15/09/2026
VAMOS EMBORA?
Às vezes me dá vontade de perguntar:
Vamos embora?
Porque as coisas por aqui f**aram meio chatas.
O Sonho de Valsa de hoje já não tem mais o gosto do Sonho de Valsa de ontem.
A bala Soft não se encontra mais no balcão da padaria.
O telefone não toca mais na sala e ninguém grita:
“É pra você!”
A gente saía de casa e f**ava incomunicável.
A mãe só dizia:
“Volta antes de escurecer.”
E a gente ia.
Jogava bola na rua, andava de bicicleta, tocava a campainha dos amigos.
Sem celular. Sem localização. Sem mensagens.
A gente simplesmente vivia.
E sabia esperar.
Esperava a música preferida tocar no rádio para gravar na fita K7.
Esperava dias para revelar 24 ou 36 fotografias — e nenhuma precisava de filtro.
Esperava o sábado para encontrar os amigos.
Esperava o Natal.
Esperava as férias.
Talvez por isso as coisas tivessem mais gosto.
Porque antes de ter, a gente desejava.
Hoje temos todas as músicas, todos os filmes, milhares de fotografias, centenas de contatos e respostas para praticamente tudo na palma da mão.
Estamos conectados o tempo inteiro.
Mas será que estamos mais próximos?
Não quero voltar ao passado.
O mundo melhorou e eu gosto de muita coisa do presente.
Só acho que, na pressa de tornar tudo mais rápido, fácil e imediato, deixamos algumas coisas importantes pelo caminho.
A conversa sem olhar para o celular.
O almoço de domingo.
O amigo aparecendo sem avisar.
A cadeira na calçada.
A ansiedade antes de um encontro.
E aquela sensação maravilhosa de que um dia inteiro demorava uma eternidade para acabar.
Hoje piscamos e já é dezembro.
Talvez seja disso que eu sinta saudade.
Não das coisas.
Do tempo que tínhamos para vivê-las.
Então...
Vamos embora?
Talvez para uma tarde qualquer dos anos 70 ou 80.
Uma bicicleta encostada no portão.
Algumas moedas no bolso.
Um rádio tocando ao longe.
E nossa mãe chamando:
“Já está escurecendo. Entra!”
O problema é que um dia ela chamou...
nós entramos...
e nunca mais voltamos para aquela rua.
Talvez a saudade seja exatamente isso:
o coração procurando o caminho de volta para uma época em que ainda parecia