Repensando a Idade Média.

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Conta oficial da equipa do "Repensando a Idade Média". Página lusófona dedicada à Idade Média.

Photos from Repensando a Idade Média. 's post 15/08/2026

INCÊNDIOS FLORESTAIS NA IDADE MÉDIA – UM FENÓMENO NATURAL, CRIMINOSO, OU UMA GESTÃO ECONÓMICA PLANEADA? – PARTE I

Mais um ano, mais uma época de incêndios florestais a devastar tanto o território português como outras partes da Europa – como ainda no passado dia 13 de Agosto assistimos com muita angústia, no caso do incêndio que ameaçou o mosteiro medieval de San Juan de la Peña, em Aragão – e do mundo. Apesar das diferenças inevitáveis que o fenómeno assume hoje em dia por diversos factores, desde a demografia e ordenamento do território das regiões rurais à composição actual das florestas, aos avanços tecnológicos e às alterações climáticas, sentimos que ainda falta uma perspectiva histórica do fenómeno, especialmente em Portugal. Como tal, relembramos um texto nosso de 2022 sobre a temática, publicado desta vez em três partes de modo a facilitar a sua digestão pelos nossos leitores.
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Em mais um ano especialmente difícil em relação aos fogos florestais que assolaram Portugal assim como todo o sul da Europa, e que já vinham afectando também outras regiões do globo nos últimos tempos (Amazónia, Sibéria, Califórnia, Chile ou Austrália), tentámos investigar este fenómeno na Europa medieval, quer provocado por ignição natural ou pela mão humana. Aos factores do clima, tipo de solo e de floresta, juntaram-se as queimadas, que em Portugal remontam à Idade do Bronze (BENTO-GONÇALVES, 2006: p. 439). Chegados à Idade Média tardia, estas tinham já degradado o potencial produtivo da floresta e o crescimento populacional verificado desde os séculos IX-X esgotou as reservas florestais, mesmo em regiões onde estas sempre tinham abundado, como a Europa central ou as Ilhas Britânicas.

FOGO, O GRANDE “TRANSFORMADOR” DA FLORESTA

Como resultado, foram promulgadas um pouco por todo o continente, desde o século XIII, várias regulamentações para evitar o corte da madeira e o fogo posto descontrolados. Exemplo destas leis é o privilégio de ‘forêt usagère’: uma lei francesa que atribuía ap***s aos habitantes locais das comunas próximas de certas florestas o direito de recolher lenha ou incendiar parcelas para abertura de campos de cultivo ou de pastagem (BADRÉ: 1983, p. 171). As florestas de Teste-de-Buch e de Arcachon, na Gasconha, eram as únicas ainda ao abrigo de uma dessas leis desde 1468 - ironicamente, foram profundamente afectadas por um incêndio em Julho de 2022.

Em Portugal temos ecos de legislação no mesmo sentido, citando como exemplo uma carta de 1320 onde o rei D. Dinis responde a várias queixas do Mestre da Ordem de Santiago e dos Concelhos de Campo de Ourique onde se acusavam os representantes locais da Coroa de excesso de zelo na aplicação das leis de protecção dos sobreiros e azinheiras, imputando multas a quem detinha o seu usufruto, mesmo que não provassem qualquer ilegalidade (MARREIROS: 2019, pp. 384-387 – VER FOTOS).

Durante o reinado de D. João I foram vários os Concelhos, entre os quais o de Pinhel, que pediam ao monarca para lhes “dar de sesmarias” as terras perto das vilas que já tinham sido cultivadas mas que, entretanto, se tinham tornado ermos. Porque, “apezar do fogo que lhes deitam, os matos som muy bastos, e a eles se acolhem porcos, ursos e outros animaes ferozes. (…) A gente é pouca e as alimarias muytas”. (C. LOBO: 1903, p. 80). Numa acta de vereação do Concelho de Loulé em 1408 ficaram também estipuladas as condições em que se podiam fazer queimadas, bem como as respectivas coimas, se se aproximassem de povoações e de explorações rurais (Actas da Vereação de Loule, fl. 19v – VER FOTOS). Em 1435, nas regiões do termo de Santarém e na estrada de Coimbra até ao Porto, onde as manchas florestais se revelavam bastante densas e “razoadamente guardadas”, o rei D. Duarte acabou por amenizar as p***s de multa estipuladas pelo seu pai e antecessor para quem ateasse fogo nas matas (Ordenações Afonsinas, Livro I, Cap. LXVII - VER FOTOS).

