25/09/2026
Hoje faz dezesseis anos que eu fui para Londres.
Escrevo "fui" com uma naturalidade que me parece um pouco indecente, porque ainda consigo me lembrar da sensação de estar dentro daquele avião e pensar que Londres era longe demais para uma pessoa como eu. Não longe no mapa, que isso qualquer atlas resolvia, mas longe daquela vida que eu conhecia, das ruas que eu sabia atravessar sem pensar, das palavras que saíam da minha boca sem que eu precisasse antes procurá-las dentro da cabeça.
Foi minha primeira viagem internacional. Vinte e quatro dias estudando inglês, orgulhosamente, numa turma de C1, o que hoje me faz sorrir porque eu já dava aula de inglês e, ainda assim, fui para o outro lado do mundo descobrir que saber uma língua não significa saber o mundo que existe dentro dela.
Eu não sabia, naquela época, o tamanho da coisa que estava começando.
A gente costuma achar que uma viagem termina quando volta para casa. Desfaz a mala, separa a roupa suja, revela as fotos, distribui os presentes, conta as histórias até que elas percam um pouco da graça para quem já as ouviu duas vezes. Depois a vida volta ao lugar.
Só que algumas viagens não voltam com a gente, elas ficam.
Londres ficou em algum lugar entre a pessoa que eu era e a pessoa que fui me tornando depois dela. Talvez porque tenha sido a primeira vez que eu entendi, sem precisar que ninguém me explicasse, que o mundo era muito maior do que a vida que eu conhecia. E que isso não era assustador... pelo contrário, era uma notícia maravilhosa.
Depois vieram mais treze países. Vieram aeroportos, mapas, placas que eu não entendia, cidades em que eu me senti completamente em casa e outras em que precisei aceitar a humilhação de não saber nem onde ficava o banheiro.
(continua nos comentários)