25/09/2026
“Você já combinou com os russos?”
A famosa anedota de Garrincha na Copa de 1958 guarda uma das melhores traduções práticas do existencialismo de Jean-Paul Sartre.
Na prancheta do técnico, a jogada era perfeita: dribles previstos, passes milimétricos e gol certo. Mas faltava um detalhe elementar — do outro lado do campo havia onze sujeitos com vontades próprias, estratégias distintas e liberdade de ação.
Quando Sartre escreveu que “o inferno são os outros” , ele não estava sendo pessimista com a convivência. Em sua filosofia, o “inferno” é o choque inevitável com a liberdade alheia.
Na nossa cabeça, somos diretores do mundo: planejamos a carreira, os relacionamentos e os dias como se as pessoas fossem peças estáticas no nosso tabuleiro.
Só que o Outro não é um figurante do nosso roteiro. Ele pensa, decide, reage e bagunça qualquer previsão idealizada. A presença do outro tira a nossa ilusão de controle e nos obriga a encarar a realidade como ela é: imprevisível e negociada a cada lance.
No papel, todo plano é campeão invicto. Na vida real, a bola rola — e é preciso saber jogar com a liberdade alheia.
E você, quantas vezes montou o cenário perfeito na sua cabeça e esqueceu de “combinar com os russos”?