CRIME E CASTIGO? AS P***S POR FOGO POSTO

As primeiras leis medievais ibéricas sobre fogos ateados nos bosques surgem no “Liber Iudiciorum”, e foram emitidas no reinado do rei godo Recesvinto (653-672), mais especificamente na rubrica “De incendiis et incensoribus” (Livro 8, Caps. 2-3). Aí se estabelecem sanções diferenciadas de acordo com o estatuto social do criminoso: se o autor fosse homem livre, sofreria uma pena corporal de 100 vergastadas e pagaria uma indemnização pelos danos causados (se os houvesse). Se fosse um servo, a pena seria de 150 vergastadas e o amo podia optar pela entrega do servo à parte prejudicada como pagamento dos danos (ROJO: 2011, p. 345).

Estes crimes começam depois a ser enquadrados na legislação castelhana durante o século XIII, com p***s diferenciadas pelos foros de cada município: se o de Béjar (datado de 1211) ap***s previa multa por indemnização, os de Usagre (outorgado depois de 1246 pelo português Paio Peres Correia, Mestre da Ordem de Santiago em Portugal, Leão e Castela) e de Cáceres impunham p***s bem mais pesadas para aqueles que queimassem monte ou campo desde o mês de Maio até ao dia de São Martinho (11 de Novembro): dez maravedís de multa e o valor em duplicado pelos danos causados. Se fosse insolvente e não pudesse pagar, seria atado/a de pés e mãos e lançado/a ao fogo (Ibid., pp. 353-354).

As leis aprovadas nas Cortes de Segóvia (1256) e Valladolid (1258) chegam a estabelecer para este crime a pena capital, mandando “que não ponham fogo aos montes sob pena de os lançarem dentro” ou “a quem o faça que se lance ao fogo” (ibidem, p. 356). Nas “Sete Partidas” de Afonso X ficaram estipuladas as mesmas punições para fogos grandes e dolosos perto das muralhas das cidades a não ser que, pela origem social do criminoso, este devesse ser desterrado. Quando o fogo era pequeno, mais distante das cidades e ateado por “pessoa vulgar”, esta deveria ser obrigada a trabalhos forçados nas minas (Ibid., p. 359).

- Pedro Alves

FONTES PRIMÁRIAS:

- “Actas de Vereação de Loulé, séculos XIV-XV”. Ed: Arquivo Histórico Municipal de Loulé, Coord: Manuel Pedro Serra. Separata da revista ‘al-Ulya’, nº7, 1999/2000.
- MARREIROS, Rosa (2019). “Chancelaria de D. Dinis”, Livro III (Vol.2). Imprensa da Universidade de Coimbra.
- Ordenações Afonsinas, Livro I, Cap. LXVII.

BIBLIOGRAFIA:

- BADRÉ, Louis (1983). “Histoire de la forêt française”. Paris: Arthaud, pp. 171-312.
- BENTO-GONÇALVES, A. (2006). “Geografia dos Incêndios em Espaços Silvestres de Montanha – O caso da Serra da Cabreira”, Tese de Doutoramento, Universidade do Minho, Braga.
- LOBO, António Costa (1903). “Historia da sociedade em Portugal no seculo XV”, Secção I, Lisboa: Imprensa Nacional.
- ROJO, Maria Encarnación G. (2011). “Historia jurídica del incendio en la Edad Antigua y en el ordenamiento medieval castellano: Implicaciones urbanísticas y medioambientales”, Revista de Estudios Histórico-Jurídicos [Sección Historia del Derecho Europeo] # # (Valparaíso, Chile), pp. 321 – 373.

04/08/2026

O ARMAMENTO NO PORTUGAL MEDIEVAL (SÉCULOS XII-XV): ENTREVISTA COM ANTON STARK

O nosso colega António Conduto Oliveira (Anton Stark), doutorando em História Medieval na Universidade de Coimbra, cujo trabalho se centra no armamento em Portugal nos séculos XIV e XV, teve o prazer de conversar sobre as suas áreas de trabalho com os nossos amigos do Falando de História Podcast num episódio especial, lançado a 29/6.

