19/05/2026
OS ESCUDOS DE ARMAS DOS REIS/REINOS DAS ESPANHAS NA IDADE MÉDIA – PARTE III: A COROA DE CASTELA
Formada na Alta Idade Média como região ultraperiférica da monarquia asturo-leonesa, a região bastante fortificada de Castela – daí o seu nome – constituiu a base de poder para a tomada do poder régio leonês por Fernando I e Sancha em 1037. Porém, ao contrário das afirmações frequentes de muitos autores espanhóis, ao invés de uma hegemonia castelhana ou de reino próprio, Castela acabou mais integrada na monarquia leonesa, mesmo quando o seu território foi governado por Sancho II (r. 1065-1072).
A senhorialização da sociedade e as constantes disputas sucessórias leonesas levariam à fragmentação do espaço político asturo-leonês ao longo da primeira metade do século XII, com a separação final de Leão e Castela nos anos após a morte de Afonso VII, em 1157. Numa nova divisão do poder, Sancho III reinaria sobre o território castelhano, mas acabaria por falecer no ano seguinte e deixar o trono a Afonso VIII (r. 1158-1214), o efectivo fundador do Reino de Castela. Nestas décadas iniciais, dentro do quadro da “Espanha dos Cinco Reinos”, os castelhanos rapidamente conseguiram disputar a hegemonia peninsular com os vizinhos leoneses: assim, Afonso IX de Leão (r. 1188-1230) acabou por ser armado cavaleiro e reconhecer transitoriamente ser vassalo do seu primo castelhano, pouco tempo após subir ao trono. Ainda assim, mais de 40 anos de disputas fratricidas continuariam até à anexação de Leão por Castela, por vicissitude do falecimento de Afonso IX e do afastamento das Infantas Sancha e Dulce – portuguesas pela sua mãe, a rainha Teresa (m. 1250) -, em prol do filho sobrevivente mais velho do monarca leonês, Fernando III (r. 1217-1252).
Agora, vejamos como este processo se repercutiu na própria heráldica dos reis castelhano-leoneses...
AS ARMAS DE AFONSO VIII: A FORTALEZA DO REI E DE DEUS
Alguma historiografia nacionalista espanhola tem procurado ver as origens das armas no século XI (ONTALVA, 2014: p. 100). Os proponentes de tal tese invocam a porta da torre do povoado abandonado de La Pica (Tajahuerce, Soria), alegadamente deste período. Porém, ao verificarmos com atenção imagens deste edifício, é fácil constatar que a porta é mais tardia, correspondendo a uma cronologia tardo-medieval (Cobos & Retuerce, 2011: pp. 75 e 88), pelo que não pode ser usada para a compreensão do símbolo em apreço.
Associado a este mito está a crença errónea de que as armas dos reis hispânicos seriam inicialmente um sinal territorial e não propriamente um emblema familiar (PIDAL, 1982: págs. 11-14 e 48). Ainda que haja casos documentados de dispositivos heráldicos associados a dado senhorio territorial, estes casos são raros e resultado de acumulação de diversos senhorios por grandes senhores antes da vulgarização do quartelamento dos escudos de armas, provavelmente em regiões onde ap***s a linhagem paterna era considerada para efeitos de pertença a determinada família, como era o caso de algumas áreas de França. Assim sendo, havia uso separado de múltiplos escudos de armas em diferentes meios de representação, como o escudo e o estandarte, com um deles usado como o pessoal do senhor, o que a bom rigor não se verifica no caso da família real castelhana (PASTOREAU, 2009: pág. 57). Acima de tudo, as armas heráldicas eram dispositivos pessoais e linhagísticos, nesta fase do seu desenvolvimento.
