13/08/2026
A cadeira ficou no corredor por tanto tempo que ninguém mais perguntava por que ela estava ali.
No começo, havia uma explicação.
Tinha sido retirada de um quarto durante uma mudança de móveis e deveria permanecer naquele lugar por apenas alguns dias.
Depois encontrariam outro espaço.
Os dias passaram.
Alguém começou a colocar uma mochila sobre ela.
Depois algumas correspondências.
De vez em quando servia para apoiar uma sacola enquanto a porta era aberta.
A cadeira havia encontrado pequenas utilidades suficientes para justif**ar sua permanência.
Mas continuava no caminho.
Para atravessar o corredor era preciso desviar um pouco o corpo.
Nada grave.
Um movimento tão pequeno que logo deixou de ser percebido.
Até que, certa manhã, resolveram tirá-la dali.
O corredor pareceu maior.
Não porque tivesse aumentado.
Mas porque todos haviam se acostumado a viver com uma parte dele indisponível.
Talvez aconteça algo parecido com algumas coisas que mantemos.
Um compromisso que já não faria tanta falta.
Uma preocupação repetida há tanto tempo que virou parte da rotina.
Um projeto que nunca termina, mas continua exigindo um pequeno espaço todos os dias.
Não incomodam o suficiente para provocar uma decisão.
Também não ajudam o suficiente para justif**ar claramente a permanência.
Então seguimos desviando.
Um pouco de tempo aqui.
Um pouco de energia ali.
Um pensamento antes de dormir.
Uma obrigação que atravessa conosco mais um mês.
Até que algum dia, por decisão ou circunstância, aquilo sai.
E descobrimos uma sensação estranha.
Não exatamente alívio.
Espaço.
O mesmo espaço que já existia antes, mas ao qual tínhamos parado de ter acesso.
Talvez saber soltar não seja ter coragem para abandonar aquilo que se tornou insuportável.
Essa parte costuma ser fácil.
Difícil é reconhecer o que ainda possui alguma utilidade, alguma história, alguma justif**ativa e, mesmo assim, perceber que já não merece continuar no meio do caminho.
Porque algumas prioridades novas não precisam de mais tempo.
Precisam apenas que a gente pare de desviar daquilo que já deveria ter saído do corredor.