Neste episódio, são abordados sumariamente o equipamento militar ofensivo (armas) e defensivo (escudos, armaduras, etc.) no território português, a sua evolução ao longo da Baixa Idade Média, os centros produtores, comércio e distribuição de armas, o papel regulador da Coroa na Idade Média Tardia e a questão do armamento nos eventos ditos de “recriação histórica”. Como não poderia deixar de ser, recomendamos fortemente aos nossos seguidores que escutem o episódio.

Na imagem, fotografia do bacinete de Pinhel, um bacinete de babeira do segundo quartel do século XV. Esta peça, exposta agora no Museu Municipal de Pinhel, é um dos poucos elementos de armamento defensivo tardo-medieval sobreviventes nos museus portugueses. Ao valor da raridade, acrescenta-se ainda o mistério existente sobre ela a vários títulos, desde o contexto em que terá sido achado até ao modo como terá sido fabricado: se se confirmar que se trata de um bacinete feito a partir de uma única chapa de metal, seria uma peça com ap***s um único paralelo em todo o mundo (outro bacinete no Palazzo Ducale de Veneza).

Coincidentemente, o António e um colega, Peter Kalkman, co-autoraram um artigo sobre esta peça, publicado no início deste ano pela revista Gladius, e disponível na seguinte ligação: https://gladius.revistas.csic.es/index.php/gladius/article/view/426

Autoria da imagem: Anton Stark.

15/06/2026

LIVRO DO DIA: “MÉRTOLA ISLÂMICA. ESTUDO HISTÓRICO-ARQUEOLÓGICO DO BAIRRO DA ALCÁÇOVA (SÉCULOS XII-XIII)”

No “Repensando a Idade Média”, sem querer, acabamos por nos focarmos mais nos reinos cristãos do que no al-Andalus. Gostaríamos de começar a corrigir a situação com recomendações de algumas obras interessantes sobre o al-Andalus, começando por uma obra de temática relacionada com a vida quotidiana e cultura material islâmicas.

A partir da década de 1970, acompanhando as mudanças sociopolíticas desse tempo, começou a florescer no Sul de Portugal o estudo da arqueologia medieval islâmica , que é hoje em dia o ramo mais vibrante dos estudos do al-Andalus no nosso país.Particularmente importante para o estudo da arqueologia medieval islâmica tem sido o trabalho de Cláudio Torres e dos seus colaboradores no Campo Arqueológico de Mértola (CAM), desde 1979-1980. Não só por ter sido um dos centros pioneiros na área, mas pelo riquíssimo espólio encontrado, de adicional valor se consideramos que Mértola não era uma grande cidade, mas sim um pequeno núcleo urbano – classificado como «hisn» ou castelo pela maior parte das fontes árabes conhecidas – com alguma capitalidade regional, consoante a capacidade de projecção de Beja. Assim, estamos maioritariamente a falar de espólio arqueológico relacionado com a vida quotidiana das classes sociais mais baixas (“al-amma”) ou de elites locais (“al-khassa”) de relativamente escasso poder económico.

Entre as várias publicações do CAM, gostaríamos de recomendar um livro da autoria de Santiago Macias, sobre as estruturas da zona mertolense conhecida como “alcáçova”. Começando com uma breve introdução à Mértola islâmica e à sua relação com os espaços em redor, o autor faz seguidamente uma breve descrição das estruturas de saneamento e fortificações locais, de grande utilidade no último caso para a compreensão da (in)defensibilidade de Mértola no período medieval, embora limitada pelo possível desaparecimento da estratigrafia dentro da área da alcáçova islâmica, grosso modo correspondente em área ao castelo tardo-medieval.