Assim sendo, teremos de recuar à época fundacional castelhana, na segunda metade do século XII, ao reinado de Afonso VIII (OLMOS, 2014: pág. 216). Segundo Lucas de Tui, no seu “Chronicon Mundi” (L. IV, Cap. 85, ll. 61-64), Afonso VIII foi o primeiro rei a usar como armas o castelo, apesar de os seus antepassados régios estarem acostumados a representar o leão. Voltaremos mais tarde a este contraste, mas este comentário parece acertado se olharmos para as fontes. No caso das moedas, este é o monarca que apresenta pela primeira vez castelos no reverso das suas emissões monetárias de bolhão, de datação muito difícil. Se houve autores a avançar a tese de que apareceriam pela primeira vez em 1178 (MONZÓN, 2002: pág. 22) ou 1180 (OLMOS, 2014: pág. 231), as moedas em que aparece o castelo – conhecidas como “burgalés” – deverão ser datadas da época em torno da batalha das Navas de Tolosa, ocorrida em 1212 (TODESCA, 2019: págs. 45-47). Também não sabemos bem quando foram produzidos a estola de Leonor de Inglaterra, oferecida à colegiada de São Isidoro de Leão, ou o fragmento do manto encontrado no túmulo de Afonso VIII – e agora exposto no Museo de las Ricas Telas, no Mosteiro das Huelgas de Burgos (Carretero, 2005). Ainda assim, pela documentação temos uma primeira referência segura graças ao reverso do primeiro selo de chumbo régio castelhano conhecido, datado de 12 de Abril de 1176 (SALCEDO, 1994: pp. 119).
Agora que sabemos quem promoveu este escudo heráldico, vejamos a sua simbologia. Afonso VIII optou por representar um fundo vermelho sobre o qual colocou um castelo dourado, com a torre de menagem no centro e duas torres laterais. As cores deste escudo de armas são bastante similares às dos Plantageneta, o que não parece inocente dado o rei de Castela se ter casadoem 1170 com Leonor, filha de Henrique II de Inglaterra e Leonor da Aquitânia. Assim, não podemos excluir a possibilidade de influência inglesa sobre as armas reais castelhanas (PIDAL, 1982: pág. 49).
Mais seguro parecem os fundamentos ideológicos sobre os quais se assenta este símbolo. Para além de óbvias armas falantes, a substituição frequente da torre de menagem por símbolos como a cruz ou a cabeça do próprio rei nas moedas de Afonso VIII convida a uma série de interpretações. Por um lado, a ideia de fortaleza da fé cristã promovida pela corte régia castelhana, contra o poder almóada em desenvolvimento a Sul. Por outro, o número de três torres evocava uma representação pictorial da Santíssima Trindade (ONTALVA, 2014: págs. 99-104). Se tal parece um pouco forçado, não nos podemos esquecer da mensagem trinitária escrita em árabe nos maravedis (moedas de ouro) cunhadas por este rei castelhano, por oposição ideológica à ênfase teológica do Califado Almóada na unicidade de Deus, parte da sua doutrina islâmica conhecida como Unitarismo (TODESCA, pág. 39).
Por fim, dada a sua absoluta raridade e até quebra das regras mais tarde conhecidas, num cenário provavelmente ainda muito fluido de criação de um novo sistema heráldico, voltemos à questão da mudança das armas apontada por Lucas de Tui, quando comenta o contraste entre o castelo de Afonso VIII e o leão do seu avô, Afonso VII, apresentado como o símbolo imemorial dos antepassados da linhagem real castelhana. Seria suposto Afonso VIII herdar o leão do avô através do seu pai Sancho III, cuja heráldica não é conhecida. Mas, de algum modo, não foi essa a opção castelhana: possivelmente algures em 1170-1176, assumindo a validade da hipótese de influência angevina, houve uma mudança de armas inequívoca. O que justifica isto?
Não é fácil avançar motivos, mas aqui é necessário olhar para o seu simbolismo no contexto da rivalidade castelhano-leonesa então acesa, no período de divisão conhecido como a “Espanha dos Cinco Reinos” (1157-1230). Por um lado, usar armas próprias e não as mesmas dos reis leoneses, especialmente dada a fácil associação do animal à cidade homónima, seria uma forma de afirmar a independência castelhana face a Fernando II, contra quem Afonso VIII tivera de se afirmar e reconquistar boa parte do seu reino (incluindo Toledo) poucos anos antes. Por outro lado, sendo armas falantes, é possível olhar para esta escolha como um sinal precoce de identificação entre rei e reino, dentro do projecto de construção de um novo espaço político castelhano, não só contra os leoneses, mas também como líder das guerras travadas contra o poder almóada no al-Andalus.
