Bullying
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O bullying corresponde à prática de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, cometidos por um ou mais agressores contra uma determinada vítima.
Em outros termos, significa todo tipo de tortura física ou verbal que atormenta um grande número de vítimas no Brasil e no mundo. O termo em inglês "bullying" é derivado da palavra "bully" (tirano, brutal).
Ainda que esse tipo de agressão tenha sempre existido, o termo foi cunhado na década de 70 pelo psicólogo sueco Dan Olweus
O Bullying pode ocorrer em qualquer ambiente onde existe o contato interpessoal, seja no clube, na igreja, na própria família ou na escola.
Aos poucos o combate efetivo ao bullying vem ganhando importância na mídia e em ONG’s empenhadas em campanhas de anti-bullying. Isso porque essa prática tem aumentado consideravelmente nos últimos anos no país e no mundo.
Bullying na Escola
Bullying
O Bullying nas escolas é um dos mais comentados hoje em dia
Conflitos entre crianças e adolescentes são comuns, pois trata-se de uma fase de insegurança e autoafirmação. Porém, quando os desentendimentos são frequentes e partem para humilhações, é aí que o bullying prolifera.
Nas escolas, as agressões geralmente são praticadas longe das autoridades. Ocorrem normalmente na entrada ou saída do prédio, ou ainda quando os professores não estão por perto.
Podem também acontecer de forma silenciosa, na sala de aula, na presença do professor, com gestos, bilhetes, etc. As agressões físicas são mais difíceis de serem escondidas e muitas vezes levam a família a transferir a vítima para outra escola.
Perfil do Agressores
O agressor, em geral, tem uma mente perversa e às vezes doentia. Ele é consciente de seus atos e consciente que suas vítimas não gostam de suas atitudes, mas agride como forma de se destacar entre seu grupo. Assim, os agressores pensam que serão mais populares e sentem o poder com esses atos.
Os agressores buscam vítimas que normalmente destoam da maioria por alguma peculiaridade. Os alvos preferenciais são:
os alunos novatos;
os extremamente tímidos;
os que têm traços físicos que fogem do padrão;
os que têm excelente boletim, o que serve para atiçar a inveja e a vingança dos menos estudiosos.
Consequências do Bullying
Consequências do Bullying
As consequências do Bullying apresentam diversos sinais típicos em suas vítimas
Geralmente, as vítimas do bullying têm vergonha e medo de falar à família sobre as agressões que estão sofrendo e, por isso, permanecem caladas.
As vítimas de agressão física ou verbal ficam marcadas e essa ferida pode se perpetuar por toda a vida. Em alguns casos, a ajuda psicológica é fundamental para amenizar a difícil convivência com memórias tão dolorosas.
Aqui, portanto, cabem aos pais e familiares notarem os sintomas das crianças e/ou adolescentes. Com isso, se perceber alguma diferença no comportamento, é importante contactar os responsáveis da escola e ainda ter uma conversa franca com a pessoa que foi agredida.
Ações como esta, podem evitar constrangimentos futuros, ou mesmo tragédias, como o suicídio da vítima.
Alguns sinais típicos são observados nos alunos vítimas de bullying, entre eles:
recusa de ir para a escola;
tendência ao isolamento;
falta de apetite;
insônia e dor de cabeça;
queda no desempenho escolar;
febre e tremor.
Leia também:
Isolamento Social
Evasão escolar
Tipos de Bullying
Cyberbullying
O Cyberbullying é um tipo de Bullying que tem aumentado com a expansão das tecnologias de informação
Cyberbullying: quando o bullying ocorre por meio das tecnologias da informação, seja internet (redes sociais, e-mails, etc.) e/ou celulares (torpedos).
Verbal: quando o bullying acontece por meio de palavras de baixo calão, apelidos e insultos.
Moral: associado ao bullying verbal, ele ocorre através de boatos, difamações e calúnias.