Porém, o grande foco do livro é o bairro de cronologias almorávida e almóada encontrado sobre o antigo criptopórtico romano e as prováveis estruturas do palácio episcopal tardo-antigo, numa área que tecnicamente se incorpora na medina de Mértola e habitada por gente que em português contemporâneo chamaríamos maioritariamente “remediados”, em alguns casos ligada ao artesanato. O autor faz um estudo exaustivo da vida quotidiana destas gentes, nomeadamente da estrutura da casa, das vivências domésticas, dos bens materiais, da higiene e da alimentação das famílias que viveram aqui por mais de 100 anos. Tudo isto é feito com o cotejo muito cuidadoso das fontes arqueológicas com um leque variado de fontes escritas islâmicas e com a etnografia local, numa linguagem rigorosa, mas ainda assim bastante acessível ao leitor comum.

Um ponto de interesse assinalável neste estudo é o cuidado do autor em tentar discernir a evolução temporal curtíssima do próprio bairro quando possível, notando o empobrecimento da cultura material, a divisão de algumas estruturas e a acumulação de pessoas nas camadas mais recentes do bairro. Tudo isto pode dar uma ideia muito sugestiva aos leitores do impacto quotidiano da pressão militar cristã sobre as camadas “populares” do Gharb al-Andalus nas décadas de 1210-1240, que eventualmente ditaria a conquista da cidade em 1238 ou – mais provavelmente – em c. 1242 e o abandono desta zona, convertida em cemitério pelos conquistadores cristãos.

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~ José Luís Pinto Fernandes

Photos from Repensando a Idade Média. 's post 19/05/2026

OS ESCUDOS DE ARMAS DOS REIS/REINOS DAS ESPANHAS NA IDADE MÉDIA – PARTE III: A COROA DE CASTELA

Formada na Alta Idade Média como região ultraperiférica da monarquia asturo-leonesa, a região bastante fortificada de Castela – daí o seu nome – constituiu a base de poder para a tomada do poder régio leonês por Fernando I e Sancha em 1037. Porém, ao contrário das afirmações frequentes de muitos autores espanhóis, ao invés de uma hegemonia castelhana ou de reino próprio, Castela acabou mais integrada na monarquia leonesa, mesmo quando o seu território foi governado por Sancho II (r. 1065-1072).

A senhorialização da sociedade e as constantes disputas sucessórias leonesas levariam à fragmentação do espaço político asturo-leonês ao longo da primeira metade do século XII, com a separação final de Leão e Castela nos anos após a morte de Afonso VII, em 1157. Numa nova divisão do poder, Sancho III reinaria sobre o território castelhano, mas acabaria por falecer no ano seguinte e deixar o trono a Afonso VIII (r. 1158-1214), o efectivo fundador do Reino de Castela. Nestas décadas iniciais, dentro do quadro da “Espanha dos Cinco Reinos”, os castelhanos rapidamente conseguiram disputar a hegemonia peninsular com os vizinhos leoneses: assim, Afonso IX de Leão (r. 1188-1230) acabou por ser armado cavaleiro e reconhecer transitoriamente ser vassalo do seu primo castelhano, pouco tempo após subir ao trono. Ainda assim, mais de 40 anos de disputas fratricidas continuariam até à anexação de Leão por Castela, por vicissitude do falecimento de Afonso IX e do afastamento das Infantas Sancha e Dulce – portuguesas pela sua mãe, a rainha Teresa (m. 1250) -, em prol do filho sobrevivente mais velho do monarca leonês, Fernando III (r. 1217-1252).

Agora, vejamos como este processo se repercutiu na própria heráldica dos reis castelhano-leoneses...

AS ARMAS DE AFONSO VIII: A FORTALEZA DO REI E DE DEUS

Alguma historiografia nacionalista espanhola tem procurado ver as origens das armas no século XI (ONTALVA, 2014: p. 100). Os proponentes de tal tese invocam a porta da torre do povoado abandonado de La Pica (Tajahuerce, Soria), alegadamente deste período. Porém, ao verificarmos com atenção imagens deste edifício, é fácil constatar que a porta é mais tardia, correspondendo a uma cronologia tardo-medieval (Cobos & Retuerce, 2011: pp. 75 e 88), pelo que não pode ser usada para a compreensão do símbolo em apreço.

