Ontem o meu filho decorou uma poesia a correr à volta da sala.
E eu não o mandei parar. Nem sentar. Nem “estar quieto e concentrar-se.”
Porque eu conheço o perfil dele. Sei que o corpo dele precisa de movimento para integrar informação. É assim que o cérebro dele organiza o que recebe.
Em neurociência do desenvolvimento, isto chama-se o canal preferencial: a via através da qual o cérebro processa melhor a informação.
Quando forçamos uma criança que precisa de movimento a estar quieta, o cérebro dela gasta tanta energia a “tentar não se mexer” que sobra menos espaço para aprender.
Para algumas crianças, o canal preferencial é o movimento.
Para outras, é o som: precisam de ouvir e repetir em voz alta.
Para outras ainda, é visual: escrever, desenhar, olhar várias vezes.
Não há um perfil melhor que outro. Há o perfil do teu filho. E quando tu o conheces, tudo muda, incluindo a forma como geres os trabalhos de casa.
Conhecer o perfil não é um luxo. É a diferença entre lutar contra o funcionamento do teu filho e trabalhar com ele.
Método NSR™: reencontrar o equilíbrio familiar através da regulação, não do controlo.
Enf. Catia Godinho - Método Bebé Intenso
Criadora do Método Bebé Intenso®
Trabalho com famílias e profissionais que procuram compreensão baseada em ciência.
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https://catiagodinho.ch/o-teu-filho-nao-te-quer-vencer-ele-esta-apenas-desregulado/
29/03/2026
Coisas que eu gostava que me tivessem dito antes de ser mãe:
Cada um dos teus filhos terá uma mãe diferente e às vezes vais sentir que isso é injusto.
É verdade. Cada um dos meus filhos teve uma mãe diferente.
O mais velho teve uma mãe de primeira viagem, inexperiente não só na maternidade e na parentalidade mas também na vida em geral.
Uma mãe que nem sempre compreendia as suas necessidades, e que nem sempre respondia a essas necessidades da melhor forma. Até que percebi que esse não era o meu caminho e que eu tinha a responsabilidade de quebrar o padrão.
Essa mãe de primeira viagem foi crescendo, amadurecendo, evoluindo até ser a mãe que é hoje. E continua a evoluir. Todos os dias. Nesse caminho, cada um dos meus filhos teve uma mãe diferente. A mãe que eu era na altura do seu nascimento.
Às vezes, essa discrepância entre a mãe que eu fui para o primeiro e a mãe que eu fui para o 5o parece-me injusta. Injusta porque o meu filho mais velho também merecia ter tido a mãe que sou hoje.
Mas apesar de tudo o mais importante é isto:
Fazemos sempre o melhor que conseguimos com os recursos que temos disponíveis a cada momento.
Vamos tentando, aprendendo, melhorando. E no caminho erramos. Várias vezes.
Mas isso não faz de nós más Mães.
Faz de nós Mães reais. Que tentam, erram, recomeçam.
24/03/2026
A tua criança não escolhe fazer birras.
Como diz Daniel Siegel, o cérebro de uma criança é como uma casa em construção.
O rés-do-chão (instinto, sobrevivência) está pronto desde o nascimento.
O andar de cima (razão, linguagem, autocontrolo) ainda está em obras.
Quando a tua criança se desregula, é como se uma barreira fechasse o acesso ao andar de cima.
Ela f**a presa no rés-do-chão. Sem acesso às palavras. Sem acesso à lógica. Sem autocontrolo.
É por isso que discutir, ensinar ou castigar durante a crise não funciona.
É por isso que ela “não ouve.”
Não é que não queira. Simplesmente não consegue.
E quando a crise passa e a criança volta ao normal como se nada tivesse acontecido? É porque o sistema nervoso se regulou e o acesso ao andar de cima voltou.
Isto não é mau comportamento.
É um cérebro em construção a fazer o que pode com o que tem.
