05/11/2021
"Há anos entrevistei uma sobrevivente de Auschwitz: Emmy Blum. Ela fora uma das “escolhidas” para serem submetidos às experiências de Menghelle.
Com o fim da guerra e a libertação dos prisioneiros, ela reencontrou o noivo e migrou para o Brasil.
Em SP, a húngara que não falava nada em português, com pouquíssimo dinheiro, se virava na feira.
Batata, tomate e uma iguaria que jogavam fora, como descarte, e que no seu país valia ouro: pés de galinha.
Ela chegava no fim da feira com uma bolsa de tecido e os barraqueiros davam para ela em troca de parcas moedas. E riam daquele apego ao que era descartado pela maioria.
Ela dizia:
-As húngaras mais abastadas e vaidosas disputavam pés de galinha porque são ricos em colágeno e garantem a beleza e o viço da pele.
Emmy (pronuncia-se Emma, ensinou) era altiva, bela, falante, orgulhosa e cativante. Seu ofício? Esteticista. E mereceu um documentário com este título.
Em seu apartamento, ao fim da entrevista, ofereceu um doce e me desafiou a descobrir o ingrediente principal: olhei, provei, cheirei, olhei de novo e por fim desisti:
- Casca de melancia!
Quando fui embora, comovido e feliz, ela me chamou e fez uma pergunta seguida de um pedido:
- Você conhece a Hungria? Promete que se um dia for cantará uma música bonita, a mais bonita que pensar, e lembrará de mim?
A promessa foi cumprida em 2019.
O acaso me levou ao país e cantei uma canção, baixinho, às margens do Danúbio mentalizando a amiga que nunca mais vi, mas soube, pela filha, quando partiu.
* Esculturas homenageiam vítimas do Nazismo obrigadas a se jogar no Danúbio congelado no auge da guerra.
** Tenho lembrado muito de Emmy nestes tempos onde pés de galinha ganham a mesa na casa dos mais pobres. Vem de longe esta história."
*** Texto e Foto do Fábio Lau
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