21/08/2026
Seyit Onbaşı — Aquele que manteve o canhão funcionando
Em setembro de 1889, numa pequena aldeia da região de Havran, no oeste da Anatólia, nascia Seyit Ali, filho de Abdurrahman e Emine. Aquele menino cresceria em uma comunidade rural, longe dos grandes palácios de Constantinopla e dos centros de poder do Império Otomano. Ninguém poderia imaginar que seu nome um dia seria associado a uma das maiores batalhas da Primeira Guerra Mundial.
Seyit entrou para o Exército Otomano em 1909. A época era particularmente difícil para o império. As guerras nos Bálcãs haviam consumido homens, dinheiro e território, e muitos jovens otomanos passavam anos longe de suas famílias. Seyit também atravessou esse caminho. Depois de servir durante as guerras balcânicas, acabou destinado à artilharia pesada nas fortif**ações dos Dardanelos.
Ali, diante do estreito que separava a Europa da Ásia, começaria a parte mais extraordinária de sua vida.
Em 1915, os Aliados acreditavam que poderiam destruir as defesas otomanas, atravessar os Dardanelos e chegar a Constantinopla. A grande ofensiva naval culminaria em 18 de março.
Naquela manhã, uma das maiores forças navais reunidas até então avançou pelo estreito.
Encouraçados britânicos e franceses abriram fogo contra as fortif**ações turcas. Seus enormes canhões lançavam toneladas de aço contra as posições otomanas. A terra tremia. Explosões rasgavam as colinas. Homens desapareciam sob os impactos.
Seyit estava na Rumeli Mecidiye Tabyası, uma das baterias que defendiam o estreito.
E então o inferno chegou até ele.
Os canhões aliados atingiram a posição. Homens foram mortos e muitos outros f**aram feridos. A bateria de Seyit foi violentamente castigada pelo fogo inimigo. Um dos impactos danificou o mecanismo utilizado para levantar os projéteis até o canhão.
O canhão ainda estava vivo.
Mas o mecanismo que deveria alimentá-lo estava morto.
E naquele momento havia navios inimigos avançando pelo Dardanelos.
A artilharia precisava continuar atirando.
Seyit olhou para os enormes projéteis.
Alguns pesavam cerca de 190 kg; outros, 215 kg. Documentos militares otomanos registraram que Seyit e outros homens continuaram carregando manualmente as munições enquanto a batalha prosseguia. Portanto, a imagem popular de um único homem levantando sozinho um projétil de 215 kg precisa ser entendida dentro desse contexto: ele contou com seus companheiros e não foi o único soldado a realizar aquele esforço extraordinário.
Mas foi Seyit quem se tornou o símbolo daquele momento.
Ele se abaixou.
Agarrou o enorme projétil.
E levantou.
Não havia guindaste.
Não havia mecanismo.
Não havia tempo.
Havia ap***s um soldado, um canhão e uma frota inimiga do outro lado do estreito.
Com o projétil apoiado sobre o corpo, Seyit avançou até a peça. Seus companheiros trabalhavam ao redor dele enquanto o fogo inimigo continuava caindo sobre a fortif**ação.
O projétil foi colocado no canhão.
A arma voltou a rugir.
Seyit repetiu o esforço.
Segundo registros históricos, ele conseguiu transportar projéteis de 190 e 215 kg para manter o canhão em ação. A documentação da bateria registra que treze dos seus homens, entre eles Seyit, conseguiram manter o fogo apesar da devastação que havia atingido a posição.
E naquele dia a artilharia otomana não estava lutando sozinha.
Debaixo da água, minas colocadas anteriormente pelo navio Nusret aguardavam os encouraçados aliados.
O combate chegou ao seu ponto máximo.
O encouraçado britânico HMS Ocean foi atingido durante a batalha e posteriormente atingiu uma mina. O navio foi abandonado e acabou afundando. É importante não atribuir exclusivamente a Seyit o afundamento do Ocean: sua atuação manteve o canhão otomano disparando, mas o naufrágio ocorreu no contexto combinado do fogo das baterias e do campo minado.
No final daquele dia, a grande frota que pretendia atravessar os Dardanelos havia fracassado.
O estreito continuava fechado.
Constantinopla continuava segura.
E, entre centenas de soldados que haviam lutado naquele dia, o nome de um simples artilheiro começava a ganhar uma dimensão extraordinária.
Seyit Ali.
Pouco depois, recebeu a promoção a cabo — tornando-se oficialmente Seyit Onbaşı.
Mas talvez a parte mais curiosa de sua história tenha acontecido depois.
A guerra acabou, e o homem que havia sido transformado em símbolo voltou para casa.
Não recebeu uma vida de luxo.
Não se tornou um grande comandante.
Não construiu uma carreira política.
Seyit voltou à sua aldeia e passou a trabalhar com atividades humildes, principalmente produzindo e transportando carvão vegetal e trabalhando como carregador. Em 1934, com a adoção dos sobrenomes na Turquia republicana, recebeu o sobrenome Çabuk (o ligeiro).
E existe uma ironia quase poética nisso.
Durante a guerra, seu nome havia sido associado a um homem que carregava centenas de quilos de aço para alimentar um canhão.
Depois da guerra, voltou a carregar madeira e carvão para simplesmente sobreviver.
A fama não pagava suas contas.
A lenda não o transformou em um homem rico.
Ele continuou sendo, essencialmente, o mesmo homem simples que havia partido anos antes.
Em 1939, aos 50 anos, Seyit adoeceu gravemente. Seu corpo, que havia suportado anos de guerra e trabalho pesado, já estava debilitado.
Em 1º de dezembro de 1939, Seyit Ali Çabuk morreu vítima de pneumonia.
Morreu longe dos grandes campos de batalha.
Sem uniforme.
Sem canhão.
Sem uma frota inimiga diante dele.
Ap***s como um homem comum em sua terra natal.
Foi enterrado em sua própria aldeia, que posteriormente recebeu o nome de Kocaseyit, em homenagem ao homem que havia se tornado um dos símbolos de Çanakkale.
Mas a história não o deixou desaparecer.
Décadas depois, sua imagem seria transformada em estátuas e monumentos. Hoje, uma delas permanece junto à própria Rumeli Mecidiye Tabyası, exatamente no lugar onde ele e seus companheiros lutaram em 18 de março de 1915. A representação tornou-se um símbolo não ap***s de Seyit, mas de todos os soldados otomanos que defenderam os Dardanelos.
E há algo especialmente poderoso na história de Seyit.
Ele não salvou o Império Otomano sozinho.
Não derrotou uma frota inteira sozinho.
Não foi responsável sozinho pela derrota da expedição naval.
A realidade histórica é muito maior e mais complexa.
Mas naquele instante específico, quando o mecanismo do canhão havia sido destruído e os homens ao seu redor estavam mortos ou feridos, Seyit fez aquilo que precisava ser feito.
Pegou a munição.
Levantou.
Caminhou.
Carregou.
E colocou novamente o coração do canhão para funcionar.
Por isso, quando os turcos lembram de Seyit Onbaşı, não estão ap***s lembrando de um homem capaz de levantar um projétil gigantesco.
Estão lembrando de um soldado anônimo diante de uma situação impossível.
Um homem comum diante de uma máquina de guerra extraordinária.
E, naquele momento, ele simplesmente decidiu que o canhão não f**aria em silêncio.
Essa é a razão pela qual sua figura permanece até hoje diante dos Dardanelos: não como o homem que sozinho venceu Gallipoli, mas como a personif**ação do soldado que, quando tudo parecia perdido, continuou lutando.