Isto não quer dizer que tenhas de ceder, pelo contrário: limites claros trazem segurança à criança. Mas na hora da crise não adianta argumentar: o andar de cima está fechado.
Então o que fazer?
➡️ O objetivo é tentar perceber como funciona a (des)regulação da criança para minimizar estes momentos de crise.
➡️ Durante a crise garantir a segurança fisica de todos (caso a criança tente magoar-se a ela propria ou aos outros) mas intervir o mínimo possível.
➡️ Após a crise, quando o acesso ao andar de cima voltar, conversar com a criança sobre o que aconteceu e sobre as eventuais consequências que daí resultem. (Devem ser adaptadas à idade e proporcionais ao ocorrido).
Partilha com alguém que precise de ler isto hoje.
22/03/2026
Domingo à noite. As crianças adormeceram.
E tu fazes o que fazes quase todas as semanas, nesse limbo de domingo à noite.
Olhas para eles a dormir e o coração aperta.
Recordas quantas vezes gritaste. Quantas vezes perdeste a paciência.
E depois vêm os outros. Os comentários. As opiniões. Tudo o que estás a fazer errado.
E questionas tudo.
Se és boa mãe. Se estás a fazer o suficiente. Se o amor chega.
E no silêncio de domingo à noite, a culpa fala mais alto que tudo o resto.
Mas há uma coisa que a culpa não te deixa ver:
O facto de te questionares já é a prova de que te importas.
Mães que não se importam não perdem o sono a pensar nisto.
Não prometem fazer melhor.
Não sentem o coração apertar ao olhar para os filhos a dormir.
Tu não estás a falhar.
Estás a amar num nível de exigência que ninguém te preparou para viver.
Estás a fazer o melhor que consegues. Com a energia que tens. Com o suporte que tens. Com os recursos que te restam ao fim do dia.
E isso não é pouco. Pelo contrário.
E se precisares de ouvir isto hoje: a perfeição não existe. Nunca existiu.
O que existe é isto: tentar, ajustar, aprender. Um dia de cada vez.
17/03/2026
Não podemos exigir que as nossas crianças reconheçam e lidem com as emoções… se não lhes mostrarmos como.
A tua criança não adivinha o que sentes. Ela interpreta.
Quando estás irritada/o, cansada/o ou sem paciência, a tua criança percebe. Ela lê o teu corpo. O teu tom de voz. A tua expressão. A tua respiração.
Mas não sabe porquê.
E quando não sabe, preenche o espaço com a única explicação que conhece: “A culpa é minha.”
A mãe está zangada por minha causa. O pai está irritado por algo que eu fiz.
Mesmo quando não tem nada a ver com ela.
A verdade é que muitas vezes a paciência não acabou por causa da criança. Acabou por causa da noite mal dormida. Do dia de trabalho. Da carga mental. Das mil solicitações do dia.
Mas a criança não sabe disto. A não ser que tu lhe digas:
“A mãe hoje está com pouca paciência. Não é por tua causa. Estou cansada.”
“Não é nada que tenhas feito, mas hoje a minha paciência hoje está do tamanho de uma ervilha.”
Isto não é dar demasiada informação. É dar nome ao que sentes para que a tua criança não tenha de adivinhar.
E o mesmo quando estás bem. Diz-lhe: “hoje sinto-me bem!” ou “hoje estou mesmo feliz!”
Não nomeies apenas as emoções que incomodam. Nomeia a felicidade, a surpresa, a satisfação. Aproveita os momentos banais do dia-a-dia para isso.
Porque quando nomear as emoções agradáveis se torna um hábito, nomear as desagradáveis é bem mais fácil.
A isto chama-se modelagem emocional. Tu és o primeiro espelho emocional da tua criança. Ela aprende a identif**ar o que sente a partir daquilo que te vê fazer com o que tu sentes.
Se escondes, ela aprende que sentir é perigoso.
Se explodes sem explicar, ela aprende que as emoções são imprevisíveis.