Físico: quando o bullying envolve a agressões físicas, seja empurrão, bater, chutes, etc.
Psicológico: quando o bullying envolve aspectos que afetam o psicológico, por exemplo, chantagem, manipulação, exclusão, perseguição, etc.
Material: quando o bullying é definido por ações que envolvem roubo, furtos e destruição de objetos pertencentes a alguém.
Sexual: nesse caso, o bullying é cometido por meio de abusos e assédios se***is.
VEJA TAMBÉM: Tipos de Preconceito
Legislação no Brasil
Até pouco tempo, quando os casos de bullying chegavam à justiça, eles eram enquadrados em infrações previstas no Código Penal como injúria, difamação e lesão corporal.
Entretanto, em 06 de novembro de 2015 foi sancionada a Lei n.º 13.185 denominada "Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying)". Segundo esse documento:
"Considera-se intimidação sistemática (bullying) todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas."
Porém, segundo estatísticas atuais, cerca de 80% das escolas brasileiras ainda não punem os agressores.
Dada a importância de abordar o tema, o "Dia Mundial de Combate ao Bullying" é comemorado em todo o mundo no dia 20 de outubro. No Brasil, em 2016 foi instituído por meio da Lei nº 13.277, o "Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola", comemorado em 7 de abril.
A escolha da data faz referência ao episódio que aconteceu em 7 de abril de 2011 no bairro do Realengo, no Rio de Janeiro.
Pela manhã, Wellington Menezes de Oliveira (23 anos) invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira disparando nos alunos.
O resultado do "Massacre do Realengo", como ficou conhecido o ataque, foi a morte de 12 alunos e do próprio atirador, que se suicidou. Muitos conhecidos e familiares de Wellington afirmaram que ele sofria de bullying.
Sugestão de Filme
Capa do filme Um Grito de Socorro
Capa do filme "Um Grito de Socorro"
"Um Grito de Socorro" (2013) é um filme holandês que aborda o bullying sofrido por um aluno na escola. Dirigido por Dave Schram, a história é baseada no livro da escritora Carry Slee
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Comte, Marx, Durkheim e Weber
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Texto e atividade extraída no blog Sociologia aplicada ao aluno
Mestres das Ciências Sociais
MESTRES DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
A Sociologia e as demais ciências sociais têm sido consideradas produtos da Revolução Industrial e da Revolução Intelectual. O progresso industrial capitalista demandou um notável desenvolvimento da ciência e da técnica. Inúmeras pessoas dedicaram longos anos a estudar a vida em sociedade, procurando descobrir seus segredos e tornar mais claras as relações que existem entre os homens.
Segue a baixo uma apresentação das principais idéias e biografia de Comte, Marx, Weber e Durkheim:
Auguste Comte (1798-1857) : Isidore Auguste Marie François Xavier Comte, filósofo e matemático francês, foi o fundador do Positivismo e pai da Sociologia, criou uma nova ciência para estudar a humanidade, chamou-a de física social, em 1828. Em 1839, mudou o termo para Sociologia.
Em 1826, começou a elaborar as lições do Curso de Filosofia Positiva.
Em 1842, publicou sua grande obra: Curso de Filosofia Positiva, constituída de seis volumes. A partir de 1846, toda sua obra passou a ter um sentido religioso, deixou de ser católico e fundou a Religião da Humanidade, mudando as teorias reacionárias da Igreja da época.
Para Comte, a Sociologia procura estudar e compreender a sociedade, para organizá-la e reformá-la depois. Os estudos da sociedade deveriam ser feitos com espírito científico e objetividade.
Positivismo é a doutrina criada por Augusto Comte que sugere a observação científica da realidade, cujo conhecimento viabilizaria o estabelecimento de leis universais para o progresso da sociedade e dos indivíduos. Comte acreditava ser possível observar a vida social por meio de um modelo científico, interpretando a história da humanidade, e a partir dessa análise, criar um processo permanente de melhoria e evolução. Para Comte o homem passa por três estágios na vida: estado teológico, estado metafísico e estado positivo – a lei dos três estados.