Dado o sucesso político e militar de Afonso VIII durante o seu longo reinado, rematado na batalha das Navas de Tolosa (1212), praticamente todos os seus descendentes usariam as suas armas, mesmo fora de Castela, com excepção de Sancho II de Portugal e Luís IX de França (PIDAL, 1982: pág. 53). Ainda assim, estas excepções confirmam a regra, na medida em que as armas castelhanas acabariam integradas nas da casa real portuguesa com Afonso III, enquanto em França o monarca capetíngeo não se coibia de exibir orgulhosamente as armas da sua mãe Branca em lugares importantes como os vitrais da Sainte-Chappelle, no palácio real da Île de la Cité em Paris, mesmo após o falecimento da rainha (Cohen, 2015: págs. 141 e 201).
O ESCUDO QUARTELADO DE FERNANDO III: PARTICULARIDADES HERÁLDICAS DO PROCESSO DE UNIÃO DE CASTELA E LEÃO (1230)
Afonso VIII de Castela deixou ap***s um filho varão sobrevivente, Henrique I, falecido em circunstâncias misteriosas em 1217 para dar lugar à irmã Berenguela. Esta, por lugar de subterfúgios, conseguiu trazer o seu filho primogénito Fernando III – filho desta senhora com Afonso IX de Leão - e associou-o à coroa. Tal iniciou mais uma ronda de conflitos a misturar assuntos familiares e questões políticas, por o rei leonês entender que tinha direitos ao trono castelhano.
Numa época em que – ao contrário do que muitas vezes se afirma – as linhagens nobiliárquicas entre a fidalguia hispânica transmitiam poder material e simbólico tanto através da via feminina como masculina, quando a linhagem materna era mais importante para os propósitos de determinada personagem/família ou era mais prestigiada, os nobres não tinham receio de afazer uso dela Foi este também o caso de Fernando III, cujos selos mostram o rei com um leão no anverso, enquanto no reverso aparece o castelo, que num exemplo chega a estar ladeado de dois leões (PIDAL, 1982: pág. 87).
Passados uns anos, em 1230, Afonso IX de Leão morria depois de uma campanha vitoriosa contra Badajoz. Apesar de ter dois filhos varões com a rainha Berenguela de Castela, parece que o leonês preferiu associar ao trono duas filhas do seu primeiro casamento com Teresa de Portugal, as Infantas Sancha e Dulce. Gerou-se novo conflito com toques de quase-guerra civil, no qual Fernando III acabou por conseguir impor o que considerava ser o seu lugar às irmãs, pelo Pacto de Benavente. Acabava a divisão dos dois reinos, unidos sob a prática anexação castelhana.
Com a união dos reinos, surgiu o problema de representar heraldicamente a nova realidade política e familiar da realeza castelhano-leonesa. O dilema não era exactamente único, sendo a este propósito útil recordar as discussões em torno das hipotéticas armas de Carlos Magno na Idade Média Tardia, gradualmente “resolvidas” em favor de armas imaginárias, nas quais a flor-de-lis capetíngia e a água imperial dos Staufen eram ambas colocadas e repartiam igualitariamente o escudo, para simbolizar que o imperador carolíngio seria o pai simbólico dos reinos de França e da Alemanha (um dos reinos pertencentes ao Sacro Império Romano-Germânica) (PASTOUREAU, 2009: pág. 195).