Se nomeias, ela aprende que sentir faz parte e que é possível gerir.
Uma criança que cresce a ouvir os adultos nomear o que sentem, aprende a fazer o mesmo com as suas próprias emoções.
Mas se ninguém lhe mostrar como se faz… dificilmente vai conseguir sozinha.
11/03/2026
A tua criança intensa sente tudo. Mais alto. Mais forte. Mais intensamente.
Uma etiqueta que incomoda como se fosse fogo.
Um barulho que para os outros é banal, mas que para ela é ensurdecedor.
Uma mudança de planos que desmorona o mundo inteiro.
Noites que são apenas a continuação dos dias exaustivos. Sem descanso. Sem pausas de recuperação.
Tu sabes que ela não faz de propósito.
Mas ninguém à tua volta parece compreender.
E mesmo assim, todos querem dar palpites.
“Deixa chorar que acaba por aprender”
“Isso é falta de limites.”
“Na minha época, não havia nada disso.”
“Se lhe desses uma boa palmada, passava-lhe.”
E tu f**as ali.
Entre o que sentes e o que te dizem.
Entre o que sabes da tua criança, os teus valores e o que os outros acham que sabem.
A verdade é esta: a tua criança não é mal-educada. Não é mimada. Não faz o que quer.
Ela tem um sistema nervoso que capta mais, processa mais e reage mais.
E isso não é nem defeito dela nem falha tua. É um perfil.
Viver com essa intensidade todos os dias tem um custo.
Para ela, que se esforça mais do que os outros imaginam.
E para ti, que seguras tudo isto… Muitas vezes perdida, muitas vezes sozinha. E muitas vezes com a culpa a falar mais alto e a pensar “será que os outros têm razão? Será que estou a fazer mal o meu trabalho?”.
Culpar os pais pelo perfil de intensidade da criança é como culpar os pais pela cor dos seus olhos. Não faz sentido.
Esperamos que a criança se sente quieta.
Que espere pela sua vez.
Que partilhe sem reclamar.
Que obedeça à primeira.
Que seja “boazinha” no supermercado, no restaurante, na casa dos avós.
Que seja independente… mas não ao ponto de nos desafiar.
Que cale as emoções “inconvenientes” e que tenha calma ao expressar as “boas”.
Exigimos tudo isto… a um cérebro que ainda é como uma casa em construção.
Quantos adultos têm o nível de paciência e de “quietude” que gostamos de exigir às nossas crianças?
O andar da lógica, do controlo, da paciência ainda está em obras.
Muitas vezes, o que chamamos de mau comportamento, agitação ou birras é apenas a criança a gerir a sobrecarga do dia-a-dia com as ferramentas que tem.
Antes de colar um rótulo de mau comportamento a uma criança, olhemos para a real capacidade que ela tem de gerir o que lhe estamos a pedir.
Será que o seu cérebro já tem capacidade para fazer face a essas exigências?
™
08/03/2026
As mulheres que vieram antes de nós não lutaram para que fôssemos julgadas.
Lutaram para que pudéssemos escolher.
Mas o caminho ainda é longo. E esta luta continua a ser a nossa.
Hoje honro isso. O poder de escolha. O teu. O meu. O nosso.
Feliz dia da mulher. 🤍
Envia a uma mulher que precisa ler isto hoje.
06/03/2026
Durante gerações, as crianças obedeciam pelo medo.
Hoje sabemos que é possível fazer diferente.
Mas… fazer diferente tem um preço:
nós somos o cabo ao qual eles se agarram.
Não podemos ser a base de regulação dos nossos filhos se nós próprios estamos em modo sobrevivência.
Antes de perguntar “porque é que se porta assim?“ pergunta:
“Como é que eu estou?”
“Tenho estado disponível (física e emocionalmente) para co-regular a minha criança?”
“Estarei a exigir dela algo que eu própria/o não estou a conseguir neste momento?”