No estado teológico ou fictício a explicação dos fatos decorre de vontades análogas à nossa (a tempestade, por exemplo, será explicada por um capricho da natureza do dos ventos). Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e posteriormente ao monoteísmo.
No estado metafísico o homem projeta espontaneamente sua própria psicologia sobre a natureza.
Já no estado positivo, contenta-se em descrever fatos, não procurando muitas explicações. Baseia-se nas leis positivas da natureza que nos permite, quando um fenômeno é dado, prever o próximo fenômeno e eventualmente agindo sobre o primeiro transformar o segundo.
Para Comte, a lei dos três estados não é somente verdadeira para a história da nossa espécie, ela é também para o desenvolvimento de cada indivíduo: A criança dá explicações teológicas ao mundo, o adolescente é metafísico, ao passo que o adulto chega a uma concepção positivista das coisas.
CustomValidatPlease insert at least one tag O lema da Bandeira Nacional “Ordem e Progresso”, criado por Benjamin Constant, é de inspiração comtista.
Karl Marx (1818-1883) : Filósofo e economista alemão, estudou na Universidade de Berlim, interessando-se pelas idéias do filósofo Hegel. Em 1842 assumiu o cargo de redator-chefe do jornal alemão Gazeta Renana, onde tinha uma postura política de um liberal radical. Em Paris conheceu Friedrich Engels, com quem escreveria vários ensaios e livros.
Em 1847, redigiu com Engels o Manifesto Comunista, primeiro esboço da teoria revolucionária, que mais tarde seria chamado marxismo. No Manifesto, Marx convoca o proletariado à luta pelo socialismo.
Os primeiros socialistas foram chamados por Marx de utópicos porque, apesar de criticarem o capitalismo e promoverem vários modelos de socialismo comunitário, não indicaram com clareza o caminho para a sociedade como um todo. Karl Marx, ao contrário, procurou interpretar o movimento geral da sociedade através do materialismo histórico ou dialético, e realizou a mais profunda análise do capitalismo feita até hoje, sem deixar de indicar caminhos para a ação política.
Fundou em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores, chamada depois de Primeira Internacional dos Trabalhadores com objetivo de organizar a conquista do poder pelo proletariado em todo o mundo. Em 1867, publicou o primeiro volume de sua obra mais importante, O Capital, em que faz uma crítica ao capitalismo e à sociedade burguesa.
Marx é o principal idealizador do socialismo e do comunismo revolucionário. O marxismo, conjunto de idéias político-filosóficas, propunha a derrubada da classe dominante, através de uma revolução do proletariado, criticava o capitalismo e seu sistema de livre empresa. Propunha uma sociedade na quais os meios de produção fossem de toda a coletividade.
Èmile Durkheim (1858-1917) : Sociólogo francês, lecionou Sociologia e Pedagogia na Sorbonne de Paris. É considerado o fundador da sociologia moderna, foi um dos primeiros a estudar mais profundamente o suicídio, que, segundo ele, é praticado na maioria das vezes em virtude de desilusão do indivíduo com relação ao seu meio social.
Para Durkheim, o objeto da sociologia são os fatos sociais, os quais devem ser estudados como coisas. Os fatos sociais consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo.
A sociedade não é simples soma de indivíduos, e sim sistema formado pela associação, que representa uma realidade específica com seus caracteres próprios. Nada se pode conduzir de coletivo se consciências particulares não existirem, é necessário que as consciências estejam associadas, combinadas de determinada maneira.
O sistema sociológico de Durkheim baseia-se em quatro princípios :
1. A Sociologia é uma ciência independente das demais Ciências Sociais e da Filosofia.
2. A realidade social é formada pelos fenômenos coletivos.
3. A causa de cada fato social deve ser procurada entre os fenômenos sociais que o antecedem.
4. Todos os fatos sociais são exteriores ao indivíduo, formando uma realidade específica.
Segundo Durkheim, o homem é um animal que só se humaniza pela socialização.