Associado a este mito está a crença errónea de que as armas dos reis hispânicos seriam inicialmente um sinal territorial e não propriamente um emblema familiar (PIDAL, 1982: págs. 11-14 e 48). Ainda que haja casos documentados de dispositivos heráldicos associados a dado senhorio territorial, estes casos são raros e resultado de acumulação de diversos senhorios por grandes senhores antes da vulgarização do quartelamento dos escudos de armas, provavelmente em regiões onde ap***s a linhagem paterna era considerada para efeitos de pertença a determinada família, como era o caso de algumas áreas de França. Assim sendo, havia uso separado de múltiplos escudos de armas em diferentes meios de representação, como o escudo e o estandarte, com um deles usado como o pessoal do senhor, o que a bom rigor não se verifica no caso da família real castelhana (PASTOREAU, 2009: pág. 57). Acima de tudo, as armas heráldicas eram dispositivos pessoais e linhagísticos, nesta fase do seu desenvolvimento.

Assim sendo, teremos de recuar à época fundacional castelhana, na segunda metade do século XII, ao reinado de Afonso VIII (OLMOS, 2014: pág. 216). Segundo Lucas de Tui, no seu “Chronicon Mundi” (L. IV, Cap. 85, ll. 61-64), Afonso VIII foi o primeiro rei a usar como armas o castelo, apesar de os seus antepassados régios estarem acostumados a representar o leão. Voltaremos mais tarde a este contraste, mas este comentário parece acertado se olharmos para as fontes. No caso das moedas, este é o monarca que apresenta pela primeira vez castelos no reverso das suas emissões monetárias de bolhão, de datação muito difícil. Se houve autores a avançar a tese de que apareceriam pela primeira vez em 1178 (MONZÓN, 2002: pág. 22) ou 1180 (OLMOS, 2014: pág. 231), as moedas em que aparece o castelo – conhecidas como “burgalés” – deverão ser datadas da época em torno da batalha das Navas de Tolosa, ocorrida em 1212 (TODESCA, 2019: págs. 45-47). Também não sabemos bem quando foram produzidos a estola de Leonor de Inglaterra, oferecida à colegiada de São Isidoro de Leão, ou o fragmento do manto encontrado no túmulo de Afonso VIII – e agora exposto no Museo de las Ricas Telas, no Mosteiro das Huelgas de Burgos (Carretero, 2005). Ainda assim, pela documentação temos uma primeira referência segura graças ao reverso do primeiro selo de chumbo régio castelhano conhecido, datado de 12 de Abril de 1176 (SALCEDO, 1994: pp. 119).

Agora que sabemos quem promoveu este escudo heráldico, vejamos a sua simbologia. Afonso VIII optou por representar um fundo vermelho sobre o qual colocou um castelo dourado, com a torre de menagem no centro e duas torres laterais. As cores deste escudo de armas são bastante similares às dos Plantageneta, o que não parece inocente dado o rei de Castela se ter casadoem 1170 com Leonor, filha de Henrique II de Inglaterra e Leonor da Aquitânia. Assim, não podemos excluir a possibilidade de influência inglesa sobre as armas reais castelhanas (PIDAL, 1982: pág. 49).

Mais seguro parecem os fundamentos ideológicos sobre os quais se assenta este símbolo. Para além de óbvias armas falantes, a substituição frequente da torre de menagem por símbolos como a cruz ou a cabeça do próprio rei nas moedas de Afonso VIII convida a uma série de interpretações. Por um lado, a ideia de fortaleza da fé cristã promovida pela corte régia castelhana, contra o poder almóada em desenvolvimento a Sul. Por outro, o número de três torres evocava uma representação pictorial da Santíssima Trindade (ONTALVA, 2014: págs. 99-104). Se tal parece um pouco forçado, não nos podemos esquecer da mensagem trinitária escrita em árabe nos maravedis (moedas de ouro) cunhadas por este rei castelhano, por oposição ideológica à ênfase teológica do Califado Almóada na unicidade de Deus, parte da sua doutrina islâmica conhecida como Unitarismo (TODESCA, pág. 39).