Porque muitas vezes a realidade é esta: esperamos que a criança faça o caminho sozinha, quando ela ainda precisa de caminhar agarrada ao cabo.
Ser o Adulto regulador é fantástico, mas também é uma grande responsabilidade e um desafio ainda maior.
Implica olhar para nós. Cuidar de nós.
Deixar de ser o pilar invisível para passar a ser um dos mais valiosos.
Deixar de ser a última prioridade do sistema… para passar a ser a base dele.
Eu digo muitas vezes que a parentalidade é o melhor curso de desenvolvimento pessoal que alguma vez poderíamos fazer.
Porque nos obriga a fazer este trabalho interno.
Por isso prioriza-te. Valoriza-te. Cuida-te.
Não é egoísmo: é perceber que cuidar de ti é parte de cuidar deles.
A criança não é uma ilha isolada do resto do mundo.
Ela vive integrada numa família.
E a família é um sistema.
Em sistémica familiar comparamos a família a um móbil de berço.
Se tocares numa peça, todas as outras se movem.
Quando há uma criança intensa, o sistema não f**a “avariado”.
Mas f**a mais sensível ao movimento.
A intensidade não é um defeito.
É uma forma particular de processar e responder ao mundo.
E quando essa intensidade se manifesta com mais rapidez (quase de forma desproporcional aos olhos dos outros) ou mais frequência, o móbil inteiro mexe-se.
Os irmãos sentem.
Os pais sentem.
A rotina altera-se.
O equilíbrio f**a mais instável.
Isto não signif**a que a criança é ou tem um problema.
E também não signif**a que os pais estão a falhar.
Signif**a que o sistema ainda não encontrou uma forma de se regular face àquela intensidade.
Quando ajudamos um adulto a compreender o que está a acontecer no sistema nervoso da criança, estamos a mexer numa peça do móbil.
E o resto responde.
Não regulamos apenas a criança.
Regulamos o sistema.
Tudo o que impacta um, impacta todos.
26/02/2026
Lembras-te do vídeo onde falei sobre o copo que transborda?
Aquele momento em que dás a colher verde em vez da colher azul… e o copo transborda?
Hoje quero falar-te da excepção. Porque nem toda a explosão é cansaço acumulado.
Às vezes, o problema é mesmo a cor da colher.
Para muitas crianças intensas, o mundo é um lugar imprevisível.
E quando o mundo parece caótico, o cérebro cria padrões de segurança:
– Tem de ser a colher azul.
– O caminho tem de ser o mesmo.
– A rotina tem de seguir a mesma ordem.
Não é teimosia.
Não é capricho.
Não é mimo a mais.
É tentativa de controlo interno.
Quando mudas a colher sem aviso, não estás só a trocar um objecto. Estás a retirar previsibilidade.
E previsibilidade é segurança para aquele sistema nervoso.
Mas atenção: rigidez cognitiva não se resolve com confronto.
Resolve-se com segurança suficiente para que a flexibilidade seja possível.
Por onde começar?
1. Antecipar a mudança.
Ainda antes da refeição:
“Hoje a colher azul está para lavar. Excepcionalmente vais usar a verde.”
2. Reforçar a previsibilidade.
“Não é para sempre. Quando estiver lavada, volta para a gaveta.”
3. Manter coerência no momento.
“Lembras-te do que combinámos? Hoje é a verde.”
A flexibilidade cresce quando o cérebro se sente seguro.
Não quando é empurrado para o desconforto forçado porque “quem manda é o adulto”.
Quando dás a colher azul, não estás a ceder.
Às vezes estás a evitar uma batalha que aquele sistema ainda não tem recursos para gerir.
E isso é estratégia.
Não é permissividade.
Quando a rigidez é muito intensa, persistente ou interfere de forma signif**ativa no dia-a-dia, pode ser importante procurar apoio de um terapeuta ocupacional ou de uma psicóloga. Trabalhar em equipa também é cuidar.
Por aí, qual é a “colher” que nunca pode falhar?
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