Suas principais obras: A divisão do trabalho social (1893), As regras do método sociológico (1894), O suicídio (1897).
Max Weber (1864-1920) : Sociólogo alemão, foi professor de economia e participou da comissão que redigiu a Constituição da República de Weimar. Weber é considerado um dos mais importantes pensadores modernos, fundou a disciplina chamada Sociologia da Religião.
Para Weber, o objeto da Sociologia é o sentido da ação humana individual que deve ser buscado pelo método de compreensão, baseado no estudo da mente humana. Max Weber concebeu a pessoa humana como um ser capaz de agir e que não é passivo frente às forças da natureza. A sociedade para Weber, constitui um sistema de poder, pois as relações cotidianas, de classes, empresarial, por exemplo, se deparam com o fato de que o indivíduo tem condição de impor sua vontade a outros. Weber elabora os fundamentos de uma sociologia compreensiva ou interpretativa.
Ao contrário de Durkheim, Weber não pensa que a ordem social tenha que se opor e se distinguir dos indivíduos como uma realidade exterior a eles, mas que as normas sociais se concretizam exatamente quando se manifestam em cada indivíduo sob a forma de motivação. E Weber distingue quatro tipos de ação social que orientam o sujeito:
· a ação racional com relação a um objetivo, como, por exemplo, a de um engenheiro que constrói uma estrada, onde a racionalidade é medida pelos conhecimentos técnicos do indivíduo visando alcançar uma meta.
· a ação racional com relação a um valor, como um indivíduo que prefere morrer a abandonar determinada atitude, onde o que se busca não é um resultado externo ao sujeito mas a fidelidade a uma convicção.
· a ação afetiva, que é aquela definida pela reação emocional do sujeito quando submetido a determinadas circunstâncias.
· a ação tradicional que é motivada pelos costumes, tradições, hábitos, crenças, quando o indivíduo age movido pela obediência a hábitos fortemente enraizados em sua vida.
Weber vê como objetivo primordial da sociologia a captação da relação de sentido da ação humana, ou seja, chegamos a conhecer um fenômeno social quando o compreendemos como fato carregado de sentido que aponta para outros fatos significativos. O sentido, quando se manifesta, dá à ação concreta o seu caráter, quer seja ele político, econômico ou religioso. O objetivo do sociólogo é compreender este processo, desvendando os nexos causais que dão sentido à ação social em determinado contexto.
Principais obras: A ética e o espírito do capitalismo (1905), Economia e sociedade (1922) publicada após sua morte.
Responda:
O que é sociedade para Comte?
O que é a doutrina positivista?
Quais são as leis dos três estados para Comte? Explique cada um deles.
O que se entende por Marxismo?
Qual a função do Manifesto escrito por Marx e Engels?
Por que os socialistas foram chamados de utópicos por Marx?
O que é materialismo histórico ou dialético?
Qual a principal crítica feita pelo Capital?
O que são os fatos sociais?
O que tratava o principal estudo feito por Durkheim?
Como é a sociedade para Durkheim?
Quais os quatro princípios sociológicos para Durkheim?
O que é objeto da sociologia para Weber?
O que é Ação Social?
Quais os quatro tipos de Ação Social para Weber?
Como é definida a sociedade Weberiana?
OS MITOS E A SOCIEDADE GREGA
Sempre que estudamos as sociedades antigas, somos obrigados a entender construções sociais que muitas vezes diferem das contemporâneas. E para tal fim, é sempre necessária a compreensão de alguns conceitos chaves para estas determinadas sociedades. Neste caso em específico, ao estudarmos a Grécia Antiga, não podemos nos ver livres da temática Mitologia.