Por fim, dada a sua absoluta raridade e até quebra das regras mais tarde conhecidas, num cenário provavelmente ainda muito fluido de criação de um novo sistema heráldico, voltemos à questão da mudança das armas apontada por Lucas de Tui, quando comenta o contraste entre o castelo de Afonso VIII e o leão do seu avô, Afonso VII, apresentado como o símbolo imemorial dos antepassados da linhagem real castelhana. Seria suposto Afonso VIII herdar o leão do avô através do seu pai Sancho III, cuja heráldica não é conhecida. Mas, de algum modo, não foi essa a opção castelhana: possivelmente algures em 1170-1176, assumindo a validade da hipótese de influência angevina, houve uma mudança de armas inequívoca. O que justifica isto?

Não é fácil avançar motivos, mas aqui é necessário olhar para o seu simbolismo no contexto da rivalidade castelhano-leonesa então acesa, no período de divisão conhecido como a “Espanha dos Cinco Reinos” (1157-1230). Por um lado, usar armas próprias e não as mesmas dos reis leoneses, especialmente dada a fácil associação do animal à cidade homónima, seria uma forma de afirmar a independência castelhana face a Fernando II, contra quem Afonso VIII tivera de se afirmar e reconquistar boa parte do seu reino (incluindo Toledo) poucos anos antes. Por outro lado, sendo armas falantes, é possível olhar para esta escolha como um sinal precoce de identificação entre rei e reino, dentro do projecto de construção de um novo espaço político castelhano, não só contra os leoneses, mas também como líder das guerras travadas contra o poder almóada no al-Andalus.

Dado o sucesso político e militar de Afonso VIII durante o seu longo reinado, rematado na batalha das Navas de Tolosa (1212), praticamente todos os seus descendentes usariam as suas armas, mesmo fora de Castela, com excepção de Sancho II de Portugal e Luís IX de França (PIDAL, 1982: pág. 53). Ainda assim, estas excepções confirmam a regra, na medida em que as armas castelhanas acabariam integradas nas da casa real portuguesa com Afonso III, enquanto em França o monarca capetíngeo não se coibia de exibir orgulhosamente as armas da sua mãe Branca em lugares importantes como os vitrais da Sainte-Chappelle, no palácio real da Île de la Cité em Paris, mesmo após o falecimento da rainha (Cohen, 2015: págs. 141 e 201).

O ESCUDO QUARTELADO DE FERNANDO III: PARTICULARIDADES HERÁLDICAS DO PROCESSO DE UNIÃO DE CASTELA E LEÃO (1230)

Afonso VIII de Castela deixou ap***s um filho varão sobrevivente, Henrique I, falecido em circunstâncias misteriosas em 1217 para dar lugar à irmã Berenguela. Esta, por lugar de subterfúgios, conseguiu trazer o seu filho primogénito Fernando III – filho desta senhora com Afonso IX de Leão - e associou-o à coroa. Tal iniciou mais uma ronda de conflitos a misturar assuntos familiares e questões políticas, por o rei leonês entender que tinha direitos ao trono castelhano.

Numa época em que – ao contrário do que muitas vezes se afirma – as linhagens nobiliárquicas entre a fidalguia hispânica transmitiam poder material e simbólico tanto através da via feminina como masculina, quando a linhagem materna era mais importante para os propósitos de determinada personagem/família ou era mais prestigiada, os nobres não tinham receio de afazer uso dela Foi este também o caso de Fernando III, cujos selos mostram o rei com um leão no anverso, enquanto no reverso aparece o castelo, que num exemplo chega a estar ladeado de dois leões (PIDAL, 1982: pág. 87).

Passados uns anos, em 1230, Afonso IX de Leão morria depois de uma campanha vitoriosa contra Badajoz. Apesar de ter dois filhos varões com a rainha Berenguela de Castela, parece que o leonês preferiu associar ao trono duas filhas do seu primeiro casamento com Teresa de Portugal, as Infantas Sancha e Dulce. Gerou-se novo conflito com toques de quase-guerra civil, no qual Fernando III acabou por conseguir impor o que considerava ser o seu lugar às irmãs, pelo Pacto de Benavente. Acabava a divisão dos dois reinos, unidos sob a prática anexação castelhana.

