07/10/2018
Ô dia...
Ô dia, para se colocar em prática tudo aquilo que acredito. Vou dizer que não é fácil. Tento ao máximo eliminar a hipocrisia do meu dia-a-dia, e se um dia eu falho, e não são poucos esses momentos, eu busco a melhora. E hoje, meu exercício foi ainda maior.
Não vou falar de quem eu votei lá na urna, mas preciso escrever sobre sentimentos que vieram a mim nesse 07 de Outubro de 2018. Preciso mesmo!
Senti um peso ao caminhar até a urna. O peso da responsabilidade. O pensamento firme na fé de ter escolhido alguém que, realmente, me represente. Lembrando que a eleição de hoje não foi só para presidência.
E para mim não é tão fácil falar de representatividade, afinal fui saber o que era isso depois de uns bons anos na Terra. Cresci dentro de um lar que me deu muitos privilégios. Tive comida sempre que precisei, abrigo, segurança, apoio econômico e emocional. Escrevo tudo isso só para deixar bem gravado na minha cabeça e agradecer. Existem muitas pessoas por aí que começam a vida sem esses itens e ainda precisam ouvir a seguinte frase: “Ah, mas não entendo porque não se esforçou mais para ser alguém na vida”. Deus me livre ser essas pessoas que se comparam com outras já estando 10 casas a frente no tabuleiro do jogo do Cidadão Decente. Mas esse é outro tema de discussão.
Voltando a representatividade...
Minha primeira infância ocorreu nos anos 90 e as pessoas com quem eu convivia tinham como principal meio de propogação de informção a televisão. Na minha casa ela era a formadora de opiniões ou pelo menos trazia os assuntos que seriam discutidos no jantar. Todas as amigas viam televisão quando não estavam na escola e nas brincadeiras elas se viam nos personagens da Disney, da Turma da Mônica, nas apresentadoras de programas infantis, nos desenhos. A mim, restava a Mara Maravilha (apresentadora que trazia traços indígenas para a televisão das famílias brasileiras). Não me via muito como índia, mas pelo menos a cor da pele era marrom. P.S.: Eu só fui me desenhar marrom no desenho depois de adulta.
Depois me veio a Pocahontas, mas o caso do cabelo ainda me incomodava. Aí veio a Esmeralda do Corcunda de Notredame. Ah, ela tinha pele marrom e cabelo ondulado, mas ao mesmo tempo olhos verdes e pés descalços. Não era bem o que eu queria. Mesmo hoje eu sabendo que o melhor ano da minha vida eu vivi com uma mochila de roupas e boa parte do tempo descalça.
Foi difícil e demorado para eu ver alguém de sucesso e com poder que pudesse me representar. Nem que fosse pelas minhas referências físicas, que era o que eu conseguia assimilar até uns 10 anos de idade. Minha mãe só foi se enxergar preta mesmo quando eu tinha 25 anos. Ao mesmo tempo, tenho lembranças de quando ela me levou pra ver um show da Zezé Motta. Acho que ela ficou feliz de poder mostrar uma preta lá em cima do palco e que era a mesma que aparecia na televisão, mesmo sendo ela escrava ou empregada doméstica em quase todos seus personagens.
O que quero expressar aqui é sobre a importância de nos sentirmos representados por alguém. E que esse alguém lute por valores e causas que eu também lutaria. E lógico, usando as mesmas armas. Já falei aqui sobre hipocrisia.
Na minha prateleira de livros de pessoas inspiradoras tenho Francisco de Assis, Malala, Gandhi, Ailton Krenak, Chico Xavier, Nelson Mandela e outras pessoas que agiram para a mudança utilizando a fé, o respeito e a paz acima de tudo.
Toda essa lista de pessoas vai f**ando maior quando eu tenho mais consciência de quem, realmente, eu sou. Se eu não sei quem sou, de onde vim, f**a difícil saber quem pode lutar por mim.
Aos 31 anos, me vejo:
Mulher, ambientalista, educadora, agricultora urbana, negra, indígena, imigrante, trabalhadora. Não tenho carteira assinada, ganho menos de 1 salário mínimo (tenho fé que logo isso mude), não tenho bens materiais em meu nome, minha família não é rica. Tenho amigos g**s e lésbicas, amigos mesmo, tipo família. Tenho amigos artistas. Já trabalhei em favela. Meu pai trabalha numa favela. Muitas pessoas que eu amo vivem na favela. Cresci em lar espírita. Acredito em extraterrestres. Tenho amigos que alimentam o tráfico de dr**as e não são poucos. Tenho amigas que são mães solteiras. Não frequento a igreja católica e nem evangélica. Acredito que Deus é a Natureza. Meu peso é acima da média para a minha altura. Danço no maracatu. Vou na festa de Iemanjá. São Jorge é meu santo guerreiro e protetor. Meu avô foi pescador. Minhas avós venderam muita coxinha pra viver. Tive caso de racismo e abandono na minha própria família. Meu plano de saúde não é dos melhores. Meus pais são separados. Aos 7 anos vi pela primeira vez uma palafita. Não acho que os Estados Unidos ou Europa sejam os melhores lugares do mundo. Meu avô foi alcoólatra. Meus antepassados cresceram na roça de Minas Gerais. Outros vieram em navios negreiros. Outros nasceram em comunidades tradicionais do litoral sul de São Paulo. Tenho família que veio da Itália. Gosto de música brasileira. Prefiro comer orgânicos. Sou permacultora. Dou aula sentada em círculo para olhar nos olhos dos meus alunos. Faço leitura de aura. Aplico reiki. Amo a dança circular. Ouço mantras. Não depilo minha perna todo dia. Amo ver o brilho nos olhos das pessoas. Não jogo lixo no chão. Tenho mãe artista plástica. Tenho avós que adotaram um filho. Tenho primo gay. Meu padrinho é gay. Meu tio é desenhista. Tento ser vegetariana. Espero um dia ser vegana. Eu amo o mar. Amo os manguezais. O som do tambor bate fundo no meu coração. Amo a Bahia. Amo o Nordeste. Respeito os nordestinos. Aprendi muito no Norte. Acredito em Curupira. Eu sou apaixonada pelo Brasil. Quero conhecer todos os estados do meu país. Adoro dançar. Uso produtos biodegradáveis para a minha higiene. Evito usar sacola plástica. Sou feminista. Não fumo. Não alimento o tráfico de dr**as. Tenho pessoas da família que já foram presas. Compro roupa em brechó. Aceito doações de roupas de amigos. Trato as pessoas que trabalharam na minha casa como família. Minha mãe é madrinha das filhas dessas mulheres. Tenho amigos que já traíram em relacionamentos. Eu já beijei homem comprometido. Tenho amiga que já foi estuprada. Tenho amigas que já apanharam de seus maridos. As crianças que eu mais gosto tem síndrome de down. Já achei que estava grávida sem nem estar namorando. Tenho medo de andar sozinha na rua de noite. Pego o Uber de madrugada pedindo a Deus que eu chegue bem em casa. Eu rezo.
No final do som da urna, meu corpo estremeceu. Cada vez mais consciente de quem sou, meu peso de responsabilidade aumenta. Espero mesmo que eu tenha feito a escolha certa para mim, para os que convivem comigo, para os que vivem situações semelhantes às minhas, para todos do país.
E daqui, sigo no meu caminho. Buscando ser referência para quem nasceu depois de mim.
Exatamente, todos os dias da minha vida, eu luto para ser agente de transformação planetária no amor.
Sou educadora e hoje trabalho para construir uma escola.
E tenho absoluta certeza de que o amor sempre vence!!! E vai vencer!