O que para nós, do século XXI, parece muitas vezes ser simplesmente uma explicação do mundo através de estórias, vai bem mais além. É através dessa mitologia que os gregos não só concebiam a criação do mundo como também organizavam sua vida cotidiana que, muitas vezes, é a responsável pela legitimação do poder de algumas famílias.
A palavra Mito origina-se da palavra grega mythos, e deriva de dois verbos: Mytheyo (contar, narrar) e Mytheo (conversar, anunciar). Para os gregos, o mito é um discurso pronunciado pelo poeta, na maioria das vezes, que é um escolhido dos deuses. Ao poeta é revelado o conhecimento sobre o passado e o futuro. Logo, o mito é considerado sagrado, uma revelação divina que é tida para estas sociedades, acima de tudo, como incontestável e inquestionável.
E são muitos os personagens que fazem parte dessa mitologia: Titãs, Deuses, Semideuses, Mortais, entre tantas outras criaturas. Em resumo, os Titãs seriam as forças primordiais do cosmo e da natureza e suas personificações. Aqui podemos exemplificar o Tempo, o Oceano, a Terra, entre outros. Os Deuses seriam entidades geradas pelos Titãs e Titânides (feminino de Titã), como Zeus, Poseidon, Hades. Possuem também o poder de dominar certas áreas da Terra ou forças da Natureza, como os raios ou as águas, por exemplo. Os Semideuses nascem do contato de Deuses e Mortais. Possuem o poder e força dos deuses, mas não sua imortalidade.
Diferentemente dos deuses egípcios, por exemplo, que possuem uma forma Antropozoomórfica, ou seja, misturam características de seres humanos e de animais, os Deuses Gregos são Antropomórficos, personificados em formas inteiramente humanas.
Mesmo que a sociedade grega seja pautada na escrita, a oralidade ainda é muito forte em alguns períodos e, por isso, os mitos são passíveis de múltiplas interpretações, chegando aos dias atuais sendo contados de maneiras semelhantes, mas retratando o período em que ele foi criado e/ou modificado a fim de alguma legitimação. (BRANDÃO, 1986, Pág. 27). Não apenas isso, [...] A mitologia grega chegou até nós através da poesia, da arte figurativa e da literatura erudita, ou seja, em documentos de cunho 'profano. (BRELICH, 1978, Pág. 33), fazendo, com que sejam, por certas vezes, não muito bem vistos por estudiosos por desconhecer a origem do documento.
Uma característica muito semelhante que ocorria com as cidades gregas é que cada uma possuía seu deus protetor, assim como as cidades brasileiras possuem o seu santo padroeiro atualmente. Por isso, possuem festejos relacionados a este deus, mas isso não quer dizer que este tenha de ser o deus de maior devoção dos habitantes daquela cidade. Tal qual acontece nos dias de hoje, você pode viver numa cidade em que o padroeiro seja um santo (ou na época, um deus) e ter uma maior devoção a outro.
Embora essa realidade seja até um pouco parecida com a nossa quando levamos em conta o aspecto religioso, encontramos nela certas especificidades do período em destaque dentro do mito, afinal [...] O mito é para quem o vive, uma forma de realidade [...](SELEPRIN, s.d.).
A obra de Aristóteles, A Poética, distingue três significados para o mito: uma expressão do intelecto humano; uma independência de pensamento ou de vida; ou ainda, e o mais importante, um instrumento de controle social.
Tomemos por exemplo o Mito do Minotauro. Ela não se trata apenas de uma estória de um grupo de jovens, entre eles o filho do rei Egeu do continente, que são enviados à Creta como forma de tributo. Ele expressa bem mais que isso. O tributo mostra a submissão dos povos do continente à Ilha de Creta que nesse período (Minoico) controla a região. O Minotauro é um ser resultado da desobediência do rei para com suas promessas aos deuses e uma forma de punição. O labirinto onde a besta é presa representa as dificuldades de se enfrentar o povo Minóico devido ao seu poder. A morte do Minotauro, por sua vez, representa a queda do poder da Ilha de Creta perante o continente.
