e neste mundo ninguém dá nada.

Não há almoços grátis.

Uma sucessão de cincos alinhados na pauta como pequenos azulejos azuis numa cozinha antiga, excepção feita a Educação Física e Trabalhos Manuais mais o corpo e as mãos como objectos estranhos, selenitas, para não dizer alienígenas.

E pensar, raciocinar, deduzir e concluir sempre foram em tudo preferíveis a correr, à chuva e ao sol, à volta do campo de jogos e da aldeia dos macacos enquanto o professor apitava com o entusiasmo militar de quem acreditava ainda estar na tropa, para não dizer no ultramar.

Estava, sim, senhor.

Voltando aos cincos alinhados como azulejos, serviram para empurrar-me na direção da Escola Secundária onde descobri uma coisa extraordinária: a escola não é apenas uma escola, mas um sistema de castas.

Basta olhar para a minha turma, dentro da qual a esmagadora maioria dos alunos tinha pais licenciados.

E não, não disseram “esta é a turma dos filhos dos professores, dos engenheiros, dos doutores, das pessoas com grandes estantes lá em casa ao invés das tais lombadas”.

Não era preciso, bastando para tal olhar para os apelidos na pauta, para o tamanho do carro dos pais à porta da escola, as roupas de marca sempre de acordo com a moda daquele ano, para não dizer mês.

Como se o mundo fosse seu desde o parto.

Aquele mundo era seu.

Seu.

E eu sentei-me ao lado deles com a sensação de ter entrado por engano num daqueles restaurantes caros.
Sem convite.

No entanto, estes rapazes e raparigas, e com eles todos os professores, salvaram-me.

Porque os melhores professores da escola estavam ali. Os professores experientes, pacientes, incansáveis na explicação enquanto corrigiam redações atrás de redações, sem esquecer todos os te**es e relatórios, ao Domingo e à noite.

Professores animados pelo sonho da universidade e o mundo inteiro à distância de um braço.

Lembro-me das reuniões de pais. Os corredores cheiravam a café e papéis. Os pais da minha turma falavam da faculdade como quem discute destinos de férias. Medicina. Engenharia. Direito. No meu bairro ninguém dizia estas palavras sem baixar a voz.

E eu, contaminado pela ambição, comecei a acreditar.

Um aluno de doze anos de idade passa a imitar o horizonte dos colegas. Se todos falam em universidade, a universidade passa a ser um destino normal e expectável.

Se todos falam em começar a trabalhar aos dezasseis, então a vida encolhe mais cedo.

E a vida encolhe mais cedo para o resto da escola.

A isto, a esta separação de alunos de acordo com a sua capacidade académica e origem sócio-económica, chamamos hoje segregação escolar, facilmente traduzível pela seguinte pergunta: quem merece aprender melhor?

Os melhores alunos progridem mais depressa, os professores planeiam sem ter de diferenciar, apenas debitar, e quem não toma notas f**a pelo caminho.

Há menos interrupções, menos indisciplina, melhores resultados nos exames, sobretudo para quem vem já com metade das aprendizagens a partir de casa, e dentro de casa as explicações e os livros.

Todos os livros.

Hoje, gastamos o dedo nos écrans.

O Reino Unido usa um sistema semelhante, no qual os alunos são colocados em “sets”, “top set” e “bottom set”, ergo um aluno pode estar no grupo mais avançado a Matemática e noutro de nível baixo a Inglês.

Mas à escola não basta distribuir esperança, quando a escola deve agir como elevador social.

E colocar os melhores alunos numa turma apenas não é de todo inclusão, mas discriminação.

É favorecer ainda mais os tais um por cento em detrimento de todos os outros.

Um sistema onde um aluno distraído com pais licenciados é visto como promissor. Já um aluno distraído com o pai metalúrgico é um problema disciplinar.

Tivesse, por sorte, ou então azar, calhado noutra turma e talvez nunca tivesse almejado a universidade. Talvez estivesse noutro emprego qualquer, a descarregar caixas num armazém enquanto olho para os livros atrás das montras como quem olha para um aquário exótico.

Os livros, hoje, são aquários exóticos.

Penso nos rapazes e raparigas das outras turmas. Alguns, apesar de mais inteligentes, chegavam à escola depois de noites sem dormir, de casas pequenas e pais desempregados, casas onde todos gritam e ninguém tem razão, minto, as crianças têm razão e toda a responsabilidade apesar dos poucos anos.

E, contudo, aqui estou eu.

A escrever.

Produto de um sistema educativo desigual? Sobrevivente? Talvez cúmplice.

E se nunca pedi favores para não f**ar a dever favores, a verdade é esta sensação de culpa a bater nas paredes da memória como uma janela mal fechada ao vento.

A culpa nunca foi, nem pode ser, de uma criança de doze anos de idade. A culpa será sempre dos adultos. E os adultos somos nós, hoje, de volta à escola.

© João André Costa, Maio de 2026

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