28/01/2026
NÃO TE LIMPO
Com este poema,
Eu te respondo do outro lado da mesa,
onde o café já perdeu a pressa,
e a fumaça desenha pensamentos que não querem concluir nada.
Da sala de jantar, o Rio Tramandaí se entrega ao mar,
como quem sabe que não há síntese,
apenas contato.
Água doce não pede desculpa ao sal.
Sal não corrige o rio.
Eles se misturam e seguem,
isso basta.
Leio teu poema em voz alta
não para compreendê-lo,
mas para que ele atravesse o corpo.
Tua palavra não quer silêncio:
Mas deseja pulmão, garganta, risco.
Tu dizes “muito prazer”
e eu entendo:
não é apresentação,
mas aviso.
Teu corpo-texto não aceita economia afetiva,
mesmo quando nasce de migalhas.
Fazes das sobras um altar instável,
fagulhas de um incêndio que não pede licença.
Há algo em ti que sabe
que o amor nunca vem inteiro,
e ainda assim insiste.
Enquanto Vinicius confessa ao fundo
que vai amar apesar de tudo,
tu me mostras que o desejo,
também é sujar o verso,
desobedecer o espelho,
não caber na assepsia do amor concreto.
Teu viés me desloca.
Seu olhar não me acolhe:
me desnorteia.
E isso é raro.
Rocha nua, dizes.
E eu vejo:
não dureza,
permanência.
Não defesa,
excesso.
Há em ti um gozo que não quer se resolver,
dupla habilidade de não escolher lados,
de ser parda, tropical, singular
sem pedir absolvição ao conceito.
Se és “suja”,
é porque recusas o banho moral
que tenta lavar o desejo até ele desaparecer.
Tua sujeira é matéria viva,
terra fértil,
onde algo insiste em nascer mesmo contra o dia.
Eu te leio
enquanto o rio encontra o mar,
percebo:
não há interpretação neste lugar,
que dê conta disso.
Há apenas este instante,
poema atravessando a sala,
amor sem promessa,
corpo aceitando que não será resolvido.
E talvez responder seja só isso:
ficar.
Escutar.
não tentar te limpar.
Wellington Lima Amorim.
Entre o trágico e o lúcido eu escolhi não suavizar nada.