Assim, podemos ver que a estória, apesar de fantasiosa, nos demonstra um fato ocorrido e é contado desta maneira devido ao grande prestígio dado aos poetas à época que são umas das principais fontes que encontramos hoje em dia. Mas não são apenas os fatos que são contados, como também meios de passar ensinamentos às crianças e jovens, pelas escolas de Aristóteles e Platão, como é o caso do Mito de Ícaro.
Depois da morte do Minotauro, o rei de Creta aprisiona o arquiteto do labirinto, Dédalo, e seu filho Ícaro dentro da sua construção. Pra escapar, Dédalo constrói asas de cera para que possam voar para fora do labirinto. Mas antes ele dá um aviso ao filho: eles não devem voar muito próximo ao sol, pois caso isso aconteça, as asas derreterão. Ícaro não dá ouvidos ao pai e quando estão sobrevoando o mar, rumo ao continente, ele sobe cada vez mais alto no céu, até que suas asas derretem e ele cai no mar.
Aqui temos o ensinamento de que devemos ouvir as palavras dos mais velhos que devido à sua experiência de vida sabem o que é certo e o que não é. Deste modo, muitas das histórias dessa mitologia grega se assemelham às fábulas que encontramos nos dias atuais devido a um mesmo intuito.
Outro papel dos mitos (e talvez o mais importante) é a legitimação de algumas famílias. Embora não tenha uma origem extremamente de dentro da sociedade grega, Alexandre, o Grande, quando parte rumo à conquista da península balcânica se declara ora como filho de Felipe II, rei da Macedônia, ora como sendo filho de Zeus.
Numa época em que a dúvida é considerada um desacato à divindade, uma declaração desta é tomada como verdade quando este demonstra sua força e, portanto, dificilmente questionada, legitimando assim a família no poder.
Muitas das famílias mais nobres também afirmam que são descendentes dos deuses e por isso possuem mais terra, mais bens e, portanto, mais poder dentro das decisões políticas daquela Cidade-Estado. No caso espartano, temos a Diarquia que ambos os reis são de famílias que se dizem descendentes de Héracles (ou Hércules, do latim), filho de Zeus, e, portanto, legitimando seu poder diante dos grupos de menor prestígio social do período, controlando, assim, a grande massa da população.
Cabe o mesmo poder do mito na sociedade grega quanto as nossas religiões e crenças dos dias atuais: uma forma de controle social, de legitimação ou mesmo da valorização de certos aspectos e ações. Não basta apenas elucidar os fatos, mas algumas vezes, é preciso transformá-los para dar credibilidade e assim a sociedade se constrói e se reestrutura, pois nada é mais natural do que a mudança.
. OS MITOS E A SUA ORIGEM
Os mitos podem ser entendidos como representações de verdades profundas
da mente, e as uniões deles em conjunto, de acordo com suas origens, formam as
diversas mitologias que conhecemos. A consciência humana afirmase desde sua
origem como estrutura do universo. Na antiguidade, o mito reina sem rival, pois é um
tempo em que o mito não é reconhecido como tal. Analisaremos a evolução dos
mitos dentro da sociedade grega e de como ele se adapta à realidade e à cultura de
um determinado povo. Analisar a importância do mito na explicação do mundo grego
é falar de como, aos poucos, ele foi se desligando da totalidade da realidade para se
tornar algo particular de determinada parcela da população. Ainda como parte da
reflexão, analisaremos a ligação do mito com a explicação da realidade e de como
ele une determinados grupos, os quais encontram no mito um ponto em comum.
Devese entender a
linguagem do mito enquanto objeto de uma experiência numinosa (sagrada)
arcaica. Esta experiência da linguagem está profunda e inextricavemente
ligada a uma certa concepção arcaica da linguagem, a uma certa concepção
arcaica de tempo, a uma concepção arcaica de Ser e de Verdade.1
*
Graduando do curso de Licenciatura em Filosofia pela PUCPR.
