16/09/2019
Para os professores e estudantes de idiomas... Vale a pena a leitura!!
Por que o brasileiro não aprende Inglês?
Todo brasileiro que frequenta a escola estuda Inglês ao menos 2 horas por semana, durante pelo menos 7 anos (entre o 6° ano do Fundamental e o 3° do Ensino Médio). Faz as contas: 2 aulas x 4 semanas por mês x 9 meses de aula = 72 horas por ano x 7 anos = 504 horas de estudo presencial com professor.
Em 500 horas, levando em consideração o Quadro Comum Europeu de Referência para Idiomas, é possível chegar a um bom B1 - o que significa um Inglês bastante razoável, faltando muito pouco para uma fluência considerada 'ideal' para a maioria dos professores (entre 600 e 800 horas de estudo, de acordo com Cambridge). Isso sem levar em consideração o tempo gasto com lição de casa - que ultrapassaria as horas necessárias para a fluência ideal - isto é, um falante independente da língua.
Então, por que terminamos a escola com baixo nível de Inglês, apesar de todo este tempo de estudo?
São muitos os fatores.
1 - Muitos professores de Inglês não são fluentes no idioma. É um absurdo de se pensar, mas é a realidade: as faculdades de Letras não possuem um exame de proficiência no idioma ao final do curso. Assim, não é raro uma pessoa conseguir se habilitar professor sem saber falar a língua.
2 - Faltam recursos. A maioria das escolas públicas e particulares não tem conhecimento de como é feita a aquisição linguística, e ficam nas mesmas fórmulas que todo mundo já sabe que não funcionam: aulas expositivas, alunos enfileirados, aulas baseadas em gramática. Além disso, predomina a 'aula silenciosa': a maioria dos professores de outras matérias reclama que a aula de Inglês 'atrapalha' as demais aulas quando os alunos estão conversando em pares ou grupos no idioma.
3 - Método: a maioria das faculdades de Letras não ensina de modo prático o que é método de aquisição de idiomas, quais são utilizados atualmente, quais as diferenças de resultado entre eles. Esses cursos são feitos à parte pelos professores e custam caríssimo - nem todo professor consegue custear. Escolas não investem na formação do professor. Resultado: lousa, livro, exercício, alunos quietos e enfileirados.
4 - Os coordenadores pedagógicos não entendem sobre as necessidades dos professores de idiomas. Cobram resultados e não compreendem as demandas. Não auxiliam pedagogicamente em nada ou quase nada.
5 - Desincentivo por parte dos pais: ao mesmo tempo em que os pais sabem da necessidade de um segundo idioma no mercado de trabalho, uma nota baixa significa um sem-fim de reclamações por parte dos pais, que tratam o Inglês como "matéria secundária".
6 - Aprovação automática: como os alunos sabem que as escolas não permitirão que o Inglês seja causa de reprovação, os alunos na maioria das vezes negligenciam os estudos do idioma para priorizar outras matérias, principalmente na área de exatas.
Todos esses fatores somados fazem com que o Inglês no ambiente escolar seja absolutamente ineficiente. E não adianta se declarar 'colégio bilíngue' e aumentar para 5 aulas na semana: se esses problemas fundamentais persistem, o aumento do número de horas/aula terá todo sido em vão.
Mas até aqui falei só dos colégios. E as escolas de idiomas, especializadas em ensinar Inglês e Espanhol? Por que mesmo quando terminamos um curso em uma dessas escolas de franquia, ainda não somos considerados fluentes?
Lá vamos nós:
1- Professor Disney: um professor experiente custa caro, e essas franquias são negócios feitos para ser rentáveis. A solução são os professor-Disney: pega-se um adolescente classe-média entre 17-20 anos, que acabou de voltar de uma viagem aos EUA a passeio, e que aceita trabalhar em primeiro emprego por um salário muito baixo e sem garantias CLT, oferece um treinamento meia-boca, e voilà! Temos um professor!
2 - Aprovação automática: se você já frequentou uma franquia de idiomas, já se deparou com diversas pessoas em sua sala de aula e pensou "nossa, esse Fulano não sabe nada, como ele chegou até aqui?". Ele chegou porque o iludiram para que não cancelasse o curso. E vão continuar porque a maioria das franquias não está preocupada senão com o pagamento das mensalidades.
3 - Material didático do tempo de vovó de biquíni: sim, a escola de idiomas ensina um monte de coisa desatualizada e desinteressante, porque custa caro atualizar todo o arsenal de livros o tempo todo - então utiliza-se o mesmo livro por décadas.
E, sinto informar, esse índice só tende a piorar. Agora está na moda o "Aprenda Inglês em 3 meses", e nosso povo, afeito a acreditar em promessas milagrosas, vai apostar nesse monte de charlatão. Meus queridos, se nem em 7 anos o povo está aprendendo satisfatoriamente, quais as chances de aprender um idioma complexo em 90 dias?
Se você quer aprender Inglês no Brasil, procure um professor ou escola da sua confiança. Pegue indicações de pessoas que já são fluentes. Ouça-as. Questione, sempre. Não jogue seu tempo, dinheiro e oportunidades fora. E, principalmente, dê o devido valor a um segundo idioma. No final das contas, o que vai contar no seu currículo talvez não seja a sua nota de exatas, ou o diplominha da franquia em que vc estudou, mas o quão competente você é no idioma que estuda.
Pense nisso. Bons estudos, sempre!
-Aline Aguirre.