Com a união dos reinos, surgiu o problema de representar heraldicamente a nova realidade política e familiar da realeza castelhano-leonesa. O dilema não era exactamente único, sendo a este propósito útil recordar as discussões em torno das hipotéticas armas de Carlos Magno na Idade Média Tardia, gradualmente “resolvidas” em favor de armas imaginárias, nas quais a flor-de-lis capetíngia e a água imperial dos Staufen eram ambas colocadas e repartiam igualitariamente o escudo, para simbolizar que o imperador carolíngio seria o pai simbólico dos reinos de França e da Alemanha (um dos reinos pertencentes ao Sacro Império Romano-Germânica) (PASTOUREAU, 2009: pág. 195).

A solução castelhana adoptada a partir de 1231 foi diferente, passando por quartelar os escudos, uma prática então em surgimento na heráldica medieval para representar senhores com múltiplos laços linhagísticos importantes para o seu prestígio e poder pessoais dentro de um mesmo escudo (PASTOUREAU, 2009: pág. 132). Deste modo, Fernando III optou por colocar no primeiro e quarto quartéis as armas da casa real castelhana, enquanto no segundo e terceiro colocou as da família paterna. Ou seja, o símbolo castelhano ocupava a primazia enquanto o leonês era secundarizado, simbolizando ao mesmo tempo a intenção de união definitiva dos reinos e a subordinação de Leão a Castela, apresentado nos documentos sempre em primeiro lugar. A prática seria continuada por quase todos os membros da casa real ao longo da Idade Média, com a excepção curiosa do Infante Fernando de la Cerda (m. 1275), o filho primogénito de Afonso X (r. 1252-1284). Este infante apresenta na maior parte das suas vestes funerárias – mas não todas – o leão no primeiro e quarto quartéis, o que talvez se correlacione com a sua actividade governativa em Leão, enquanto herdeiro da Coroa (Pidal, 1982: págs. GUILLÉN, 2021: págs. 35-38).

Assim, a heráldica régia castelhano-leonesa – ainda hoje central na bandeira do Estado de Espanha contemporâneo – é um poderoso símbolo da luta pela hegemonia peninsular entre os reis de Leão e Castela, suportados respectivamente pelas aristocracias galego-leonesa e castelhana, nas suas competições por recursos. E, de forma mais surpreendente, parecem demonstrar de forma muito precoce o início da evolução de armas meramente pessoais para símbolos igualmente das comunidades políticas de cada um destes reinos em desenvolvimento...

BIBLIOGRAFIA:

Carretero, Co**ha Herrero (2005). “Fragmento del manto de Alfonso VIII”. In Luarces, Joaquín Yarza (Coord.), “Vestiduras Ricas. El monasterio de las Huelgas y su época, 1170-1340”. Patrimonio Nacional, Madrid.

Cobos, Fernando; Retuerce, Manuel (2011). “Metodología, valoración y criterios de intervención en la arquitectura fortificada de Castilla y León. Catálogo de las provincias de León, Salamanca, Valladolid y Zamora”. Junta de Castilla y León, Valladolid.

Guillén, Fernando Arias (2021). “The Triumph of an Accursed Lineage. Kingship in Castile from Alfonso X to Alfonso XI (1252-1350)”. Routledge, 1ª edição, Nova Iorque.

Lucas de Tui (2003). “Lvcae Tudensis Opera Omnia – Tomvs I – Chronicon Mundi” (ed. Emma Falque). Série “Corpvs Christianorvm – Continuatio Medieaevalis”, vol. LXXIV. Turnhout – Brepols Publishers.

Monzón, Olga Pérez (2007). “Iconografía y poder real en Castilla: las imágenes de Alfonso VIII”. Separata del “Anuario del Departamento de Historia y Teoría del Arte”, vol. XIV, págs. 19-41.

Navascués, Faustino Menéndez Pidal de (1982). “La heráldica medieval española, vol. I. La casa real de León y Castilla”. Instituto Salazar y Castro (CSIC), Madrid.

Olmos, José María de Francisco (2014). “La emblemática castellana de Alfonso VIII: signos reales, monedas y selos”. In ARAMHG, vol. XVII, págs. 215-249.

Ontalva, J. Santiago Palacios (2014). “Fortalezas de fe. La dimensión simbólica de la arquitectura militar en las fronteras entre la Cristiandad y el Islam en torno a 1212”. In Diez, Carlos Estepa; Ruiz, María Antonia Carmona (Coords.), “La Península Ibérica en tiempos de las Navas de Tolosa”. Monografías de la Sociedad Española de Estudios Medievales, nº 5, Madrid, págs. 93-108.