A solução castelhana adoptada a partir de 1231 foi diferente, passando por quartelar os escudos, uma prática então em surgimento na heráldica medieval para representar senhores com múltiplos laços linhagísticos importantes para o seu prestígio e poder pessoais dentro de um mesmo escudo (PASTOUREAU, 2009: pág. 132). Deste modo, Fernando III optou por colocar no primeiro e quarto quartéis as armas da casa real castelhana, enquanto no segundo e terceiro colocou as da família paterna. Ou seja, o símbolo castelhano ocupava a primazia enquanto o leonês era secundarizado, simbolizando ao mesmo tempo a intenção de união definitiva dos reinos e a subordinação de Leão a Castela, apresentado nos documentos sempre em primeiro lugar. A prática seria continuada por quase todos os membros da casa real ao longo da Idade Média, com a excepção curiosa do Infante Fernando de la Cerda (m. 1275), o filho primogénito de Afonso X (r. 1252-1284). Este infante apresenta na maior parte das suas vestes funerárias – mas não todas – o leão no primeiro e quarto quartéis, o que talvez se correlacione com a sua actividade governativa em Leão, enquanto herdeiro da Coroa (Pidal, 1982: págs. GUILLÉN, 2021: págs. 35-38).
Assim, a heráldica régia castelhano-leonesa – ainda hoje central na bandeira do Estado de Espanha contemporâneo – é um poderoso símbolo da luta pela hegemonia peninsular entre os reis de Leão e Castela, suportados respectivamente pelas aristocracias galego-leonesa e castelhana, nas suas competições por recursos. E, de forma mais surpreendente, parecem demonstrar de forma muito precoce o início da evolução de armas meramente pessoais para símbolos igualmente das comunidades políticas de cada um destes reinos em desenvolvimento...
BIBLIOGRAFIA:
Carretero, Co**ha Herrero (2005). “Fragmento del manto de Alfonso VIII”. In Luarces, Joaquín Yarza (Coord.), “Vestiduras Ricas. El monasterio de las Huelgas y su época, 1170-1340”. Patrimonio Nacional, Madrid.
Cobos, Fernando; Retuerce, Manuel (2011). “Metodología, valoración y criterios de intervención en la arquitectura fortificada de Castilla y León. Catálogo de las provincias de León, Salamanca, Valladolid y Zamora”. Junta de Castilla y León, Valladolid.
Guillén, Fernando Arias (2021). “The Triumph of an Accursed Lineage. Kingship in Castile from Alfonso X to Alfonso XI (1252-1350)”. Routledge, 1ª edição, Nova Iorque.
Lucas de Tui (2003). “Lvcae Tudensis Opera Omnia – Tomvs I – Chronicon Mundi” (ed. Emma Falque). Série “Corpvs Christianorvm – Continuatio Medieaevalis”, vol. LXXIV. Turnhout – Brepols Publishers.
Monzón, Olga Pérez (2007). “Iconografía y poder real en Castilla: las imágenes de Alfonso VIII”. Separata del “Anuario del Departamento de Historia y Teoría del Arte”, vol. XIV, págs. 19-41.
Navascués, Faustino Menéndez Pidal de (1982). “La heráldica medieval española, vol. I. La casa real de León y Castilla”. Instituto Salazar y Castro (CSIC), Madrid.
Olmos, José María de Francisco (2014). “La emblemática castellana de Alfonso VIII: signos reales, monedas y selos”. In ARAMHG, vol. XVII, págs. 215-249.
Ontalva, J. Santiago Palacios (2014). “Fortalezas de fe. La dimensión simbólica de la arquitectura militar en las fronteras entre la Cristiandad y el Islam en torno a 1212”. In Diez, Carlos Estepa; Ruiz, María Antonia Carmona (Coords.), “La Península Ibérica en tiempos de las Navas de Tolosa”. Monografías de la Sociedad Española de Estudios Medievales, nº 5, Madrid, págs. 93-108.
Pastoureau, Michel (2009). “L’Art heráldique au Moyen Âge”. Éditions du Seuil, Paris.
Salcedo, Pilar Ostos (1994). “La cancillería de Alfonso VIII, rey de Castilla (1158-1214)”. Una aproximación. In “Boletín Millares Carlo”, núm. 13, págs. 101-136.
Todesca, James J. (2019). “Selling Castile: Coinage, Propaganda, and Mediterranean Trade in the Age of Alfonso VIII”. In Gómez, Miguel; Smith, Damian e Lincoln, Kyle C. (Eds.), “King Alfonso VIII of Castile. Government, Family and War”. Fordham University Press, Nova Iorque.
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~ José Luís Fernandes