01/06/2021
Atualmente, há cerca de 116,8 milhões de brasileiros¹ vivenciando algum estado de fome². Este número alarmante de sujeitos convivendo com a fome e com a pandemia nos chama atenção para a polifonia de discursos reproduzidos pela mídia. O artigo indicado, produto de uma pesquisa de mestrado orientada pelas Profª Drª Ligia Amparo ( ) e Profª Drª Ursula Verthein ), tem como objetivo compreender os modos como a fome vem sendo representada pelos principais meios de imprensa escrita do Brasil durante a pandemia de COVID-19.
Produzido paralelamente ao aumento do número de brasileiros famintos, o artigo buscou analisar o discurso dos jornais Folha de São Paulo e O Globo desde o mês de fevereiro até julho de 2020. Destacando resultados que formaram três categorias analiticas: “Pandemia da Fome: a construção midiática a partir da lógica liberal”, “A urgência das ações de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional” e “Ou a gente morre de 'corona' ou de fome: uma crise sanitária, mas sobretudo, política”.
Os resultados evidenciam a reprodução de discursos que evocam fundamentalmente para a compreensão neoliberal da pobreza, transferindo a responsabilidade do Estado sobre a fome para os sujeitos. Além disso, apesar da compreensão da fome enquanto fenômeno que ocupa lugares nas casualidades e nas consequências da pandemia, a maioria dos discursos midiáticos a evidenciam como uma circunstância aumentada pelo período pandêmico.
Ressalta-se também a continuidade na construção e reprodução dos discursos midiáticos que evidenciam a possível falta de agência do sujeito invisibilizado, contribuindo diretamente para a manutenção do estigma da pobreza na sociedade. Revelando a necessidade de aprofundamento, revisão e leitura crítica das narrativas midiáticas sobre a fome e a sua contribuição para a constituição do imaginário social sobre o fenômeno. Afinal, de que fome estamos falando?
RIGAUD, J; VERTHEIN, U; AMPARO-SANTOS, L. Fome em tempos de pandemia de COVID-19: uma análise crítica aos sentidos (re)produzidos pela mídia. Segurança Alimentar e Nutricional, Campinas, SP, v. 28, n. 00, p. e021009, 2021.
Texto e imagens: João Rigaud ( )