15/09/2026
Cláudia Viúva Negra: uma trajetória de memória, resistência, literatura e ancestralidade
Cláudia Maria de Oliveira Pereira, conhecida artisticamente como Cláudia Viúva Negra, nasceu em Itabira, Minas Gerais, e construiu no Espírito Santo grande parte de sua trajetória pessoal, profissional e cultural. Mulher negra, de pertencimento cigano do povo Kali, escritora, poeta, contadora de histórias, bibliotecária, palestrante e produtora cultural, carrega em sua caminhada a força da oralidade, da literatura, da ancestralidade e da defesa do direito de cada pessoa existir e contar a própria história.
Sua trajetória não foi construída por caminhos fáceis. Cláudia atravessou experiências profundas de violência, perdas, adoecimento e reconstrução. Em vez de permitir que essas experiências fossem a única definição de sua existência, transformou parte de suas vivências em palavra, escuta, literatura e instrumento de acolhimento. Sua história é marcada, sobretudo, pela capacidade de continuar criando caminhos.
Há mais de duas décadas atua como contadora de histórias, desenvolvendo trabalhos de incentivo à leitura, valorização da oralidade e preservação das memórias. Como Cláudia Viúva Negra, fez da palavra um território de encontro entre crianças, jovens, adultos e idosos, compreendendo que contar histórias não é apenas entreter: é preservar saberes, despertar pertencimentos e permitir que outras vozes sejam ouvidas.
Sua formação em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) ampliou essa atuação. Para Cláudia, a biblioteca não é somente um espaço onde livros são organizados e emprestados. É um território vivo de conhecimento, democracia, memória, cultura, diversidade e pertencimento.
Em sua atuação como bibliotecária escolar, procura aproximar os estudantes dos livros por meio da mediação de leitura, da contação de histórias e de ações culturais. Essa concepção está presente no projeto “Biblioteca Viva – leitura, memória, oralidade e pertencimento”, que reúne propostas como rodas de leitura, contação de histórias, piqueniques literários, oficinas, saraus, clubes de leitura e atividades voltadas à memória e às culturas afro-brasileiras, indígenas e populares.
A valorização das histórias negras e afro-brasileiras ocupa lugar importante em seu trabalho. Cláudia pesquisa, escreve, conta e apresenta histórias que durante muito tempo permaneceram à margem dos espaços formais de conhecimento. Também leva consigo suas referências ciganas, suas experiências, sua ancestralidade e os conhecimentos adquiridos ao longo da vida.
Ao falar dessas culturas, Cláudia faz questão de estabelecer uma diferença fundamental: apresentar identidade, história e pertencimento não significa impor religião, ideologia ou modo de vida. Quando fala da cultura negra, da cultura cigana, das religiões de matriz africana ou de sua própria trajetória, sua intenção é compartilhar conhecimento, memória e história. Não pretende ensinar ninguém a ser negro, cigano, umbandista, candomblista, evangélico ou qualquer outra coisa. Defende, simplesmente, que todas as histórias tenham o direito de existir e serem conhecidas.
Sua espiritualidade também faz parte de sua identidade. Umbandista, candomblista e mulher de axé, Cláudia afirma sua fé com respeito às demais religiões e defende a liberdade religiosa como um direito que deve alcançar todas as pessoas igualmente.
Como escritora, poeta e contadora de histórias, utiliza a palavra como ferramenta de resistência, afeto e transformação. Como bibliotecária, compreende o livro como uma porta. Como mulher negra e cigana, reconhece na ancestralidade uma fonte de conhecimento. Como mulher que atravessou momentos difíceis e permaneceu de pé, sabe que cada existência guarda histórias que merecem ser contadas.
Cláudia Viúva Negra também é membro da Academia da Diversidade Capixaba e da Associação Brasileira de Contadores de Histórias (ABCH), fortalecendo uma caminhada construída no encontro entre literatura, educação, cultura e diversidade.
Hoje, sua trajetória reúne muitas Cláudias em uma só mulher: a bibliotecária, a escritora, a poeta, a contadora de histórias, a pesquisadora, a produtora cultural, a mulher de axé, a mulher negra, a mulher cigana, a mãe, a educadora e, principalmente, a mulher que aprendeu a transformar experiência em narrativa.
Sua história não é apenas sobre aquilo que precisou enfrentar.
É sobre aquilo que decidiu construir.
Cláudia Viúva Negra transforma memória em palavra, palavra em pertencimento e pertencimento em possibilidade de transf