1 HESIODO. Teogonia: a origem dos deuses, pg. 14.
Itálico meu.
O mito é para quem o vive, uma forma de realidade, é para o mundo
inteligível que dele nasce, uma totalidade indefinível. Configura o mundo em seus
momentos primordiais, relata uma história sagrada; propõe modelos e paradigmas
de comportamento; projeta o homem num tempo que precede o tempo; situa a
história e os empreendimentos humanos num espaço indimensionável, define os
limites intransponíveis da consciência e as significações que instalam a existência
humana no mundo. O mito é uma forma de narrativa. Os mitos apresentamse
como possível explicação ou interpretação da realidade e dos acontecimentos.
Para quem vive o mito, ele é a única história verdadeira, proposta numa linguagem
acessível à gênese do mundo, das coisas e do homem. Os mitos reproduzem ou
repropõem gestos criadores e significativos, que permanecem sustentando a
realidade constituída.
A realidade mítica é sempre cósmica, porque todas as coisas propostas
constituem um cosmos. Não são objetos perdidos num todo desordenado. O
cosmos mítico não é opaco e fixo em sua realidade ontológica. É um mundo
ordenado e vivo, transparente, harmonioso, festivo, mas, acima de tudo,
profundamente coeso em sua unidade. O mundo real apresentase sempre como
uma totalidade. A realidade é uma só, em sua consistência final.
O sobrenatural está presente na natureza, participando na constituição dos
fenômenos vividos ou admirados. Isto não significa que os homens fechassem os
olhos diante da realidade e dos fenômenos da natureza. Eles percebiam a
existência de fenômenos naturais, como a chuva, a tempestade, a maré, a
vegetação, a seca, a umidade, o vivo e o nãovivo, e percebiam igualmente a
relação que há na natureza, entre causa e efeito, bem como a diferença entre
condições favoráveis e desfavoráveis. Não possuem, porém, nenhuma razão para
refletir sobre as ligações entre fenômenos que se verificam sempre. Acontecem por
si, existem, aproveitase deles e isto basta.
Se analisarmos a obra de Aristóteles, A Poética, podemos distinguir três
significados para o mito: uma forma atenuada de intelectualidade; uma forma
independente de pensamento ou de vida e ainda como um instrumento de controle
social. O mito entre os clássicos é tido como uma forma inferior ou até mesmo
2
deformada do pensamento intelectual, ou seja, os gregos atribuíram ao mito
apenas uma verossimilhança com a verdade. Juntamente com essa inferioridade
atribuída ao mito, em determinados casos, é atribuída uma validade religiosa e
moral. Essa atribuição se dá devido á incapacidade de se poder demonstrar
claramente a sua validade através de raciocínios abstratos o que no campo da
moral e da religião, não se faz mister provar a sua validade através de raciocínios
lógicos. Assim, o mito ensina o homem a ter certa conduta em relação aos seus
semelhantes e outra em relação aos deuses. Entre os gregos, o mito sobressaise
como uma forma autônoma de pensamento e de vida. O mito possui vida própria,
ele não precisa de uma validação por parte do intelecto, o que não faz com que ele
deixe de ter o seu grau e validade entre os homens, principalmente entre o grupo
de pessoas no qual nasceu. O mito desempenha uma função social, ou seja,
determinado grupo de pessoas unese e tem no mito o principal ponto de união.
A função do mito não é, primordialmente, explicar a realidade, mas acomodar
e tranqüilizar o homem em um mundo assustador. Para o filósofo romeno Mircea
Eliade (2002) uma das funções do mito é fixar modelos exemplares de todos os ritos
e de todas as atividades humanas significativas. Dentro da sociedade grega antiga,
os mitos são de natureza sobrenatural, como, por exemplo, o mito preocupado com
a origem divina da técnica, da natureza divina dos instrumentos, da origem da
agricultura, da origem dos males, da fertilidade das mulheres, do caráter mágico das
danças e desenhos etc. Percebese nestas formas míticas de explicar o mundo, uma
profunda relação entre mito e natureza.
