02/03/2025
A dependência química é uma coisa; o dependente químico é outra. Embora a Organização Mundial da Saúde reconheça a dependência como uma doença, isso não define quem o dependente químico é como pessoa. A doença pode afetar o comportamento, o corpo e a mente, mas não apaga a singularidade, a história e a capacidade de escolha de quem convive com ela. Reduzir o dependente químico a um diagnóstico é uma forma de desumanizá-lo, criando a falsa ideia de que ele é incapaz de seguir adiante ou de construir uma nova trajetória.
A dependência é um estado temporário, não uma identidade. Quando tratamos o dependente químico apenas pelo viés da doença, corremos o risco de limitar seu potencial, como se ele estivesse condenado a viver sob o peso do vício. Essa visão não só reforça estigmas, mas também pode levar o próprio indivíduo a acreditar que não existe outro caminho além do uso contínuo de substâncias. Muitos, infelizmente, acabam se reconhecendo nesse ciclo, acreditando que o uso faz parte de quem são, e escolhem mesmo que de forma inconsciente seguir por um caminho de dor, sofrimento e exaustão física, mental e espiritual.
Mas essa não é a única escolha. O dependente químico tem, sim, o poder de decidir o próprio destino. Ele pode, a partir do momento em que desperta para a consciência de sua situação, optar por buscar ajuda e trilhar um novo caminho. O uso de substâncias pode até anestesiar temporariamente a dor, mas não resolve os problemas em sua essência pelo contrário, os prolonga e intensifica.
A dependência química é uma condição que requer tratamento, mas o dependente químico é um ser humano com direitos, potencialidades e a capacidade de transformação. Ele não é a doença. Ele é alguém que pode, com apoio adequado e um olhar humanizado, resgatar sua autonomia e reescrever sua história. A verdadeira mudança acontece quando ele entende que não está preso a um diagnóstico e que o poder de superar o vício está dentro dele. O tratamento e o suporte são ferramentas importantes, mas a decisão de viver de forma diferente é algo que só ele pode tomar.
Diretor Diego Cabral
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