Pastoureau, Michel (2009). “L’Art heráldique au Moyen Âge”. Éditions du Seuil, Paris.

Salcedo, Pilar Ostos (1994). “La cancillería de Alfonso VIII, rey de Castilla (1158-1214)”. Una aproximación. In “Boletín Millares Carlo”, núm. 13, págs. 101-136.

Todesca, James J. (2019). “Selling Castile: Coinage, Propaganda, and Mediterranean Trade in the Age of Alfonso VIII”. In Gómez, Miguel; Smith, Damian e Lincoln, Kyle C. (Eds.), “King Alfonso VIII of Castile. Government, Family and War”. Fordham University Press, Nova Iorque.

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~ José Luís Fernandes

13/01/2026

COROA ALTO-MEDIEVAL RESGATADA EM ESPANHA

No dia 2 de Dezembro de 2025, a Polícia Nacional espanhola efectuou uma operação contra um grupo de crime organizado, especializado no saque de objectos obtidos através de escavações ilegais com recurso a detectores de metais bastante sofisticados e na sua posterior venda física/digital, na cidade de Leão.

No meio das buscas, encontraram mais de 6000 moedas de distintos períodos (incluindo moedas de ouro do período godo) e 1000 outras peças arqueológicas proveniente de diversos sítios arqueológicos da Comunidade de Castela e Leão, somando um valor de mercado possivelmente superior a 1 milhão de euros. As peças virão a ser alocadas a um museu, ainda por determinar,da referida Comunidade, onde serão estudadas e eventualmente musealizadas.

Entre os bens encontrados, destacam-se os fragmentos de uma coroa votiva alto-medieval, alegadamente datada do século VI e proveniente de um sítio arqueológico na província de Valladolid. O seu formato é muito similar às coroas dos tesouros de Guarrazar e de Torredonjimeno, encontrados em 1858 e 1926 respectivamente. Por serem objectos de luxo indicadores das práticas religiosas das elites do reino godo de Toledo, desde reis como Recesvinto até bispos e abades locais, são objectos que naturalmente se perderam na sua maioria pela natureza do seu material, muito fácil de reciclar para fazer novas peças. Como se isto não bastasse, o estudo das peças previamente conhecidas é dificultado por não se encontrarem aparentemente no seu contexto original e geralmente apresentam um percurso lamentável: foram quase todas escavadas sem método científico, traficadas e até roubadas (como as 2 coroas furtadas da Real Armería em 1921 e 1936).

Portanto, ao escavacar sem cuidado ou registo científico para vender antiguidades, este grupo pode ter posto em risco a integridade deste ou de outros objectos, para além de impedir qualquer informação sobre o contexto do achado, que corresponde à informação mais importante para a arqueologia contemporânea. Isto para não falar do modo como estes criminosos estão dispostos a vender tesouros como esta coroa no mercado internacional, sem escrúpulos perante a comunidade onde vivem.

O mesmo vale em menor escala para os detectoristas amadores, sem treino na área, ainda que sobre estes possamos ter uma variedade de opiniões, entre a posição britânica de permissividade ao amadorismo e a posição portuguesa/espanhola de o restringir a arqueólogos autorizados. Ambas as posições relativas aos detectoristas têm certamente argumentos a favor e contra válidos, sem consenso no mundo da arqueologia. Independentemente da estratégia adoptada, porém, o fundamental é salvaguardar o nosso património deste tipo de saques e promover a menor destruição possível, quer ao punir criminosos, quer ao promover a consciencialização e educação dos detectoristas amadores e da comunidade em geral.

Fonte da imagem: ABC.

Ligações:

- Ministério do Interior espanhol: https://www.interior. gob.es/open cms/eu/detalle/articulo/La-Policia-Nacional-recupera-en-Leon-una-corona-visigoda-de-oro-da tada-en-el-siglo-VI/

- Vídeo da Polícia Nacional sobre a operação: https ://ww w.yout ube.c om/watch?v=gA496UjKpds

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~ José Luís Pinto Fernandes

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