Antes de iniciar a exposição da presença e da função do mito na sociedade
grega do século IX ao VI a.C., exporemos e analisaremos brevemente o Mito de
Prometeu, o qual é o primeiro mito do qual se possui uma referência escrita. Esse
mito foi escrito por Hesíodo (século VIII a.C.) e está presente em duas obras suas,
na Teogonia e em Os Trabalhos e os Dias. Eis o mito:
Condenados, desde o seu nascimento, aos tormentos e aos cuidados, os
primeiros homens não tinham, para nutrirse, senão frutas cruas e carnes
sangrentas. (...) Tomado de piedade por sua miséria, Prometeu, para
colocar os homens em situação de viver melhor, de defenderse com armas
eficazes contra as feras, de cultivar com instrumentos adequados a nutriente
Terra, resolveu darlhes o fogo e ensinarlhes, com a arte de trabalhar os
3
metais, os meios de escapar à sua deplorável e lamentável sorte. (...)
Aproximandose das forjas abrasadoras de Hefestos, roubou uma centelha
do fogo que fundia os metais (...) e levoua, como oferenda, aos homens. A
humanidade desde então conheceu, com o fogo, a felicidade de viver
melhor, de comer um alimento menos selvagem, de aquecerse, de receber
a luz. Mas, em sua alegria imoderada, ela julgouse igual aos poderes
divinos, esquecendo seus deveres para com os mesmos. Zeus, então, que
não quer que os homens saiam dos justos limites, colocando seus desejos
mais altos que seus destinos, resolveu castigar aquele cujo roubo havia
ocasionado esta presunção sacrílega. Transportou Prometeu para o mais
alto cume do Cáucaso e mandou Hefestos pregar o Titã a um rochedo
escarpado. Contra a vontade, o divino ferreiro obedeceu.
(...) Para cúmulo do infortúnio, todas as manhãs, uma águia de asas abertas
ia pastar em seu fígado imortal, e esse monstro de garras recurvas
devorava, durante o dia, tudo quanto, à noite, aí podia renascer. Esse
suplício deveria durar mil anos, mas, ao fim de trinta anos, Zeus,
apaziguado, perdoou o culpado, consentindo então em introduzilo entre os
Bemaventurados.2
No mito de prometeu existe, de um lado, o homem, o qual age no mundo, e
do outro, os deuses, os quais punem ou recompensam. No mito o homem é
caracterizado como previdente/sutil e ao mesmo tempo irreflexivo/estúpido. Os
deuses e os homens estão separados. Este último recorre ao primeiro para tentar
explicar o seu mundo. Essa divisão se inicia justamente com o mito prometéico. No
Mito de Prometeu estão correlacionados os vários âmbitos da sociedade grega: o
fogo (como significando o roubado); a mulher e o casamento (que implica o
nascimento e a morte); a agricultura de cereais e o trabalho. Dentro da sociedade
grega, esses aspectos sociais servem como um quadro de referência para a
definição do homem, o qual é diferente dos animais e dos deuses, ou seja, todos os
traços que o Mito de Prometeu retém para diferenciar os homens e os deuses,
também podem ser usados para fazer a diferenciação entre homens e animais.
A concepção de mito que temos é uma herança de nossa cultura ocidental. O
mito nos é apresentado como aquilo que não é. Ele se opõe ao real, por um lado, e
ao racional, por outro. Dessa maneira, para obter uma compreensão do que é o
pensamento mítico, precisamos partir dessa moderna forma de interpretação.
Quando nos referimos a um determinado mito, fazse mister estar consciente do que
está presente no contexto daquele determinado mito. Todo mito tem um estatuto
social e intelectual; todo mito tem a sua linguagem e o seu pensamento próprio.
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