30/04/2022
Fiquei assustado quando conheci o sujeito que não abaixava o volume do coração. No meio das buzinas pessimistas e das fumaças cinzentas, sempre era mais forte, a esse homem, o tum-tum ininterrupto de suas vozes e intuições. Gritavam para que ele abaixasse o volume, aconselhavam-no para ser menos empolgado, porém lá estava - na multidão - um pulso influenciador de fé, de crença e de humano. Coração alto não atrapalha o tímpano alheio; muito pelo contrário, acaricia e fraterniza-se pelas dores que a qualquer um ensinam tão bem. Coração volumoso foi produzido no vocábulo "gente", primo do adjetivo "pessoa", por isso jamais temente.
Fiquei assustado quando pude ouvir aquele homem empolgado, vendendo ideia boa, doando outras melhores ainda, falando com educação, mas usando o pulso lacrimejante da persistência, igual ao poeta que apresenta suas obras em alto tom no vão do MASP. Fiquei assustado, mas é com aquele susto bom: "Por que, ó Senhor, deixei um dia que abaixassem o volume das minhas empolgações?" E por ver aquele homem, tão crente de sua caminhada, foi que pude ficar mais curioso para aproximar-me daquela criatura e questionar-lhe: "Que faz de sua alma para que não deixem abaixar seus sons?"
A resposta, cravejada de lição, vivência, humildade, foi uma das nobres rasteiras à minha vida: "Na verdade, nem pensei direito. Quando quis algo, tratei logo de arrancar o botão do volume, para que ninguém nem perguntasse onde poderiam diminuir o meu som. Tratei sempre de jamais deixar que maltratassem o que está em meu peito: de sonho meu eu sei e muito bem. Não é nem egoísmo ou ser rude (porque disso sempre tive asco, nojo): é questão de querer demais que minha vida dê certo. Seu moço, tenho problemas bastantes, mas não tenho tempo agendado para nenhum. Quando eles tocam a campainha, o som que vem daqui de dentro é mais poderoso e só posso ouvir meu puro pulsar. Aprendi uma coisa: se for muito disponível ao que é ruim, vão emudecer todo o seu ser."
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