18/02/2020
A humanofobia
Não, isto não tem nada a ver com homofobia. Existe um mal muito maior. O pior mal que estamos enfrentando: a "humano-fobia". Sim, gente que tem medo de ser um humano. Gente que vive tanto tempo imenso por tecnologia que já se esqueceu do valor de dizer "me perdoa" ou "o que eu preciso para ser melhor". Gente que não consegue atravessar a mesa para Dar um abraço no filho, mas faz viagens a países distantes e deixa de lado a presença de uma criança pelos sorrisos virtuais do facebook.
Temos medo de falar dos nossos medos. Muito embora nem todo mundo saiba lidar com as nossas limitações. Não é para todo mundo que podemos espalhar nossa humanidade, especialmente quando percebemos que não temos somente qualidades e quando a limitação bate a porta da nossa vida. E então, é necessário termos alguém para falar dos nossos erros, do que não é beleza em nós. Porque não temos que falar somente de coisas boas, porque não somos somente coisas boas. Por vezes, se não todas, Somos um punhado de caos, alegria, loucura e tristeza.
E o pior é que vivemos em tempos no qual falar das nossas fragilidades é ser taxado como louco, mas ao mesmo tempo, é normal viver de maneira insana a existência, trabalhando como escravos, vivendo em cidades cheias de gente vazia.
Há pessoas com enorme dificuldade de falar sobre o que há dentro de si. Sabe, existe uma verdade em nós, que é a de por vezes partilhar nossa alma. Conheci um pai que f**ava longas horas brincando e conversando com seu cachorrinho, mas não conseguir tirar um minuto para brincar com seu filho. E nem adianta dar brinquedos, como diria a psicóloga Sumaia Cabrera “bens materiais não melhoram relacionamentos ruins.”
Há muita gente vivendo na superfície. Por isso, gosto de pensar na maquiagem como uma metáfora contemporânea. Às vezes vejo fotos de mulheres lindas, com tanta maquiagem que mal da pra ver a alma delas. Tenho medo de tudo isso. Tenho medo de um dia não pensar mais sobre isso. Medo dos corpos perfeitos e corações distantes.
É triste quando você se esforça pelo outro, por ouvir a dor da alma que nele se torna insuportável. Você chora a dor dos outros você toma o fardo da Cruz dela ou dele, mas quando você precisa espalhar sua dor, você se perceber sozinho. Para o outro todo tempo, para você o silêncio e o descaso. Você não tem direito ao céu e pior, nem mesmo ao inferno.
Banido de tudo e todos. E você ouve "já vou", ou, "vou tomar banho"...e te resta o silêncio do esquecimento. Somos a geração com enorme habilidade de "conviver" com máquinas, com a tecnologia, mas enormemente incapaz de sentar diante da história humana que por ela clama.
Se Nietzsche anunciava na modernidade que Deus está morto, na contemporaneidade o ser humano é que morre. Morre porque sua singularidade é perdida numa idolatria ao trabalho. Morre porque não é amado na sua inteireza, morre porque mesmo inundado de tecnologia ele é solitário. Tem tudo ao seu alcance, e ao mesmo tempo nada.
Então, se você não quiser adoecer, fale dos seus sentimentos. Existe o que se chama de “talking cure”, a cura pela fala. Lacan, um psicanalista francês, dizia que dores são palavras não ditas. Aliás, quais são suas?